No Convento de São Pedro de Alcântara, em pleno Bairro Alto, em Lisboa, a Casa do Impacto apoia quem quer resolver problemas urgentes nas áreas social e ambiental.
29 de junho de 2026 às 10:35A fachada anuncia a missão: “Por uma sociedade de impacto.” No convento de São Pedro de Alcântara, edifício do século XVII no Bairro Alto, no coração da capital, resíduos de demolição transformam- se em materiais de revestimento, a democracia aprende-se a jogar e muito mais acontece todos os dias. O quinto episódio da iniciativa “Boas Causas”, dos Jogos Santa Casa, leva-nos à Casa do Impacto, o projeto de empreendedorismo social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).
Inovação com propósito
A Casa do Impacto abriu portas a 1 de outubro de 2018, mas a história começa dez anos antes. “Desde 2008, a Santa Casas começou a promover uma série de iniciativas ligadas ao empreendedorismo social e, em 2018, decidiu criar a Casa do Impacto, agregando todas estas competências que tinha vindo a adquirir e juntando alguns projetos e organizações num espaço único e 100% dedicado às organizações do futuro”, lembra Nuno Comando, diretor da Casa do Impacto.
O espaço organiza-se em três pilares: a comunidade de empreendedores, o acesso a financiamento e a parceiros estratégicos, e a abertura à cidade de Lisboa através de eventos e iniciativas públicas. O objetivo, nas palavras do diretor, é “dar uma série de competências que lhes permita que os seus projetos ataquem um problema real”.
O modelo parte de um conceito que a própria instituição designa de “quarto sector”, o espaço de interseção entre os setores público, privado e da economia social, onde a inovação pode florescer. Em sete anos, os resultados confirmam-no: a Casa do Impacto apoiou mais de 480 projetos, injetou 3,4 milhões de euros na economia de impacto, estabeleceu mais de 100 parcerias e promoveu mais de 900 sessões de mentoria.
EM SETE ANOS, REALIZOU MAIS DE 550 EVENTOS E WORKSHOPS DE INOVAÇÃO SOCIAL, SUSTENTABILIDADE E EMPREENDEDORISMO.
Hoje, mais de 70 projetos residentes trabalham neste convento transformado, todos alinhados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Em 2023,2024 e 2025, o Financial Times reconheceu o seu trabalho, posicionando a Casa do Impacto no ranking das Europe’s Leading Startup Hubs, a única incubadora portuguesa na lista dedicada exclusivamente ao impacto social e ambiental.
Quando o entulho vale ouro Patrícia Gomes é cofundadora da Matterpieces e o que faz tem tanto de inovador quanto de necessário: transformar resíduos de demolição em materiais de revestimento para arquitetura e interiores. “A Matterpieces aproveita o dito entulho das obras para entrar novamente no ciclo de vida dos edifícios, numa arquitetura circular”, resume.
Desde 2022, a startup desviou 50 toneladas de resíduos dos aterros, convertendo- os em painéis, ladrilhos e revestimentos de parede disponíveis em 13 texturas. Agora, muito do que normalmente termina num aterro tem uma segunda vida. Nos seus primeiros passos, a Casa do Impacto foi o suporte de que precisavam. “Foi super importante para o arranque do nosso projeto, numa fase mais inicial, por exemplo, para perceber como é que um negócio funcionava e até para criar contactos. A Casa do Impacto deu-nos essas bases através de formações, de mentorias e até da própria capacidade de nos pôr em contacto com pessoas mais importantes das empresas para criarmos as parcerias certas”, afirma Patrícia Gomes.
BOAS CAUSAS - A iniciativa “Boas Causas” existe para mostrar o que raramente se vê: por detrás de cada aposta nos Jogos Santa Casa há histórias concretas de mudança. Ao longo de 13 episódios, o Correio da Manhã e a CMTV percorrem o País à procura destas histórias. A Casa do Impacto é a quinta. E é uma das mais voltadas para o futuro, um futuro que se quer muito melhor.
