Há jovens que não podem contar com a família para os ajudar a crescer. Para eles, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa criou apartamentos onde aprendem a ser autónomos, graças às receitas dos Jogos Santa Casa.
03 de agosto de 2026 às 09:00Fátima e Douglas passaram por casas de acolhimento. Hoje vivem num apartamento em Lisboa, num prédio como qualquer outro, sem placa nem identificação institucional, onde aprendem na prática o que é a vida adulta: fazer as suas refeições, partilhar a casa, gerir o seu tempo e o seu dinheiro. O décimo episódio da iniciativa Boas Causas leva-nos aos apartamentos de autonomização da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).
Com mais de 500 anos de história, a proteção da infância está na origem da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. “Desde a sua origem, começou com a proteção de crianças, nomeadamente através da roda”, recorda Rui Godinho, diretor da Infância, Juventude e Família da SCML. Daquela roda de madeira que recebia bebés abandonados até aos nossos dias, a missão manteve-se. Atualmente, a Santa Casa acompanha crianças e jovens desde as creches, passando por lares, adoção e famílias de acolhimento, até ao momento em que estão prontos para viver de forma autónoma.
Ao longo do tempo foi crescendo também a consciência de que nem sempre a institucionalização é a melhor resposta. “Nós no passado tínhamos um modelo institucionalizador. As crianças, quando precisavam de ser protegidas ficavam em casas de acolhimento, na altura lares, e o que se veio a perceber é que os jovens precisavam de respostas muito mais individuais, muito mais personalizadas”, explica Rui Godinho, sublinhando que “a autonomia vem sendo uma grande aposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa”. Os números confirmam- -no: a taxa de desinstitucionalização fechou 2025 em 61,4%, o que significa que mais de seis em cada dez crianças e jovens à responsabilidade da Santa Casa já não estão em casas de acolhimento.
As autonomias estão previstas na Lei de Promoção e Proteção de Crianças e Jovens como alternativa à institucionalização. Dos apartamentos para quem tem limitações cognitivas a residências como as de Fátima e de Douglas, onde os jovens vivem praticamente sozinhos, gerem o seu dinheiro e o seu dia a dia, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem 18 apartamentos distribuídos por Lisboa, com sete tipologias diferentes adaptadas às necessidades de cada jovem. Como resume Rui Godinho, a intervenção “diferencia em função das necessidades de autonomia de cada público-alvo”.
Os apartamentos acolhem residentes entre os 15 e os 21 anos, provenientes de casas de acolhimento ou de situações de perigo, com quarto individual e zonas comuns partilhadas. Uma equipa de técnicos acompanha cada processo de perto, apoiando os jovens na gestão do quotidiano, na educação, na saúde, no lazer e nas relações familiares - “uma espécie de mentoria e de suporte” no processo de autonomização, segundo Rui Godinho.
Sem qualquer identificação institucional, os apartamentos estão inseridos na comunidade como casas normais, o que também faz parte da preparação para a vida independente. Desde 2004, mais de 600 pessoas passaram por este tipo de resposta. Em 2025 foram 355, sendo que a SCML gere hoje mais apartamentos de autonomização do que todas as outras instituições do país juntas.
Fátima Resende chegou ao apartamento há dois anos, vinda de uma casa de acolhimento e a diferença foi imediata: “Sinto-me mais confiante, tenho mais autonomia e espaço para as minhas coisas, coisa que antigamente eu não tinha, porque estava numa casa de acolhimento muito cheia.” O acompanhamento continua presente, agora ajustado a esta fase de transição. “Eu tenho muito apoio aqui, nos estudos ou com as minhas coisas pessoais. Tenho apoio psicológico, se eu quiser.”
Ter o seu espaço é uma forma de crescimento pessoal. “Conseguir sentir como é a vida adulta lá fora” resume. E, nesta mudança, acresce a responsabilidade: “Tenho que fazer as minhas próprias refeições, tenho que gerir o meu tempo e o meu dinheiro e, como é uma casa partilhada, consigo interagir com diversos tipos de pessoas com diversas personalidades e isso faz com que eu tenha que me adaptar a cada uma. Aprendo muito com elas também.”
Douglas Silva tem 24 anos e chegou ao nosso país com o irmão e a irmã, numa altura difícil no seu seio familiar. Os três irmãos foram primeiro para uma casa de acolhimento em Oeiras e, mais tarde, Douglas transitou para os apartamentos de autonomia da Santa Casa. “O meu irmão já saiu há cerca de um ano e a minha irmã, como é mais nova, está em outro tipo de resposta”, refere.
O que Douglas sublinha, acima de tudo, é a confiança nele depositada. “Acho que nos é dada bastante liberdade, sem dúvida. Aprendemos, literalmente, a ser mais autónomos. É uma prática que, depois, conseguimos aplicar para a nossa vida toda.”
No que diz respeito a viver com outros dois jovens, a receita é simples: “O mais importante é haver respeito e, quando há, a casa é bem gerida e conseguimos fazer aquilo que é preciso.” Ao olhar para o percurso que fez até aqui, Douglas confessa não saber “como é que seria a vida se não fosse esse apoio que a Santa Casa foi dando.”
Os apartamentos de autonomização são financiados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que recebe 26,52% dos resultados dos Jogos Sociais do Estado, sendo a ação social a área que recebe a maior fatia dessa verba, com 59,5% das receitas canalizadas para este setor. Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. “Os apartamentos de autonomia são muito mais do que um teto. Proporcionam um ambiente seguro e estruturado, onde as pessoas podem começar a reescrever as suas histórias de vida”, afirmou o Provedor da SCML, Paulo Sousa, nas comemorações dos 20 anos do programa.
Em 528 anos, a forma de proteger a infância foi mudando da roda de madeira ao apartamento sem placa. O que não mudou foi a missão. É com uma parte das receitas dos Jogos Santa Casa que Fátima e Douglas encontram o espaço, o apoio e a confiança para, um dia, seguirem o seu próprio caminho.
Autonomização em Números
Apartamentos de Autonomização — SCML
- 18 apartamentos distribuídos por Lisboa - 7 tipologias de autonomia diferentes - Mais de 600 jovens apoiados desde o início do programa - 355 jovens em autonomias em 2025 - Taxa de desinstitucionalização da SCML em 2025: 61,4% - SCML gere mais apartamentos de autonomização do que todas as outras instituições nacionais.
Receitas
Jogos Santa Casa (2025)
- 870 milhões de euros entregues ao Estado - 97,3% do valor gerado retornou à sociedade - 26,52% dos resultados destinados à SCML - 59,5% das receitas canalizadas para a ação social.
A iniciativa Boas Causas existe para dar a conhecer o que nem sempre se vê. Fátima e Douglas são dois rostos de uma realidade que existe em Lisboa, de jovens que aprendem a viver por conta própria com o apoio de quem os acompanha de perto. Ao longo de treze episódios, o Correio da Manhã e a CMTV percorrem o país à procura destas histórias. Chegámos ao décimo destino, ainda há mais três por descobrir.