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Mais de metade dos alunos evita ir à casa de banho da escola

A falta de limpeza e de manutenção está entre os problemas que fazem das casas de banho um dos equipamentos mais degradados das escolas públicas.
22 de Abril de 2019 às 08:11

O dia a dia de milhares de crianças e jovens é influenciado pelas más condições nos sanitários das escolas, que em muitos casos fazem adiar, além do desejável, uma ida à casa de banho.

O estudo "Escolas Públicas–Condições de Saneamento e Conservação" revela que 51,7% dos alunos só usam a casa de banho da escola em último recurso e que 6,3% nunca lá vão.

O problema foi diagnosticado em escolas antigas e com poucas obras de beneficiação; em escolas remodeladas, que ainda assim mantiveram problemas estruturais; e mesmo em escolas de construção mais recente. Nestas, as questões mais recorrentes são de saneamento e resultam da sobrelotação das instalações e da limpeza deficiente, que se destaca entre as falhas mais reportadas por crianças e jovens aos pais, um pouco por todo o país.

Um WC por cada 140 alunos ajuda a fazer do 2º ciclo aquele em que há mais queixas

As queixas sobem de tom nas zonas da Grande Lisboa e do Grande Porto, que representam metade da amostra analisada no estudo da marca Domestos e que concentram as escolas com mais alunos. Por graus de ensino, é no 1º ciclo que o cenário se revela menos cinzento, embora mais de metade dos inquiridos também identifique problemas (55%) de higiene nestas escolas.

A explicação pode estar no rácio de WC por aluno: no 1º ciclo, em média, há uma casa de banho por cada 63 alunos. A somar aos números do 2º ciclo – um WC por cada 140 alunos –, o cenário piora no 3º ciclo, com apenas duas casas de banho por cada 150 alunos. Este panorama está longe de agradar a pais e alunos, que reportam em todos os ciclos de ensino o mesmo tipo de queixas e fazem a mesma avaliação negativa deste tipo de infraestruturas.  

As críticas mais frequentes vão para a limpeza deficiente (pouco eficaz e com pouca frequência), mau cheiro, falta de papel higiénico e de produtos de higiene pessoal, autoclismos e torneiras que não funcionam, portas que não fecham, entre outras.

"Temos noção de que este é um problema", admite Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais. À CONFAP chegam vários relatos de escolas onde a "limpeza não é acompanhada com a regularidade necessária", ou de "escolas que pedem aos pais para levar papel higiénico" e que racionam quantidades, corrobora o responsável.

Consequências para a saúde são uma realidade

A Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Secundária do Restelo (APEEESR), presença habitual nos rankings das melhores escolas públicas, recebe relatos do mesmo género. "Na realidade, alguns alunos confirmam que não utilizam as casas de banho da escola por considerarem que estão sujas e por vezes não terem papel nem sabonete. Referem ainda que são limpas apenas ao final da tarde e muitos preferem, por isso, recorrer às da sua casa própria (quando é perto) e/ou a restaurantes próximos", confirma a presidente Fátima Valverde.

Para as crianças, as consequências da falta de higiene e o adiar prolongado de uma ida à casa de banho podem ser diversas, desde o risco de contaminação bacteriológica ou viral, que pode resultar em diarreias, infeções urinárias ou viroses, a problemas renais ou prisão de ventre, alerta o estudo. Mesmo sem consequências físicas mais graves, a falta de condições influencia a vivência escolar dos alunos, o seu estado emocional e, em última análise, a capacidade de concentração.

"Não nos custa perceber que quando não se está bem não é fácil ter a cabeça a funcionar bem, porque isso afeta o bem-estar emocional" dos alunos, admite Jorge Ascenção. "O bem-estar nas escolas não depende apenas do que se passa na sala de aula, toda a envolvente conta", alerta.

Formar, sensibilizar e colaborar. Porque não?

A falta de recursos humanos e até o mau uso das instalações por crianças e jovens são justificações que normalmente se destacam para explicar o mau estado dos WC nas escolas públicas e que o estudo também sublinha.

Jorge Ascenção não as nega, mas defende que o caminho para chegar a uma solução passa muito mais pela colaboração e pela sensibilização, do que pelas medidas restritivas que muitas vezes acabam por ser impostas aos alunos, ou por tentativas de camuflar o problema.

"Temos de trabalhar em conjunto – famílias e escolas – na sensibilização para a necessidade de estimar" recorrendo, por exemplo, a "projetos educativos, que trabalhem mais as questões da cidadania" e ajudem a incutir boas práticas.

Para que este caminho possa ser feito, a CONFAP considera fundamental que as escolas adotem uma posição de transparência e abertura a soluções abrangentes, que possam envolver outros atores da sociedade civil (pais e outros). "Todos nós enquanto sociedade podemos com certeza ajudar em alguma coisa", remata.

Para melhorar a qualidade destas infraestruturas não faltam propostas concretas e a APEEESR elenca algumas, que tem apresentado à tutela para melhorar a Secundária do Restelo. Destacam-se o aumento do número de instalações sanitárias, para que se ajustem à quantidade de população escolar, a realização de obras de recuperação/modernização da infraestrutura física, a promoção de "uma limpeza diária e desinfeção com produtos apropriados e reforço a meio do dia" ou, acrescenta ainda Fátima Valverde "a reposição adequada dos artigos de casa de banho usados".

No terreno, há iniciativas que podem já hoje ajudar a acelerar a mudança que todos pedem, como o projeto Domestos nas Escolas. Alunos, pais ou funcionários podem participar neste concurso e candidatar uma escola pública (do 2º ou 3º ciclo) a uma intervenção para melhorar as condições de limpeza e segurança das casas de banho.