A democracia aprende-se a brincar
Bernardo Gonçalves fundou a MyPolis com o objetivo de aproximar as novas gerações da política. “A MyPolis está a tornar a democracia divertida para crianças e jovens. Desafiamo-los, através de jogos, a aprenderem como é que se participa e a trabalhar em conjunto com representantes políticos para transformar os seus territórios”, conta o fundador. Os programas vão do 1.º ciclo ao ensino secundário: jogos de tabuleiro sobre cidadania, uma escape room digital sobre democracia, um jogo que converte os alunos em agentes de mudança do seu território.
No primeiro ano de existência, a MyPolis venceu o prémio de Democracia Digital da Representação da Comissão Europeia em Portugal. Até à data, chegou a mais de 30 mil jovens em 30 territórios, com 99% dos professores a avaliar positivamente o seu trabalho nas escolas.
O impulso da Casa do Impacto foi determinante. “Tem-nos dado um apoio fundamental na incubação e a mentoria que presta tem sido decisiva para desbloquear e resolver desafios. Além disso, contamos com o seu suporte ao nível do espaço físico — o nosso escritório funciona na Casa do Impacto há muitos anos — e também contámos com o seu apoio financeiro através do fundo da Casa do Impacto, que nos ajudou a escalar o nosso projeto”, refere Bernardo Gonçalves. E a parceria foi ainda mais longe: “Neste momento, está também a colaborar connosco num projeto piloto na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no qual juntamos utentes de centros de dia e alunos de escolas, para que estes dois grupos, juntos, criem propostas capazes de transformar o território onde vivem.”
Um espaço que é de todos
Para além de incubar projetos, a Casa do Impacto abre as portas à cidade. Em sete anos, realizou mais de 550 eventos e workshops de inovação social, sustentabilidade e empreendedorismo. “Uma das coisas que nós fazemos é promover eventos que toquem e que falem sobre algumas destas iniciativas e, no fundo, abrimos as portas para que nós, enquanto cidadãos, possamos compreender alguns destes desafios e percebamos qual é o nosso papel para também poder contribuir para a sua resolução”, sublinha Nuno Comando. A ligação com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai além do financiamento. “É relevante que a Santa Casa possa testar nos seus equipamentos novas metodologias, novas formas de atuar para os problemas do seu dia a dia”, explica o diretor.
Jogar para mudar o mundo
Por detrás da Casa do Impacto estão as receitas dos Jogos Santa Casa. À Santa Casa da Misericórdia de Lisboa cabe 26,52% dos resultados dos jogos sociais do Estado, verba que sustenta respostas tão diversas como lares de idosos, hospitais, restauro de igrejas ou, neste caso, a incubação de startups que querem fazer a diferença. Foram estas receitas que apoiaram mais de 480 empreendedores nos momentos mais decisivos dos seus projetos. Entre eles, Patrícia Gomes e Bernardo Gonçalves, que hoje transformam entulho em materiais de revestimento e levam a democracia às escolas. Os Jogos Santa Casa são, como resume o provedor da SCML, Paulo Sousa, “um agregador em termos sociais, mas um multiplicador muito relevante em termos económicos”. Em 2025, entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. Uma parte dessa verba chegou à Casa do Impacto, onde a aposta de hoje são as soluções do amanhã.
Casa do Impacto
Impacto em números
Casa do Impacto (desde 2018) - Mais de 480 projetos apoiados em sete anos - Mais de 70 projetos residentes atualmente - 3,4 milhões de euros investidos - Mais de 100 parcerias nacionais e internacionais - Mais de 900 sessões de mentoria - Mais de 50% dos projetos têm pelo menos uma female founder.
Jogos Santa Casa (2025)
- 872 milhões € entregues ao Estado - 97,3% do valor gerado retornou à sociedade (o que equivale a 3 057 milhões de euros) - 26,52% dos resultados destinados à SCML - 59,5% das receitas para a ação social, 15,7% para a saúde, 2,7% para a proteção civil, 4,9% para as regiões autónomas..