Vinte e sete telas salvas três vezes. Na Igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos, o Fundo Rainha D. Leonor devolveu à comunidade um tesouro que ela própria tinha salvo, e que as receitas dos Jogos Santa Casa ajudaram a recuperar
08 de junho de 2026 às 09:00João Oliveira e Sousa abre a porta da Igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos como quem entra em casa. “Quando nasci, já a igreja cá estava. Sempre fui educado à volta da igreja e por isso faz parte da minha vida, como se fizesse parte do meu corpo”, diz o curador e provedor da Misericórdia de Salvaterra.
Cresceu a conhecer cada canto destas paredes que, há décadas, guardavam um segredo. Este é o tema do segundo episódio da iniciativa “Boas Causas”, que pretende mostrar como as receitas dos Jogos Santa Casa são devolvidas à sociedade através do investimento em diversas áreas.
Neste caso, houve intervenção do Fundo Rainha D. Leonor, criado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e pela União das Misericórdias Portuguesas, no resgate do tesouro da igreja, bem como a aplicação das receitas dos Jogos Santa Casa na sua recuperação.
Jogos Santa Casa - 97% das receitas são devolvidas à sociedade. Mais de 800 milhões de euros entregues ao Estado no último ano. 26,52% dos resultados destinados à SCML. Mais de 5.200 pontos de venda em todo o País. Os mediadores contribuem para 17 mil postos de trabalho, diretos e indiretos.
Igreja com séculos de História
A Igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos é um edifício de uma só nave, com o altar-mor em talha neoclássica, púlpito e coro de grande valor arquitetónico e painéis de azulejos do século XVIII. O retábulo- mor de estilo joséfico, as peças em ‘stucco’ e as telas com influência de gravuras europeias dos séculos XVII e XVIII fazem deste espaço um lugar de excecional interesse cultural e histórico. A iconografia é rica e diversificada, com painéis que representam as Obras da Misericórdia e os Passos da Vida de Nossa Senhora, numa coleção que permite viajar pela arte sacra portuguesa.
João Oliveira e Sousa, curador e provedor da Misericórdia de Salvaterra, fala dela com a naturalidade de quem a conhece desde sempre: “É uma igreja que é muito importante porque faz parte do culto da população de Salvaterra. Pensa- -se que tenha sido construída no século XVI, mais ou menos, não se sabe bem a data de origem da Misericórdia.” Ao longo dos séculos, o tempo e as intempéries foram alterando a sua fisionomia. E algumas das suas mais preciosas obras estiveram, por mais do que uma vez, prestes a desaparecer.
Uma história de três salvações
“É uma história salvífica”, diz Inez Dentinho, do Conselho de Gestão do Fundo Rainha Dona Leonor. As 27 telas que hoje adornam o teto e as paredes da igreja fo- João Oliveira e Sousa, curador e provedor da Misericórdia de Salvaterra de Magos Inez Dentinho, do Conselho de Gestão do Fundo Rainha Dona Leonor ram salvas por três vezes. “Primeiro, houve uma cheia brutal e a população saiu das suas casas e, em vez de tomar conta dos seus haveres, veio salvar os quadros da igreja.” A segunda vez foi quase acidental, porque “a Misericórdia escondeu tão bem esses quadros, com medo de que fossem roubados, que se esqueceu de onde estavam, no entanto, foram salvos (exatamente) porque foram guardados”. A terceira coube ao atual provedor, que os descobriu, salvou e, “finalmente, o Fundo Rainha Dona Leonor apoiou a sua recuperação".
Obra - 27 telas recuperadas com o apoio do Fundo Rainha D. Leonor, no valor de 215.226
Foi nos armazéns do subsolo da igreja que foram encontradas as peças do trono de Nossa Senhora, guardadas há décadas sem que ninguém soubesse bem onde, e foi a partir daí que a descoberta se tornou revelação. “Por baixo do pó, estavam pinturas originais”, recorda João Oliveira e Sousa. Camada a camada, a purpurina que cobria tudo foi cedendo lugar ao que sempre esteve ali. “Encontram- se os azuis, encontram-se os amarelos, os verdes, tudo isso que estava com purpurina por cima. E os dourados apareceram, dourados esses que são mesmo ouro.”
