Entre hoje e o dia 1 de novembro, a Casa do Campino recebe a 45.ª edição do Festival Nacional de Gastronomia.
21 de outubro de 2026 às 10:54Começa hoje o Festival Nacional de Gastronomia 2026 (FNG), certame que se realiza há mais de quarenta anos e é hoje uma referência na gastronomia portuguesa. Trata-se de um evento que não promove apenas a tradição, o território e a economia local, mas que se tornou uma mostra dos produtos, dos produtores e das receitas de cada região do País.
João Teixeira Leite, presidente da Câmara Municipal de Santarém, faz um balanço positivo da história do FNG desde que este nasceu, em 1980, “quando ninguém falava de turismo gastronómico”. “Santarém percebeu cedo que a comida portuguesa era uma riqueza e criou um lugar para a mostrar. Foi o primeiro grande festival de gastronomia do País e continua a ser o mais representativo”, sublinha.
Nestas mais de quatro décadas passaram pela Casa do Campino milhares de cozinheiros, produtores, confrarias e municípios. Muitos pratos e produtos ganharam ali visibilidade nacional pela primeira vez. “Hoje o festival faz parte da identidade de Santarém, e as pessoas associam Santarém à mesa de Portugal. Isso constrói-se com décadas de trabalho, e o mérito é de quem o fez e pensou: dos restaurantes às associações, dos trabalhadores do município aos sucessivos executivos municipais”, conta o autarca.
Para a edição deste ano, João Teixeira Leite tem “as melhores expectativas”. Espera que Santarém volte “a sentar o país à mesa” e que, além do festival, os hotéis e os restaurantes da região fiquem cheios, como aconteceu nos últimos anos. “Queremos um festival para visitar e voltar a visitar. Por isso, alargámos as entradas gratuitas. Gostava que muita gente de Santarém e da região viesse mais do que uma vez, e que quem vem de fora saia com vontade de voltar fora do festival.”
Mais comodidade, food influencers e petiscos ao balcão
Novidades não faltam no evento que arranca amanhã e uma das apostas deste ano é, segundo o autarca, elevar a experiência de quem visita o FNG. “Pensámos o festival do ponto de vista do visitante, desde que chega à entrada até à hora de ir embora. Redesenhámos o recinto da Casa do Campino e reorganizámos os espaços, para que a comida, os vinhos, o artesanato, a doçaria e os palcos tenham cada um o seu lugar e se encontrem com facilidade”, explica e prossegue: “O percurso ficou mais simples e mais fluido. Queremos uma visita mais cómoda, com menos filas, menos voltas à procura das dinâmicas e mais tempo para provar, conversar e celebrar o melhor que temos e o encontro com as pessoas.”
Como nos é recordado, um festival com tanta oferta só funciona se for cómodo. Quem levar a família a almoçar, quem for ao fim do dia para um copo de vinho e quem quiser ver um concerto procura coisas diferentes, e todos têm de se sentir bem recebidos.
“Depois há gente nova. Todos os dias vão estar no festival alguns dos criadores de conteúdos de gastronomia mais seguidos do País, a nova geração de food influencers, a que chamámos Chefs do Digital. Vêm cozinhar, partilhar o que fazem e desafiar os visitantes com os seus pratos”, informa João Teixeira Leite. Para o presidente da autarquia, esta é uma forma de se ir ao encontro de um público mais jovem, que hoje descobre receitas, restaurantes e produtos no telemóvel.
Há ainda um regresso às origens. Para João Teixeira Leite, a Taberna da Casa recupera o espírito do petisco ao balcão, com o melhor do Ribatejo. Foi criado também o Prémio Petisco Festival Nacional de Gastronomia, em que os restaurantes residentes apresentam o seu petisco a um júri de três chefs da terra: Rui Santos, Rodrigo Castelo e Maurício Lage. E a organização do evento criou igualmente a Distinção Festival Nacional de Gastronomia, para reconhecer uma pessoa ou entidade que tenha marcado a história do festival. O primeiro distinguido será conhecido no dia de abertura.
