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Correio da Manhã

Boa Vida
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Histórias tatuadas nos corpos

As tatuagens têm acompanhado a evolução do mundo. Já foram olhadas com desdém, agora são celebradas como uma forma de arte.
José Carlos Marques,Nelson Rodrigues,Paulo Fonte(paulofonte@cmjornal.pt),Pedro F. Guerreiro e Tiago Virgílio Pereira 6 de Novembro de 2017 às 19:18
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César Figueira é o responsável do estúdio Para Sempre Tatoos, localizado na Avenida do Brasil, no Porto
Estúdio Piranha, em Viseu
Bad Bones, em Lisboa
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César Figueira é o responsável do estúdio Para Sempre Tatoos, localizado na Avenida do Brasil, no Porto
Estúdio Piranha, em Viseu
Bad Bones, em Lisboa
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César Figueira é o responsável do estúdio Para Sempre Tatoos, localizado na Avenida do Brasil, no Porto
Estúdio Piranha, em Viseu
Bad Bones, em Lisboa
Marcas de personalidade e de rebeldia, reflexos da história. Ainda há poucas décadas ligadas ao lado marginal da sociedade, as tatuagens perderam uma conotação negativa e são agora aceites como uma popular forma de expressão.

Não há um consenso quanto ao seu aparecimento, acredita-se, contudo, que não tenham tido uma única origem. Em 1991 foi descoberta a múmia Otzi – nome é uma homenagem ao local onde foi encontrada, num glaciar perto do monte Similaun, na fronteira da Áustria com a Itália. Data de 5300 anos antes de Cristo, tinha 57 tatuagens com padrões de pontos e linhas simples ao longo da coluna e desenhos tribais numa perna.

As finalidades da tatuagem variaram entre culturas. Os samoanos marcavam a passagem da infância para a idade adulta, os astecas, incas e maias tatuavam-se por questões de estatuto social e religioso. Já no século XIX, a arte nos corpos de marinheiros e piratas foi relacionada com marginalidade, espalhando-se entre prostitutas, presidiários e criminosos.

A palavra deriva do francês ‘tatouage’ que, por sua vez, descende do inglês ‘tattoo’, ligado à palavra ‘tattow’, escrita no diário do capitão James Cook aquando da sua expedição à Polinésia e que descreve os desenhos que os nativos faziam nos corpos e que chamavam de ‘tatau’, o som ouvido durante a execução.

Desde a década de 50 do século XX, muito por ‘culpa’ dos artistas, a tatuagem começou a perder o conceito negativo e a ganhar estatuto de arte.

Nestas páginas conhecemos quatro estúdios, explicamos como tudo se desenrola e respondemos a perguntas frequentes. Entre neste mundo fantástico.

El Diablo Tatoo Club 
Quando Francisco Mascarenhas abriu a loja de tatuagens, a arte de decorar a pele vivia na pré-história da profissionalização em Portugal. Corria o ano de 1990, quando a El Diablo Tatoo Club abriu portas, em Lisboa.

Mascarenhas aventurou-se num negócio que trazia muitos riscos. "Não havia cursos, o que eu aprendi foi a tatuar em casa, com amigos. Mas havia um grande espírito de solidariedade entre tatuadores, viajei pela Europa e aprendi com muita gente", recorda. Francisco, hoje com 53 anos, tornou-se desde cedo o rosto da tatuagem em Portugal, ou não fosse a El Diablo a primeira loja do género do País.

"Fui a muitos programas de televisão, dei dezenas de entrevistas e nunca achei que fosse olhado de lado por quem quer que fosse". A loja e ateliê funciona em pleno Chiado e conta com seis tatuadores e um ‘body piercer’. Mascarenhas tem clientes a chegar de todas as partes e diz que é cada vez mais procurado por mulheres. Com vantagens evidentes para quem trabalha com agulhas "elas têm uma resistência à dor muito maior do que a dos homens". 

Morada: Largo Rafael Bordalo Pinheiro 30A,
Horário: 11h00 às 20h00
Preços: 50 € (valor mínimo)
Contacto: Tel. 213 476 126

Para todos os gostos 
Aberta há quase 20 anos, a Para Sempre Tatoos, na avenida do Brasil, no Porto, é uma das mais prestigiadas lojas de tatuagens da cidade.