O restauro devolveu o seu esplendor
A intervenção de conservação e recuperação, apoiada pelo Fundo Rainha D. Leonor, teve um valor total de 239.140 euros, dos quais 215.226 euros foram financiados pelo Fundo. Das 27 telas encontradas, 15 foram restauradas e recolocadas no teto de caixotão, devolvendo à igreja a magnificência de que fora privada durante décadas. As restantes 12 encontraram lugar nas paredes da nave e no núcleo expositivo.
O trono de Nossa Senhora foi integralmente recuperado, as bandeiras da procissão voltaram às paredes e tudo aconteceu à vista de todos. “Foi uma obra de porta aberta em que as pessoas passavam, entravam, ficavam cada vez mais contentes com a evolução”, conta Inez Dentinho.
O resultado fez história na vila. “É uma surpresa total porque há muita gente que diz, ‘ah, eu nunca vi isto assim. Eu nunca vi a igreja como ela está agora’”, afirma João Oliveira e Sousa. “E, por isso, está tudo muito satisfeito e à espera que ainda se consiga encontrar mais alguma coisa.”
Para Inez Dentinho, este caso diz tudo sobre o que o Fundo procura fazer: "É uma obra que a todos envolveu e está aqui para ser admirada e para ser usada.” O Fundo chega onde é preciso O Fundo Rainha D. Leonor nasceu em 2015 de um acordo de parceria entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a União das Misericórdias Portuguesas, inédito em 500 anos de história das Misericórdias. Baseia-se no espírito da autonomia cooperante e apoia projetos sociais necessários, inovadores e sustentáveis nas Misericórdias de todo o País. Desde 2017, alargou o seu âmbito à recuperação do património histórico.
O alcance é nacional. Das grandes cidades ao interior mais remoto, das obras sociais à preservação de um teto seiscentista, o Fundo chega onde é preciso. “Já ajudámos 171 Misericórdias, 59 das quais na área do património histórico, mas temos ainda muito por onde as ajudar.” Salvaterra de Magos é um desses casos, “e é uma história exemplar entre aquelas do Fundo Rainha Dona Leonor”, sublinha Inez Dentinho.
Fundo Rainha D.Leonor Criado em 2015 pela SCML e pela União das Misericórdias Portuguesas, já apoiou 171 projetos (112 sociais e 59 de recuperação de património) num total de 25 milhões de euros investidos.
O jogo que preserva o que é de todos
Por detrás do Fundo Rainha D. Leonor estão as receitas dos Jogos Santa Casa. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa recebe 26,52% dos resultados dos jogos sociais do Estado, verba que sustenta a sua missão nas áreas da ação social, saúde e também cultura e património. É com esse dinheiro que o Fundo chega às Misericórdias de todo o País, apoiando tanto lares de idosos como igrejas centenárias.
“A confiança que os portugueses nos conferem quando decidem jogar num dos jogos da Santa Casa é depois retribuída à sociedade de uma forma tão diversa, mas sempre tão relevante”, afirma o provedor da SCML, Paulo Alexandre Duarte de Sousa. Cerca de 97% do valor gerido pelos Jogos Santa Casa retorna à sociedade. No último ano, mais de 800 milhões de euros foram entregues diretamente ao Estado. E o impacto não se fica pelos grandes números: os mais de 5.200 pontos de venda espalhados pelo País sustentam “pequenos negócios que, em muitos casos, dependem exclusivamente desta atividade para sustentar famílias”, sublinha o provedor.
A Igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos é prova disso. João Oliveira e Sousa cresceu com esta igreja e, agora, pode vê-la como nunca a tinha visto.
Treze histórias, um fio comum
A iniciativa “Boas Causas” revela o impacto concreto das receitas dos Jogos Santa Casa. Ao longo de 13 episódios, o Correio da Manhã e a CMTV mostram o que esse dinheiro constrói, preserva e transforma. A Igreja de Salvaterra é a segunda história desta série. Cada uma diferente. Todas reais.