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Distinguir os melhores a servir o outro

Irmã Ângela é uma dos três vencedores da edição de 2019 dos Prémios Nunes Corrêa Verdades de Faria
30 de Julho de 2020 às 14:34
A irmã Ângela Lopez no Centro Social e Paroquial São João Evangelista
O médico Carlos Valério foi um dos premiados pela SCML
O cardiologista Vítor Gil também foi distinguido com o prémio na Área C
A irmã Ângela Lopez no Centro Social e Paroquial São João Evangelista
O médico Carlos Valério foi um dos premiados pela SCML
O cardiologista Vítor Gil também foi distinguido com o prémio na Área C
A irmã Ângela Lopez no Centro Social e Paroquial São João Evangelista
O médico Carlos Valério foi um dos premiados pela SCML
O cardiologista Vítor Gil também foi distinguido com o prémio na Área C

Quando começou a ouvir falar da pandemia e percebeu que a ameaça da doença iria deixar ainda mais sozinhos e vulneráveis aqueles que já antes eram os mais frágeis e carenciados da sociedade, a irmã Ângela Fernandez Lopez recusou-se a fechar as portas do Centro Social da Paróquia de São João Evangelista. Se os pobres, os doentes, os mais idosos, precisavam dela, ela - aos 88 anos - ali estaria, de pedra e cal, para os amparar.

Por causa dessa decisão e por todos os outros (muitos) momentos de entrega e abnegação para ajudar o próximo, a irmã Ângela é uma dos três vencedores da edição de 2019 dos Prémios Nunes Corrêa Verdades de Faria que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entrega agora para distinguir as diversas personalidades que se destacaram em várias áreas dos cuidados aos doentes e aos mais desprotegidos.

Integrada no Instituto das Franciscanas de Maria, Ângela Fernandez Lopez chegou a Portugal com apenas 23 anos. Não conhecia o País, sabia apenas que aqui precisavam dela. Esteve em várias instituições em Lisboa, e o 25 de Abril ‘apanhou-a’ no Rato. Assistiu de perto à revolução e logo depois, corria ainda o ano de 1974, foi viver para o Bairro da Curraleira em comunidade com as famílias e os idosos, em condições de vida de verdadeira pobreza e miséria. "Eram pessoas que não tinham nada e precisavam de tudo. A começar por alguém que quisesse ajudar", recorda ao CM.

Trabalhou muito e com poucos recursos, até que o seu empenho possibilitou a formação de um convívio na Paróquia de São João Evangelista, na Penha de França, para os idosos mais carenciados. Um trabalho realizado sempre em rede com as restantes entidades da freguesia, para que todos os casos fossem sinalizados rapidamente, e que deu origem à abertura de um Centro de Dia que hoje alberga cerca de cem utentes.

É agora aí que aos 88 anos, cheios de força e fé, a irmã Ângela marca o compasso dos dias junto daqueles que carinhosamente apelida como os seus "velhinhos".

Antes da pandemia, vinham de manhã e voltavam a casa ao final da tarde, "na carrinha, porque muitos têm dificuldade em andar", conta. Levavam o aconchego das refeições mas também os benefícios do convívio, dos jogos de cartas, das canções do coro que a irmã formou.

Com a doença provocada pelo novo coronavírus a deixá-los, a todos, encarcerados em casa, as coisas mudaram. "A maioria está muito triste, quer muito voltar. Isto é muito difícil para todos", confessa. Para que se torne mais fácil, a irmã continua todos os dias a levantar-se muito cedo e a ir para o centro. É aí, com a ajuda de meia dúzia de braços igualmente voluntariosos, que prepara as refeições para serem entregues porta a porta aos utentes do centro de dia e do banco alimentar. A saudade apazigua-se ao telefone: "Vamos falando com todos eles um bocadinho para saber como vão." Enquanto a irmã fala, uma fila lá fora cresce. São cada vez mais as famílias que também precisam de ajuda para comer. A campainha está avariada, mas basta bater na janela. A irmã não nega ajuda a ninguém.

 

O desejo de um benemérito 

Criados em 1987, os prémios Nunes Corrêa Verdades de Faria cumprem a vontade expressa em testamento por Enrique Mantero Belard, reconhecido como um dos últimos grandes beneméritos portugueses.

Os prémios são entregues, anualmente, a pessoas de qualquer nacionalidade que, em Portugal, tenham contribuído, pelo seu esforço, trabalho ou estudos, nos três âmbitos definidos pelo benemérito: cuidado e carinho dispensados aos idosos desprotegidos; progresso da medicina na sua aplicação às pessoas idosas; progresso no tratamento das doenças do coração.

