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Fado está de volta às ruas da Mouraria

Em apenas dois dias, o projeto ‘Fado à Janela’ percorreu ruas da Mouraria, de Alfama, do Bairro Alto e de Alcântara, para encorajar as pessoas a regressar à normalidade possível
10 de Setembro de 2020 às 10:44
A fadista Conceição Ribeiro cantou o fado à janela da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, na Mouraria
Sérgio Cintra e Luna Marques da Santa Casa da  Misericórdia de Lisboa
A fadista Conceição Ribeiro cantou o fado à janela da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, na Mouraria
Sérgio Cintra e Luna Marques da Santa Casa da  Misericórdia de Lisboa
A fadista Conceição Ribeiro cantou o fado à janela da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, na Mouraria
Sérgio Cintra e Luna Marques da Santa Casa da  Misericórdia de Lisboa

Até parece que o fado espantou a pandemia e as aflições. As gentes da Mouraria saíram à rua. Gingaram a anca, com o pezinho a bater irrequieto e fizeram coro com uma das fadistas mais queridas do bairro, Conceição Ribeiro. Os rostos, mesmo de máscara, sorriram.

No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Amália Rodrigues, foi com a iniciativa ‘Fado à Janela’ que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa conseguiu devolver a alegria e a normalidade possível aos seus utentes e à comunidade alfacinha. "Andávamos a matutar sobre o que fazer para minimizar a solidão, o isolamento, os problemas que se agravaram com esta pandemia na nossa cidade e entre os nossos utentes. É um tema que nos está a preocupar imenso, nos idosos e não só. Sentimos que muitos regrediram, inclusivamente. Então lembramo-nos que estamos no ano do centenário da Amália Rodrigues que, nestes bairros, era uma figura muito querida. Surgiu então a ideia: cantar Amália à janela nos bairros mais típicos de Lisboa", explica Luna Marques, diretora da Unidade de Apoio à Animação Sociocultural da SCML.

À iniciativa juntou-se, depois, a Música no Coração, aproveitando a deixa para antecipar o festival da Santa Casa Alfama que vai acontecer no início de outubro. Por isso, nos dois últimos dias, ‘Fado à Janela’ levou a emoção no ressoar das vozes e das guitarras do fado. Não só a Mouraria foi contemplada, mas também Alfama, Alcântara e o Bairro Alto.

Na rua da Mouraria, onde o projeto arrancou, o palco foi a varanda da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, onde os três músicos de Conceição Ribeiro conseguiram em poucos minutos pôr gente do bairro, mas também turistas e imigrantes dos quatro cantos do Mundo a cantar. Assim é a canção de Lisboa, mesclada de muitas cores e capaz de vencer qualquer tristeza.

Depois do ‘aperitivo’, virá o festival. "Tivemos receio de que o festival este ano não se realizasse. Neste momento não podemos planear nada a longo prazo, mas também não podemos ficar parados. Vimos hoje aqui porque não podemos cruzar os braços: as pessoas estão sequiosas de momentos de convívio e alegria e temos de encontrar formas de levar-lhes isso também".

A SCML tem atualmente centenas de técnicos no terreno todos os dias, exclusivamente para dar apoio aos utentes e aos seus familiares nas mais variadas vertentes, presencialmente ou por telefone.

"São muitos os utentes que estão casa, porque os centros de dia continuam fechados. E nós não podemos deixar ninguém para trás", garante Luna Marques. O próximo passo poderá ser o reativar do projeto ‘Animação por Casa’, que levava várias iniciativas recreativas e culturais a casa dos utentes dos centros de dia e poderá voltar já em Outubro a bater à porta de quem está só…

Regresso com o "coração cheio"

Sérgio Cintra, administrador da SCML, explicou ao ‘CM’ que a maior ambição do projeto ‘Fado à Janela’ passa este ano por "transmitir a todos os utentes da SCML que há condições de segurança para regressar o mais próximo possível ao que era a vida antes da Covid-19". "Vemos nesta rua os nossos utentes e também turistas, o que os dá a sensação de estar no bom caminho. E não há nada mais fácil do que fazê-lo através de momentos que nos deixam com o coração cheio", disse. Sérgio Cintra afirmou ainda que a SCML tem vindo a reinventar-nos desde o início da pandemia, transferindo o seu apoio para casa e para a comunidade de todos os seus utentes.

Mais trabalho para músicos e fadistas num ano difícil

Primeiro chegaram os utentes da SCML. Depois, quando a voz poderosa de Conceição Ribeiro se sobrepôs ao bulício da cidade, saíram à rua miúdos e graúdos. Uns de cá, outros de longe, numa emoção que tomou conta de todos. No final do espetáculo de fado à janela, a fadista não conseguia conter a sua alegria: "É tão importante voltar a cantar para o meu bairro, ainda por cima quando é para homenagear a nossa diva, Amália Rodrigues. Ela merece isto e muito mais", começou por dizer. Depois, corrigiu-se e abraçou a cidade inteira. "Eu acho que sou de todos os bairros. Quando cantamos fado e o sentimos, somos de toda a gente e de todo o lado. É o público que nos dá aquela alma, nem que sejam só duas ou três pessoas a ouvir", acrescentou.

Com uma longa carreira feita em casas de fado, Conceição Ribeiro sentiu na pele os revezes dos últimos tempos. "É um ano muito complicado. E ainda não acabou. É triste mas também é mais um ensinamento e mais uma lição que temos de aprender na nossa vida", refletiu.

Logo em seguida, deixou no ar o que todos querem sentir: "Mas estamos cá. E para o ano há de ser muito melhor!" Entre o público, Maria José, residente na Mouraria, 58 anos, partilha a esperança: "Estive dois meses fechada em casa mas agora já estou a trabalhar. Tem de ser. A vida tem de andar para a frente. Valham- -nos momentos como este, que foi tão bom. Hoje vai ser um dia feliz!"

Santa Casa Alfama, aqui o fado continua

É já nos dias 2 e 3 de outubro que o Santa Casa Alfama regressa, numa edição ainda mais especial porque, em parceria com a Fundação Amália, o festival vai comemorar os Cem Anos de Amália.

Adequando-se às normas da Direção-Geral da Saúde, o festival terá um cartaz de luxo. A Gisela João, Marco Rodrigues, Mariza, Kátia Guerreiro ou Jorge Fernando" juntam-se Diogo Piçarra ou Rui Veloso, que não são do fado", disse Luís Montez, diretor geral da Música no Coração.

"Não podíamos passar ao lado os cem anos de Amália e era importante dar trabalho à comunidade fadista que tanto têm sofrido com o encerramento das casas de fado", frisou.