Agricultura sustentável e alimento biológico
Este ano, o tema central do evento é a agricultura sustentável e o alimento biológico. Segundo João Teixeira Leite faz todo o sentido que “seja Santarém a puxá-lo”. “Santarém tem à porta a Lezíria, uma das terras mais férteis do País. Queremos que quem nos visita saia a pensar também em quem produz e na forma como produz”, justifica. É um tema que diz muito sobre o caminho que Santarém quer fazer. “O Campus Tejo, Science & Technology, que estamos a preparar, vai trabalhar a ligação entre a água, a agricultura e a alimentação. O festival é uma boa forma de começar a trazer esta conversa para junto das pessoas, à mesa, onde ela se percebe melhor”, relembra.
A organização do FNG também quis que toda a Lezíria do Tejo estivesse nesta montra. Cada município da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo vai fazer uma apresentação sobre um tema que lhe diga respeito. “Santarém não quer o festival só para si. Quer que seja também o palco da região”, destaca.
Além dos restaurantes, o autarca diz que há muito para descobrir. “Temos artesanato, fumeiros, street food, show cooking e alguns dos melhores vinhos. As demonstrações de cozinha ficam a cargo dos alunos da Escola Profissional do Vale do Tejo e do Serviço de Formação Profissional de Santarém do IEFP”, explica João Teixeira Leite, não esquecendo os artesãos de Santarém, a música variada e a animação itinerante que marcarão presença no festival.
Para saber mais sobre o FNG – os participantes, os condicionamentos de trânsito e estacionamento na zona envolvente do evento, a programação – aceda ao site do evento ou site da autarquia.
De segunda a quarta-feira, a entrada no festival é livre durante todo o dia. Quinta e sexta-feira é gratuita até às 18 horas e, a partir daí, o bilhete custa 2,50 euros.
“Faz todo o sentido que o Festival e o Campus Tejo trabalhem juntos”
João Teixeira Leite, autarca de Santarém, acredita que o Festival Nacional de Gastronomia pode ser mais do que uma montra de sabores, destacando a importância de ligar a gastronomia à sustentabilidade, à saúde e ao futuro Campus Tejo, Science & Technology. Impacto económico do evento na região também é recordado.
Este ano, o Município de Santarém quer ligar o Festival Nacional de Gastronomia aos temas do futuro da alimentação, como sustentabilidade, desperdício alimentar e saúde. Por que motivo é importante que estas questões façam parte de um evento gastronómico?
Porque já fazem parte da cozinha. Um cozinheiro hoje preocupa-se com a origem do produto, com o que vai para o lixo, com a saúde de quem come. As famílias também. Portugal está entre os países da União Europeia que mais desperdiçam comida, e boa parte desse desperdício acontece em casa.
Não é por acaso que o tema central deste ano é a agricultura sustentável e o alimento biológico. Um festival que recebe dezenas de milhares de pessoas é o sítio certo para falar disto sem tom de sermão. Não queremos transformar o Festival numa conferência. Queremos que quem cá vem perceba que a gastronomia portuguesa tem muito a ensinar: as nossas avós aproveitavam tudo e cozinhavam com o que a terra dava em cada época. A tradição também serve para pensar o futuro.
E há outra razão. As pessoas querem cada vez mais viver com saúde e com qualidade de vida, e sabem que isso começa no que põem no prato. A boa notícia é que a cozinha portuguesa já tem muito do que hoje se recomenda: o azeite, as leguminosas, os legumes da época, a carne, o peixe e a fruta. Comer bem não obriga a abdicar do sabor. E comer bem é também sentar à mesa com a família e os amigos, sem pressa. O Festival mostra que é possível ter hábitos saudáveis sem perder a essência da gastronomia portuguesa.
Santarém está a preparar o Campus Tejo, Science & Technology, um ecossistema de ciência e inovação ligado à água, à agricultura e às ciências da vida. Que oportunidades pode esta iniciativa abrir para Santarém e para o futuro da alimentação?
O Campus Tejo, Science & Technology é o ecossistema de ciência e inovação que estamos a desenvolver em Santarém, centrado na água, na agricultura e nas ciências da vida. A alimentação liga estas três áreas: começa na água que rega os campos, passa pelo que a terra dá e chega ao prato e à saúde de quem come. É uma ligação natural num território como o nosso, e faz todo o sentido que o Festival e o Campus Tejo trabalhem juntos.