O valor de cada prémio é de 12 500 euros e as candidaturas foram apreciadas por um júri composto por personalidades de reconhecido mérito no âmbito da segurança social e da saúde e presidido pelo provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

A entrega dos prémios decorre na Residência Faria Mantero, no Restelo, deixada por Mantero Belard à Santa Casa, para acolher artistas e intelectuais.

 

Tome nota: 

Nascido em 1903, Enrique Mantero Belard tinha uma vincada personalidade e um especial talento para o comércio e para as finanças, o que lhe permitiu granjear riqueza e poder. Foi casado com D. Gertrudes Eduarda Verdades de Faria, senhora de temperamento afetuoso, generoso e sensível, particularmente atenta aos artistas, idosos e desprotegidos. Falecido a 26 de maio de 1974, Mantero Belard deixou à Santa Casa uma parte dos seus bens, para apoiar a instituição na sua missão.  

 

"Um ‘passado’ que deveria ser o futuro"

Na Área B - Progresso da Medicina na Sua Aplicação às Pessoas Idosas, o vencedor foi o médico Carlos Alberto Valério, especialista em Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna.

Como diretor do Centro de Saúde de Braga, Carlos Valério destacou-se por uma preocupação constante com a humanização institucional e o relacionamento interinstitucional. Neste campo, teve um papel fundamental na implementação das Unidades de Saúde de Vila Nova de Famalicão e de Braga. "Penso que a de Famalicão terá sido uma das primeiras do País. Sobre ambas, políticos e ‘experts’ em saúde continuam a afirmar que este ‘passado’ deveria ser o futuro! E isto porque facilitavam muito a referenciação dos doentes entre centros de saúde e hospitais e vice-versa. Desta forma também os idosos foram beneficiados na melhor e mais rápida acessibilidade e na celeridade na resolução das situações clínicas a resolver", afirma o médico de 68 anos.

Na fase atual da sua atividade, no âmbito da Santa Casa da Misericórdia de Braga, continua a servir a população, procurando "as melhores soluções para os problemas dos nossos muitos idosos dos nossos Lares, Centros de Dia, Apoio Domiciliário etc".

O especialista passou ainda pela Escola de Ciências da Saúde de Braga como professor convidado: "Onde tive o privilégio de trabalhar com o Prof. Joaquim Pinto Machado, um grande homem e Humanista cuja filosofia de implementação do curso de Medicina sempre relevou, para além do modelo biomédico, uma maior preocupação com o psicossocial e muito particularmente com os idosos", frisou.

 

Inovação que muda a vida das pessoas

Opresidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Vítor Gil, foi distinguido com o prémio na Área C - Progresso no Tratamento das Doenças do Coração.

Membro da Direção do Instituto do Coração desde 2003 e Coordenador do Departamento Cardiovascular do Hospital Lusíadas desde 2008, desenvolveu paralelamente inúmeras actividades académicas, sendo responsável por diversas teses de mestrado e doutoramentos.

Na linha da investigação foi investigador principal de vários Ensaios Clínicos Multicêntricos e participou em centenas de palestras científicas nacionais e internacionais.

"Quando desenvolvemos a nossa atividade, os prémios não nos passam pela cabeça, mas é muito agradável ser reconhecido pelo contributo para o conhecimento e tratamento das doenças cardiovasculares", afirmou ao Correio da Manhã.

Doenças de grande incidência na população e alta taxa de mortalidade que, felizmente, especialistas como o doutor Vítor Gil têm conseguido reduzir significativamente.

"Desde os anos 80 que assistimos a grandes progressos a nível da angioplastia, das intervenções coronárias, no tratamento do enfarte do miocárdio por intervenção e pela própria medicação, o que tem tido obviamente repercussões significativas na sobrevivência e no aumento da longevidade", explica o cardiologista. "Atualmente, podemos dizer que em Portugal temos uma prática das mais avançadas. Estamos a acompanhar a linha da frente da inovação que muda a vida das pessoas", conclui o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

 

Menções honrosas: júri atribuiu mais três distinções   

Qualidade, entrega e dignidade em várias frentes  

O júri decidiu também atribuir, por unanimidade, três Menções Honrosas. Na Área A, a primeira distinção vai para a Casa do Povo de Abrunheira, uma IPSS do município de Montemor-o-Velho (Coimbra) que se distingue pela qualidade do trabalho desenvolvido junto da população com doença de Alzheimer e outras demências recorrendo a projetos de estimulação neurossensorial e terapia através da arte. A segunda menção honrosa coube à Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres que presta assistência a crianças e idosos desvalidos em várias instituições, atendendo em particular aqueles que estão mais sós.

Na Área B, também há uma menção honrosa, que será atribuída ao médico Miguel Julião, pelo seu trabalho em prol da dignidade e melhoria da condição global dos doentes em unidades de Cuidados Paliativos.