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Candeeiros de escola custaram 20 mil €

Custos com electricidade chegam aos 6 mil euros em Tomar. No Bombarral já não há dinheiro para a conta.

21.04.12
Candeeiros de escola custaram 20 mil €
Os 'famosos' candeeiros de Siza Vieira custaram 20 500 euros e embelezam o auditório da escola Jácome Ratton (Tomar)

Foram mais de 2,2 mil milhões de euros gastos pela Parque Escolar na requalificação de 180 escolas entre 2007 e 2011. Terminada a festa - conforme caracterizou a ex-ministra Maria de Lurdes de Rodriges na comissão de educação no Parlamento -, muitas estão agora com dificuldades económicas para manter os luxos instalados, como os sistemas de ventilação e ar condicionado ou a iluminação que nada serve além de decorar.

Na Escola Jácome Ratton, em Tomar, cuja intervenção total custou 15,37 milhões de euros, a Parque Escolar entendeu colocar numa sala 12 candeeiros de Siza Veira no valor de 20 500 euros onde também existe uma bancada retráctil e eléctrica. Nesta escola, onde as janelas dos laboratórios, por exemplo, não abrem, existe um sistema de ar condicionado - à espera de uma correcta instalação - e um de circulação de ar que não pode ser ligado devido aos custos que isso provoca. "A única vez que o sistema foi ligado na sua totalidade, a factura de electricidade, que anda nos três mil euros de dois em dois meses, passou para os seis mil euros", revelou José Possante, director da Escola.

A climatização das salas de aula é uma das queixas mais frequentes entre os directores das escolas visitadas pelo CM. "Há dificuldade em manter a temperatura confortável sem recorrer à climatização. Deviam existir mais janelas a abrir", reclama Emanuel Vilaça, director da Escola Básica e Secundária Fernão do Pó, no Bombarral, que custou 9,4 milhões de euros.


Os autores deste e de outros projectos, responsabiliza Emanuel Vilaça, "alhearam-se um bocado daquilo que é a nossa realidade". "Os recursos não são ilimitados. A energia é muito cara e foi descurada a necessidade de haver uma climatização natural em vez da artificial", rematou o director que até um campo de râguebi e sala de troféus tem na sua escola.

A encarecer a factura estão também as salas de informática e laboratórios de ciências, biologia, física e química, além da cozinha e restaurante pedagógico para os cursos de cozinha e serviço de mesa.

Para suportar estas despesas, uma das soluções seria a instalação de painéis fotovoltaicos. A solução foi pensada, mas não executada. Optou-se por preparar apenas o edifício para os receber.

Nas Caldas da Rainha, a Escola Secundária Bordalo Pinheiro pode orgulhar-se de poder simular uma gruta de calcário com morcegos no laboratório de Biologia, além de ter a oficina de mecânica das melhores equipadas do país.

O director António Veiga está satisfeito com as instalações renovadas pela Parque Escolar, que custaram 10,6 milhões de euros, mas desespera com os custos que agora tem de suportar. "O aquecimento e o ar condicionado estão desligados porque não temos dinheiro para pagar. Há luzes que não acendemos para reduzir o consumo de energia, porque a factura passou a ser mais do dobro do que era antes da modernização", comentou.

Também nesta escola se pensou instalar painéis fotovoltaicos para ajudar a suportar a conta da electricidade. Pensou-se, mas não se fez. No entanto, a secundária Bordalo Pinheiro tem "uma moderna sala de professores no bloco administrativo que está às moscas". A distância para as salas de aula faz com que os professores não a usem.


As estas preocupações, António Veiga já pensa no momento em que as turmas passarem a ser de 30 alunos. A remodelação reduziu o espaço das salas de aula e poderão não suportar essa alteração. "Ficámos um pouco mais reduzidos. Houve salas que foram eliminadas para criar laboratórios, salas de informática e gabinetes de trabalho", rematou António Veiga.

Na Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, em Espinho, os custos aumentaram proporcionalmente ao aumento da área de construção da escola. "Gastamos duas a três vezes mais do que gastávamos mensalmente. São milhares de euros. Foram colocados equipamentos exigidos por lei, como os da qualidade do ar, o que disparou os gastos com luz e água. Mas quando começamos a ouvir queixas das outras escolas, o que fizemos com a Parque Escolar foi reunir com um engenheiro para ver como tornar o consumo mais eficiente", explicou Hermínia Milheiro, directora da escola.

Algumas das obras ficaram a meio porque a construtora entrou em insolvência. "São alguns pormenores que precisam de ser resolvidos e não conseguimos, porque a empresa não pagou aos fornecedores. Uma vez veio aqui um fornecedor levantar material porque não lhe tinham pago. O caso foi para tribunal e ele recolocou o material", disse.

Na Escola Secundária de Rio Tinto, como os custos aumentaram depois das obras, tentou-se compensar noutras áreas. "Trouxemos a mobília boa que tínhamos e fomos aproveitando. Há aqui sofás que eram do meu antigo gabinete", contou a directora Luísa Pereira.

Na escola mais cara do país, a Escola Quinta das Flores e Conservatório de Música de Coimbra a arquitectura privilegiou o betão. O edifício tem uma entrada imponente. Os dois pisos do edifício central são percorridos através de escadas ou elevador. Mármore em tom escuro envolve a base do edifício principal. As persianas são eléctricas em toda a escola.

Um terço das salas estão equipadas com quadros interactivos e todas as outras têm computador e vídeo projector. As entradas dos alunos são controladas electronicamente e o sistema de renovação de ar (AVAC), mantém uma temperatura constante e qualidade do ar em todo o edifício.

