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Correio da Manhã

Boa Vida
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Vida em comunidade no Gerês

No Parque Nacional da Peneda-Gerês ainda há aldeias comunitárias.
Secundino Cunha 7 de Novembro de 2018 às 19:51
Vida em comunidade no Gerês
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
Vida em comunidade no Gerês
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
Vida em comunidade no Gerês
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
Nas mais de três dezenas de aldeias do Parque Nacional da Peneda-Gerês viveu-se em comunidade até à década de 60 do século passado. Era a forma de fintar as dificuldades oferecidas por um terreno agreste e um clima ríspido.

Ligadas por calçadas de carros de bois, sem luz elétrica e a água à distância das fontes naturais, nestas aldeias nasceram gerações de lutadores, habituados à entreajuda. Ao longo de séculos nunca houve chave em porta alguma.

O Mundo mudou. Veio a luz, chegaram as estradas, mas o terreno continua agreste e o clima, apesar do aquecimento, mantém-se agressivo. Por isso, a vida comunitária resiste.

Pastorícia
A atividade que mantém viva a vida comunitária
É a atividade que mantém viva a vida comunitária em várias aldeias de montanha do parque nacional. Há outras, como a eira comum, o moinho do povo, o lagar de azeite comunitário ou mesmo o forno do povo, mas a pastorícia é, de facto, a que melhor resiste. Os dias em que cada um tem a seu cargo levar os rebanhos a pastar estão ligados com o número de animais que possui. 

Fojo do Lobo
Caçar a fera que dizima os rebanhos
Entre as marcas visíveis da vida em comunidade das aldeias serranas do Gerês encontram-se, sem dúvida, os fojos do lobo, essas armadilhas graníticas que ajudavam o povo a caçar a fera que lhe dizimava os rebanhos.

Quando o inverno pintava de branco os píncaros, o lobo descia às imediações das aldeias em busca de comida.
Apercebendo-se da presença do temível carnívoro, os homens organizavam uma batida, de maneira a encaminhá-lo para essa espécie de funil murado, esticado pela encosta abaixo e com um poço ao fundo.

Em alguns casos colocavam uma ovelha ou uma cabra no fundo do dito poço, atraindo assim o lobo à morte. Outras, a maioria delas, armados de ferramentas agrícolas, os habitantes da aldeia obrigavam-no a descer até cair naquela cisterna, seca mas fatal. Esta iniciativa de coragem e entreajuda era um ato intrinsecamente comunitário.

Há, na área do parque nacional, mais de uma dezena deste género de armadilhas, mas as mais conhecidas e aparentemente as mais bem preservadas são a de Fafião, no concelho de Montalegre, e a de Germil, em Ponte da Barca. 

Sobrevivência
O forno do povo é um museu, mas ainda funciona
Assim como nos trabalhos dos campos, na pastorícia ou na defesa dos rebanhos, também na alimentação a vida comunitária se impunha.

As casas de aldeias como Castro Laboreiro, em Melgaço, S. Bento do Cando ou Soajo, em Arcos de Valdevez, Lindoso, ou Germil, em Ponte da Barca, ou na Ermida, concelho de Terras de Bouro, eram, até à década de 60 do século passado, exíguas e possuíam poucas condições de habitabilidade. Eram raras as que tinham forno próprio, pelo que o forno do povo tinha uma utilização assinalável.

O mais conhecido e, de alguma forma, o mais monumental, é o de Tourém. A data gravada no granito aponta para 1868, mas os estudiosos dizem que, pelo tipo de construção, deve ter sido edificado em finais do século XVII.

Tem capacidade para vinte broas e apesar de ser hoje, na verdade, um museu, ainda funciona. E há quem o utilize com periodicidade semanal. 

Vilarinho da Furna
Aldeia mais comunitária submersa desde 1971
Há 50 anos abrigavam-se 300 almas nas casas graníticas desta aldeia do vale do rio Homem, abrigada dos ventos pelos picos rochosos do Gerês. Quando, em 1971, as águas da barragem submergiram a povoação de Vilarinho da Furna, desapareceu a mais comunitária das aldeias da serra. 

Espigueiros
A eira da aldeia que ainda hoje é de todos
Por alturas do S. Miguel, a 29 de setembro, a eira comunitária que se estende entre os espigueiros e o castelo, na aldeia de Lindoso, Ponte da Barca, ganha um fervilhar que faz lembrar os tempos em que só a boa vontade permitia que houvesse lugar para todos.

Hoje, os agricultores que resistem não se debatem com problemas de espaço e até podem tratar das suas colheitas em locais próprios, mas fazem questão de usar a eira e, "como antigamente", de se ajudarem uns aos outros.

É assim no Lindoso e é assim no Soajo, onde o rochedo que forma a eira suporta os velhos espigueiros, todos em granito. E era assim nas restantes aldeias do Gerês, embora o abandono humano tenha, em muitos casos, levado consigo muito do património.

Quem percorrer, por exemplo, as brandas (lugares altos para onde os moradores se mudavam com os seus gados logo que chegava o verão e onde permaneciam por seis meses) da Gavieira, como a de Gorbelas, de Bordença ou da Bouça dos Homens, tem a oportunidade de verificar inúmeros sinais dessa vida comunitária própria das serras.

E ainda hoje, como em Castro Laboreiro, há quem suba com os gados para a branda no início da primavera e os deixe por lá. As pessoas, essas, já não mudam de casa.
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