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“Uma tremenda capacidade de reagir à adversidade”

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa comemora hoje o seu 522º aniversário. O Provedor Edmundo Martinho aborda nesta entrevista os desafios que se colocam à instituição.
2 de Julho de 2020 às 07:17
Edmundo Martinho, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Edmundo Martinho, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Aproveitando o aniversário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), o ‘CM’ falou com o Provedor Edmundo Martinho sobre a pressão causada pela atual pandemia, em que a brutal quebra de receitas – na ordem dos 600 milhões de euros – põe à prova a ‘fibra’ da instituição, mas também sobre os desafios que a mais antiga misericórdia do país enfrentará no futuro.

Que significado tem este aniversário, num ano em que o País e o Mundo enfrentou circunstâncias únicas e difíceis?

É um aniversário comemorado em circunstâncias muito especiais. Tem sido um ano de pressão sobre os nossos serviços, sobre a nossa capacidade de ajudar e proteger, mas nem por isso deixa de ser um aniversário significativo. São muitos anos de existência desta instituição e isso representa também a continuação da Santa Casa: encontrar as melhores soluções para que mais pessoas tenham o apoio que precisam.   

A Santa Casa teve de reagir rapidamente para dar resposta a um novo conjunto de necessidades que a pandemia tornou urgentes. Foi uma grande prova de esforço?

A capacidade de resposta das instituições ficou à vista, bem como as fragilidades. Falo não só das fragilidades da Santa Casa mas também as do País e das instituições em geral. Mas por outro, a pandemia trouxe ao de cima esta capacidade tremenda que temos de nos adaptarmos e de reagirmos às adversidades. Conseguimos, todos nós, no País e na Santa Casa em particular, dar uma resposta rápida e assegurar que nesta fase tão difícil ninguém ficava de fora e sem apoio. Agora é importante perceber como é que, daqui em diante, vamos abordar e resolver as fragilidades, para que possamos ter outro tipo de resposta perante circunstâncias semelhantes.

É possível contabilizar o esforço financeiro implicado nestes três meses?

O esforço financeiro diretamente associado à Covid-19 supera largamente os 10 milhões de euros, do lado dos custos adicionais. Tivemos de aumentar em grande escala o apoio no fornecimento de refeições, o apoio financeiro às famílias carenciadas, ao funcionamento das instituições que acolhemos, no acolhimento de pessoas direcionadas pelos hospitais, etc. Houve um grande conjunto de atividades que tivemos de por de pé e que representaram um acréscimo significativo dos custos. E depois, ainda há que somar os custos indiretos. O impacto foi muito enorme, não foi só pelo lado da despesa mas também pelo lado da receita, onde houve uma quebra muito grande por via das circunstâncias. Nos jogos sociais do estado perdemos, em vendas, qualquer coisa como 600 milhões de euros em comparação com o período homólogo do ano passado.

Quantas pessoas começaram a apoiar neste contexto?

No conjunto, mais de quatro mil pessoas passaram a ser apoiadas pela SCML durante a pandemia.


Que desafios se colocam perante o aumento da longevidade numa cidade como Lisboa?

Esse é provavelmente o tema mais crítico que a sociedade portuguesa e a SCML têm pela frente e que se repercute em várias dimensões da sociedade: na habitação, nos transportes, no rendimento, no lazer, etc. Não há nenhum setor da nossa vida que não seja impactado por este aumento da longevidade. Temos de ser capazes de lidar com isso. A nossa ação assenta em três pilares: a manutenção da autonomia (que tem a ver com espaços habitacionais, transportes, rendimento, capacidade de fruir a cidade). Depois o nível de participação na comunidade, que deve manter-se elevado. É preciso que os seniores dêem à comunidade o muito que têm para dar, e que recebam em troca aquilo que têm direito a receber. E depois é preciso que tenham bons cuidados, desenhados em função das suas necessidades. Isto são aspetos que para nós são essenciais e que marcarão muito o trabalho futuro. Tudo o que tem a ver com este aumento da longevidade é, de longe, a área mais pressionada das misericórdias. 

Quais serão as linhas mestras da intervenção da Misericórdia no futuro?

Lançámos um programa – a que chamámos Radar – para identificar na cidade toda as pessoas mais velhas em situação de vulnerabilidade e que será lançado a nível nacional. Vamos lançar novas unidades de cuidados continuados e haverá uma alteração muito substancial dos cuidados domiciliários, tornando-os muito mais promotores de autonomia, de participação, para além de simplesmente promotores dos cuidados que as pessoas precisam.

Noutras áreas de atuação, quais são as grandes preocupações do futuro?

Temos duas grandes preocupações na cidade de Lisboa. Uma tem a ver com as pessoas com deficiência e há duas prioridades essenciais neste domínio. A primeira tem a ver com as acessibilidades nos espaços da SCML. Fizemos o levantamento integral do nosso património para perceber que intervenções e correções temos de fazer para tornar os espaços acessíveis, embora em muitos casos não seja fácil, porque implica intervenções em zonas da cidade de acesso difícil. Mas ainda assim vamos avançar com a correção progressiva das limitações à mobilidade. Ainda neste domínio temos um grande projeto que tem a ver com a empregabilidade das pessoas com deficiência. Queremos dar um contributo decisivo para que pessoas com deficiência possam construir carreiras profissionais, ligar-se a uma atividade e sentir-se parte da sociedade, da qual tantas vezes são afastadas. A segunda preocupação tem a ver com a infância. Temos uma presença muito forte na cidade em ofertas para crianças, em particular creches, e esse é outro dos desafios: assegurar que as nossas crianças tenham a possibilidade de crescer em ambientes saudáveis e proteger aquelas que precisam de proteção. Essa é uma área que muito nos mobiliza também.

A SCML é uma instituição com 522 anos mas também está permanentemente a impulsionar a inovação científica e tecnológica, através de projetos como os Prémios Neurociências ou a Casa do Impacto. Como é que se coadunam estas facetas?

É o que tem permitido à Santa Casa manter esta vitalidade. Temos consciência que se não inovarmos, não sobrevivemos. E a Santa Casa tem feito isso ao longo dos séculos. Foi pioneira no momento em que se iniciou e tem sido pioneira ao longo dos séculos na forma como aborda os assuntos e antecipa alguns deles e no modo como prepara e disponibiliza respostas, mantendo aquilo que é a sua característica essencial: a estimação pelo interesse das pessoas mais frágeis e vulneráveis é a espinha dorsal do nosso funcionamento. Depois há também um corpo com esta capacidade de inovar, encontrar novas soluções e melhorar aquelas que existem.