Os espaços são autónomos para as duas escolas, mas há áreas comuns, como a sala dos professores, o refeitório ou a biblioteca. "Recebemos do ministério 1,2 milhões de euros por ano para abate ao investimento e manutenção do equipamento", explica Sobral Henriques. "As instalações contribuíram para uma maior procura desta escola por parte dos alunos. Também subiu no ranking nacional dos exames. Já estivemos no 200.º e agora ocupamos o 37.º lugar ao nível nacional", indica Sobral Henriques.


MÁRMORES E MADEIRAS NA D. FILIPA DE LENCASTRE

Salas de aula com chão em madeira de sucupira, mármores em halls e casas de banho, portas em madeira maciça e o restauro de mobiliário são pormenores da Escola Secundária Filipa de Lencastre, em Lisboa, que custou mais de 18 milhões de euros.

A utilização por parte dos mais de 1300 alunos não se coaduna com a riqueza dos materiais. Com pouco mais de um ano desde que foi inaugurada, o chão das salas de aula já necessita de reparo e a factura da manutenção do espaço ‘pesa' mais de 70 mil euros por ano.

"As salas de aula têm chão em madeira sucupira, do melhor que há, mas não resiste ao arrastar das cadeiras", reconheceu ao CM Gabriela Silva, directora de uma das escolas mais caras do país. Em Lisboa está também a Escola Secundária Passos Manuel, a segunda mais cara do país (26 milhões de euros), a segunda com maior custo por alunos (22 649€) e a que mais gastou por metro quadrado (1618€). Das cinco mais caras do país, três estão em Lisboa.

10 MILHÕES GASTOS EM MOBILIÁRIO

No relatório da Inspecção-Geral das Finanças à Parque Escolar é possível constatar os gastos em mobiliário. Em apenas sete escolas - 5 no Porto e 2 em Coimbra - gastou-se 9, 7 milhões de euros. A Quinta das Flores, em Coimbra, liderou custos com 1,5 milhões.

RELATÓRIOS ARRASAM GESTÃO

A Inspecção-Geral das Finanças e o Tribunal de Contas arrasaram a gestão da Parque Escolar, levando à chamada do ministro Nuno Crato e ex-ministras Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada à comissão parlamentar de educação para darem explicações.


DISCURSO DIRECTO

"DANOS POR MÁ EXECUÇÃO"

Arquitecto Nuno Dinis Cortiços, Investigador a Doutoramento do Departamento de Tecnologias da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, sobre a tese de doutoramento e as obras da Parque Escolar

Correio da Manhã - Que comentário faz aos trabalhos e ao dinheiro investido na reabilitação das escolas secundárias do país?

Nuno Cortiços - O objecto de análise da minha tese de doutoramento "Levantamento do desempenho construtivo dos edifícios do Ensino Superior construídos nas décadas de 80 e 90 - Identificação e Padronização das Patologias Ocorrentes". Enquanto cidadão considero que se deve investir na educação de forma racional e sustentável.

- Acha que isso foi feito?

- Seria necessário aprofundar aspectos técnicos relativos aos processos de edificação e de que forma os edifícios estão a responder às solicitações, para tirar conclusões efectivas. Do ponto de vista racional será necessário avaliar se as escolas têm uma melhoria concreta do ensino face condições que agora possuem. A sustentabilidade deverá garantir a existência da instituição e a sua função social na capacidade máxima, garantindo que a disponibilidade orçamental está ao serviço do ensino e não das instalações. Neste tipo de operações, tal como concluo na tese, devem ser analisadas formas de rentabilizar as instalações (por exemplo salas, auditórios, gimnodesportivos) nos períodos de paragem lectiva.

- A Inspecção-Geral das Finanças aponta o dedo, entre outros pontos, a madeiras nobres, às pedras naturais (mármores) em casas de banho, iluminação decorativa, estores eléctricos, elevadores redundantes e sistemas de rega sem jardins. Justificam-se estas escolhas nos trabalhos de reabilitação de escolas?

- Todas as obras deverão ter um programa que estabelece os parâmetros das intervenções, o qual tem de ser respeitado. Enquanto técnico, refiro que tratando-se de edifícios escolares estes sofrem uma grande pressão por parte dos utilizadores, provocando desgaste dos materiais e danos ao nível soluções construtivas, com resultado significativo sobre os custos de manutenção. Neste sentido os materiais e soluções que refere podem explicar-se para alcançar a maior durabilidade possível face às condições de utilização.

- São já conhecidas deficiências nestes materiais - o chão das salas de aula da D. Filipa de Lencastre, em madeira sucupira, já está riscado. Não teria sido possível optar por outras soluções?

- Como técnico esclareço que a madeira de sucupira tem uma grande densidade, logo grande resistência aos riscos. Os danos poderão ser relativos a degenerações construtivas por má execução ou decisão de projecto (má escolha do produto ou descrição técnica insuficiente).

- Na sua tese faz referência a desvios que são sempre superiores a 40 por cento. Como explica as derrapagens nas obras públicas?

- Os edifícios do ensino superior das décadas de 80 e 90, analisados na tese, demonstram em média uma tendência de derrapagem na casa dos 40%. A tese não se refere às obras públicas no geral, mas apenas a edifícios do ensino superior da década de 80 e 90.

- Que exemplos tem de má construção ou más opções nos trabalhos da Parque Escolar?

- O objecto de análise da minha tese de doutoramento incide sobre algumas construções do Ensino Superior da década de 80 e 90 pelo que desconheço a realidade as intervenções agora realizadas. Pela polémica que envolve, o assunto deveria ser alvo de uma investigação de âmbito académico de componente técnica.

- Considera avançar para a realização dessa investigação?

- É um assunto apelativo. Caso o Departamento de Tecnologias da FA-UTL me dê a oportunidade, seria sem dúvida uma evolução face ao trabalho realizado até hoje.

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