A ambição é que, com o tempo, os problemas que os produtores, as empresas e quem trabalha na alimentação sentem no dia a dia possam ser estudados ao longo do ano, com a ajuda da ciência e da tecnologia. Pode ser valorizar um produto regional, encontrar formas de reduzir o desperdício ou apoiar uma ideia de negócio. É uma visão para os próximos anos, e queremos fazer este caminho passo a passo, sem prometer mais do que podemos cumprir.
Como imagina a ligação entre o Campus Tejo e o Festival Nacional de Gastronomia?
A ideia é que o Festival continue a ser o grande palco da gastronomia portuguesa e que o Campus Tejo, quando estiver em funcionamento, trabalhe ao longo do ano alguns dos desafios que o setor enfrenta. O Festival junta cozinheiros, produtores, empresas e público. É uma boa ocasião para ouvir quem está no terreno e perceber que questões merecem ser estudadas.
O Festival pode também ajudar a dar a conhecer esse trabalho. Com algumas conversas e conferências, podemos trazer temas como a sustentabilidade, o desperdício, os novos produtos, a nutrição e a relação entre alimentação, saúde e longevidade. Seria uma forma de sentar à mesma mesa investigadores, empresas, produtores e profissionais da gastronomia, e de aproximar a investigação da vida real.
A ligação deve funcionar nos dois sentidos. O setor diz quais são os problemas, a academia e as empresas ajudam a resolvê-los, e o Festival é o sítio onde se partilham as ideias e se mostram os resultados ao público.
Tudo isto sem perder aquilo que faz do Festival um evento único: a celebração da gastronomia portuguesa, dos nossos produtos e das nossas tradições. O Festival celebra aquilo que somos. O Campus Tejo pode ajudar-nos a explorar aquilo que podemos vir a ser.
Que impacto económico e turístico tem o Festival Nacional de Gastronomia para Santarém e para os produtores participantes?
O Festival pesa muito na economia de Santarém. Em 2025, o Município apontou para um impacto superior a um milhão de euros e para uma ocupação hoteleira próxima dos 100% durante o evento. Ganham os hotéis, os restaurantes, o comércio e os serviços da cidade.
Mas o Festival faz parte de uma estratégia mais larga para o turismo do concelho. Em 2024, Santarém registou mais de 119 mil dormidas, mais 30,6% do que em 2019. A gastronomia, a par do património e da cultura, é uma das razões que trazem cada vez mais gente a descobrir o território.
Para os produtores, o Festival é uma oportunidade de mostrar o que fazem a novos públicos e de fazer contactos que duram para além dos dias do evento. Para um pequeno produtor, estar num certame com esta dimensão pode fazer muita diferença.
Há também um impacto que não se mede em euros. Durante onze dias, o Festival mostra ao país receitas, produtos e saberes de muitas regiões, alguns que já pouca gente conhece. Quando um município traz a sua doçaria ou apresenta um prato que quase se tinha perdido, está a passá-lo à geração seguinte. Isso também é cultura e é uma forma de manter viva a nossa gastronomia. Mas o benefício não deve ficar pelos onze dias do Festival. Queremos que quem nos visita descubra também os nossos restaurantes, os produtores, os vinhos e o património, e que tenha razões para voltar. Um grande evento só faz diferença na economia local se continuar a trazer pessoas e negócio a Santarém durante o resto do ano.
O que projeta para o Festival Nacional de Gastronomia do próximo ano? O que pode prometer a quem gosta deste certame?
Prometo que o Festival continua a ser o Festival que as pessoas conhecem e de que gostam. Vamos continuar a modernizar com respeito pela história. O que queremos acrescentar, com tempo, é continuidade. A ambição é que o Festival venha a ter vida para além de outubro, com encontros ao longo do ano entre chefs, produtores, investigadores e empresas. A ligação ao Campus Tejo poderá ajudar nisso, sem tirar ao Festival aquilo que o torna especial. Quem gosta do Festival vai continuar a encontrar a gastronomia portuguesa à mesa, e mais razões para vir a Santarém em qualquer altura. E uma coisa é certa: quem vier com fome sai satisfeito e com vontade de voltar. Em Santarém, a mesa de Portugal está sempre posta.
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