Barra Cofina

Correio da Manhã

Boa Vida
9

Cervejas que chegam com notas de Porto, moscatel ou madeira

Os cervejeiros artesanais portugueses aplicam um grande domínio técnico adquirido em pouco anos a produtos e sabores locais. O do vinho é a última moda.
22 de Fevereiro de 2017 às 18:10
Álcool
Rui Matias dá a provar o melhor que se faz em Portugal e no estrangeiro
Álcool
Rui Matias dá a provar o melhor que se faz em Portugal e no estrangeiro
Álcool
Rui Matias dá a provar o melhor que se faz em Portugal e no estrangeiro
Num mercado cervejeiro dominado quase a 100 por cento pelo duopólio Unicer versus Centralcer (caso único na Europa em termos de repartição de negócio), o aparecimento, há cerca de 10 anos, de três ou quatro marcas de cervejas artesanais portuguesas foi encarado pelos donos da Super Bock e da Sagres com alguma indiferença. Afinal de contas, não seriam uns maluquinhos barbudos, urbanos e fanáticos por fermentações caseiras que lhes iriam abalar o negócio. E, na verdade, ao nível macroeconómico, ninguém contesta o poder do duopólio estabelecido. Pelo menos por enquanto, mas a realidade mudou nestes últimos anos, numa tendência irreversível.

A saber: alguns cervejeiros amadores deram origem a projetos sérios, com qualidade reconhecida por especialistas nacionais e internacionais, com algum volume de produção e, acima de tudo, com notoriedade junto de um nicho de consumidores que, por razões óbvias, tenderá a aumentar. Longe vai o tempo em que, no país, só havia o festival de Caminha (o ArtBeerFest). E longe vai o tempo em que os cervejeiros artesanais tinham de mendigar, nas lojas ditas gourmet, espaço para os seus produtos. Hoje, o tal nicho crescente de consumidores de cerveja artesanal já disserta sobre Ipas (Indian Pale Ale) como quem discute as nuances de uma Touriga Nacional do Dão ou do Douro. E, atendendo à criatividade que vai pelo país fora, e tendo em conta o nosso clima e a nossa gastronomia, tudo leva a crer que estamos no início de uma pequena revolução.

Nesta edição, por exemplo, apresentamos um perfil muito concreto de cerveja artesanal: cerveja estagiada em barris que, numa vida inicial, receberam diferentes tipos de vinho português (Porto, Moscatel ou Madeira) ou uísque.

Há cervejas que só estagiam em madeiras avinhadas, cervejas que fermentam com um pouco de mosto de vinha ou cervejas fermentadas no meio da vinha.

Como se vê, criatividade é coisa que não falta aos cervejeiros portugueses. Hoje com madeiras de estágio, amanhã com extratos de flores dos jardins mais emblemáticos de Portugal (é só uma ideia). 

O rapaz que acreditou na paixão cervejeira dos portugueses   
Rui Matias criou a cerveteca, em Lisboa, há cerca de dois anos, numa altura em que os bares de cerveja não eram moda cá na pátria. Por isso mesmo, houve quem pensasse que o projeto teria vida curta. Não teve. E, hoje, é ponto de encontro de apreciadores nacionais e internacionais. De gente que só quer provar cerveja e dar dois dedos de conversa e de cervejeiros artesanais com mais ou menos experiência.

O projeto começou com umas seis torneiras de cerveja. Hoje são doze. Isto, além das largas dezenas de garrafas de produções nacionais e estrangeiras.

Em si mesmo, o bar não é apenas um local para beber cerveja, é um espaço de debate sobre cerveja – sempre com um copo na mão, claro.

Os clientes estrangeiros querem provar o que se faz por cá, mas os nacionais gostam de perceber como param as modas no negócio. E, nessa matéria, Rui Matias é uma boa fonte. Sabe o que está a fazer o cervejeiro A ou B, fala sobre um fulano qualquer que só faz cerveja com lúpulos selvagens que colhe junto a um rio e revela que, neste momento, a venda de barricas usadas de vinho começa a ser negócio sério. 
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)