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“Diagnóstico precoce retarda Alzheimer”

Francisco Ambrósio venceu em 2015 o prémio Mantero Belard, o que permitiu dar continuidade ao estudo o papel da retina no diagnóstico e na avaliação da progressão do Alzheimer.
23 de Janeiro de 2020 às 11:24
Francisco Ambrósio é investigador coordenador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e diretor do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra.
Francisco Ambrósio é investigador coordenador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e diretor do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra.

A doença de Alzheimer manifesta-se, geralmente, em pessoas com idade superior a 65 anos, embora que cerca de 5% dos casos seja detetada mais precocemente. De acordo com os últimos dados disponíveis, datados de 2015, morreram nesse ano, em todo o mundo, cerca de dois milhões de pessoas vítimas de Alzhmeimer. A doença foi descrita pela primeira vez em 1906 pelo psiquiatra e patologista alemão Alois Alzheimer, embora na altura não se imaginasse a sua verdadeira dimensão.


Francisco Ambrósio é investigador coordenador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e diretor do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra. Em 2015 venceu o prémio Mantero Belard, inserido nos Prémios Santa Casa Neurociências pelo seu contributo na investigação relacionada com a doença de Alzheimer, área onde continua a destacar-se, tendo dado continuidade ao estudo sobre o papel da retina no diagnóstico e na avaliação da progressão desta doença.

‘A retina como um espelho do cérebro ou como uma janela para o cérebro'. Em que consiste este estudo?

Este projeto iniciou-se no contexto de um conceito que tem vindo a ser explorado nos anos mais recentes e que resulta do facto da retina e do cérebro terem a mesma origem embrionária, e desta ser considerada uma extensão do cérebro. Assim sendo, se o cérebro é afetado nas doenças neurodegenerativas, por que razão a retina não poderia também ser afetada?


Como foi desenvolvido?

Neste projeto, financiado pela Santa Casa, utilizou-se um modelo animal de doença de Alzheimer. Os resultados obtidos indicam que ocorrem alterações estruturais e funcionais na retina dos murganhos, desde fases muito precoces, as quais se correlacionam com alterações no córtex visual e no hipocampo, sendo este associado aos processos de memória. Atendendo a estes resultados, e apesar de terem sido obtidos num modelo animal, poder-se-á inferir, numa perspetiva translacional para o ser humano, que a possibilidade de analisar a retina, através de exames não invasivos e menos dispendiosos, poderá ser muito útil para fazer o diagnóstico mais precoce da doença de Alzheimer. De notar que o diagnóstico da doença de Alzheimer, sobretudo nas fases precoces, não é fácil de fazer.

Quais os próximos passos da investigação?

Estamos a desenvolver um outro projeto, coordenado pelo professor Rui Bernardes, no qual estamos a utilizar um algoritmo para analisar as imagens obtidas por tomografia de coerência ótica (OCT) desde fases ainda mais precoces (poucas semanas de idade) no mesmo modelo animal de doença de Alzheimer. Este método de análise está patenteado, tendo sido validado em humanos, e portanto poderá ser uma ferramenta muito útil no futuro para se ajudar a facilitar o diagnóstico precoce da doença. Seria muito importante aumentar o número de doentes, para conseguir ter resultados mais robustos, na medida em que num estudo paralelo que realizámos com doentes de Alzheimer apenas foram incluídos cerca de 20 doentes, isto é, um número reduzido. No entanto, estes estudos são muito dispendiosos, e neste momento não dispomos de financiamento para prosseguir com o estudo.


De que forma o diagnóstico precoce ajuda o paciente?

É importante salientar que a doença de Alzheimer não tem cura e, sobretudo, não há tratamentos verdadeiramente eficazes. Contudo, um diagnóstico precoce permitiria desde logo seguir o doente desde fases mais precoces da doença, o que é uma vantagem. Quanto mais cedo se iniciar uma terapêutica farmacológica ou não farmacológica, é maior a probabilidade das terapias serem mais eficazes e permitirem retardar o aparecimento dos sintomas mais graves da doença.


Como foi ser distinguido com o Prémio Mantero Belard?

Foi muito bom! Este prémio é muito competitivo. Representou um reconhecimento pelos pares e um carimbo de qualidade. Além disso, permitiu desenvolver um projeto que queríamos desenvolver há já alguns anos, mas que ainda não tinha sido possível.


Existem pessoas mais atreitas, mais propensas, a padecer da doença de Alzheimer?

Sim, existem. Genericamente, e de uma forma simplificada, a doença de Alzheimer pode dividir-se em dois tipos: o Alzheimer esporádico, que representa cerca de 95% dos casos e sobre o qual não se conhece a verdadeira causa; e o Alzheimer familiar, que representa cerca de 5% dos casos, o qual está associado a mutações genéticas em determinados genes, havendo portanto uma predisposição genética. Os familiares de pessoas com este tipo de Alzheimer têm um risco acrescido de desenvolver a doença. Por outro lado, situações como a diabetes, o stress crónico e atividade intelectual reduzida têm sido associadas a uma maior predisposição para desenvolver a doença.