O proprietário, César Figueira, diz que as tendências se têm generalizado ao longo dos tempos. "Sou um tatuador o mais eclético possível. Consigo tatuar qualquer género. Conheço uma opção variada de técnicas. As tendências para mim são irrelevantes. As redes sociais fazem com que as tendências acabem. Aqui não há um estilo propriamente dito, nenhum padrão. Tanto faço inscrições, como um japonês ou um tribal", descreve o tatuador, que começou a sua carreira no início dos anos 90.

"Uma tatuagem bem feita é o mais importante para mim. Não discrimino nenhuma tendência. As frases sempre estarão na corrente atual. Tenho um gosto particular no japonês, mas nem sempre o faço. Tenho uma porta aberta para receber os clientes e satisfazê-los", refere César Figueira.

Morada: Av. do Brasil, 464
Horário: 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 19h00
Preços: 40 € (valor mínimo)
Contacto: Tel. 222 086 992

Estúdio pioneiro em Faro 
A ligação umbilical entre música e tatuagem foi o ponto de partida para Jelle Vonck se interessar por esta forma de arte, há mais de 20 anos.

Após um período a que chama de "aprendizagem", e uma breve passagem pelo estúdio Bad Bones, em Lisboa, este algarvio de ascendência belga acabou por montar o seu próprio espaço, no Sul do País. "Na altura era o único, hoje em dia já são quase dez em Faro", refere o tatuador e dono do estúdio Inkside – que entretanto mudou de casa, há dez anos –, explicando o fenómeno com uma explosão que teve origem na internet. "Há 20 anos existia discriminação relativamente a uma pessoa com tatuagens, enquanto hoje o fenómeno popularizou-se", acrescenta.

Jelle Vonck considera-se "mais virado para o estilo asiático", mas reconhece a tendência que descura tatuagens mais artísticas e aponta para "tatuagens minimalistas", a que também corresponde.

Morada: Praça de Alandra, Loja 4, 1.º andar, Faro
Horário: 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 19h00
Preços: 40 € (valor mínimo)
Contacto: Tel. 916 772 173

‘Turismo de tatoos’ de marca mundial 
Falar de tatuagens em portugal é falar da Piranha, um estúdio em Viseu que atrai público nacional e estrangeiro. "Vêm pessoas de todos os cantos do Mundo para tatuar com os melhores", avança o gerente Pedro Miguel Dias.

Por esse motivo, está a criar-se o ‘turismo de tatoos’, um conceito inovador no País e simples de explicar: os clientes, a maior parte com grande poder económico, acabam por ser turistas. Ou seja, vêm de propósito para tatuar em Viseu, mas depois acabam por ficar mais dias para conhecer a cidade e não só, sobretudo Lisboa e o Porto. A Piranha nasceu virada para o realismo, mas hoje, e pela exigência cada vez maior dos clientes, o seu trabalho passa por todos os estilos, com destaque para o neotradicional e o geométrico.

O estúdio aposta agora no selo ‘made in Portugal’. Os tatuadores residentes são quase todos portugueses: Johnny Domus, João Morais, Diogo Aime Minhoto e José Almeida.

Morada: Quinta da Saudade Lote 228, Loja 6, Viseu
Horário: 10h30 às 19h30
Preços: 50 € (valor mínimo)
Contacto: Tel. 232 440 024

As dúvidas mais frequentes 
Fazer uma tatuagem é um processo doloroso?
A técnica clássica implica o uso de agulhas, pelo que é inevitável que haja um certo nível de dor e desconforto. A intensidade varia conforme a pessoa e a parte do corpo.

É possível remover um desenho da pele?
A medicina recorre à cirurgia com laser para remover tatuagens, mas o processo é demorado e dispendioso. Os tatuadores apresentam outra solução, mais simples: tapar a tatuagem original com uma nova.

Qual a idade mínima?
Por norma, os tatuadores só aceitam trabalhar com pessoas acima dos 18 anos.

A tatuagem dura para sempre?
Depende da técnica. As tatuagens tradicionais americana e chinesa, que usam linhas grossas, duram para sempre. Quando se usam sombras, o desenho pode desvanecer a partir do quinto ano.

Desenhos fazem-se com máquina de agulhas e tintas
Máquina. Dispositivo elétrico permite que a agulha (ou agulhas) penetre na pele 800 a 3000 vezes por minuto. O que permite um trabalho mais rápido. 

Cores. Hoje em dia, o leque de cores disponíveis é cada vez mais alargado, acompanhando o gosto dos clientes por desenhos mais detalhados. 
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