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Museu de São Roque expõe relíquias

Peças integradas no projeto vão estar patentes ao público até 29 de janeiro de 2023
10 de Novembro de 2022 às 10:54

Na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque, em Lisboa, está patente ao público a exposição ‘Relíquias? O Projeto Reliquiarum’, que surge do estudo da importante coleção de relíquias e relicários da Igreja de São Roque. “Um património ímpar, tanto pela dimensão religiosa, como pelo caráter artístico das peças que as protegem: os relicários”, faz questão de explicar Teresa Morna, diretora do Museu de São Roque, frisando o investimento que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem feito no estudo, difusão e reabilitação do património que tem à sua guarda, particularmente aquele que está afeto à Igreja de São Roque.

Depois de ter desenvolvido, entre 2012 e 2015, um projeto integrado de restauro, estudo e musealização das coleções da Capela de São João Batista, o Museu de São Roque iniciou em fevereiro de 2022 o estudo da importante coleção de relíquias e relicários da Igreja de São Roque, um projeto de investigação sob a coordenação do professor António Camões Gouveia, da Universidade Nova de Lisboa, com uma metodologia que conduz a um conhecimento global desta coleção, “ convocando outros saberes e disciplinas das Ciências Humanas, como a Antropologia, a Sociologia e a Teologia, para que a coleção possa ser entendida em diferentes perspetivas e dimensões”, conforme refere a responsável.

O projeto integra também oficinas temáticas e palestras. “Esta é a primeira de oito exposições intercalares semestrais que, juntamente com as oficinas temáticas, visam apresentar publicamente, os resultados da investigação que serão publicados em cadernos temáticos”, explica Teresa Morna.






“Um património ímpar pela dimensão religiosa e carácter artístico”


Teresa Morna é a diretora do Museu de São Roque


A coleção da Igreja e Museu de São Roque conta com um universo de 266 relicários e cerca de 1000 relíquias. “As relíquias [reliquiae (do latim) restos humanos] do Museu de São Roque são maioritariamente restos de partes do corpo de um ou vários santos; mas também podem ser objetos relacionados com eles, como vestimentas ou instrumentos do martírio, a que se chamam relíquias de contacto ou de segundo grau.

A generalidade das relíquias e relicários de São Roque foram doados à Companhia de Jesus entre os séculos XVI e XVIII, encontrando-se, na atualidade, expostos à contemplação na igreja e no museu. Referem-se maioritariamente a santos de igrejas do centro e Norte da Europa, de regiões onde ocorreram confrontos religiosos decorrentes da Reforma Protestante, do que resultaria a interdição do culto e da devoção às imagens, banindo as relíquias de santos. A exposição, que estará patente ao público até 29 de janeiro de 2023 pode ser visitada de terça-feira a domingo, das 10h00 às 12h00 e das 13h30 às 18h00 (última entrada às 17h30). O acesso é gratuito. Futuramente, o projeto poderá ser aberto a outras instituições, criando redes num âmbito multidisciplinar de estudo.



Relíquia da Santa Casa de Misericórdia de Sousel e par de relicários da Santa Casa da Misericórdia de Celorico da Beira


Conjunto de relíquias da Santa Casa de Misericórdia de Viana do Alentejo




"Pequenos objetos com grandes explicações"


O que são relíquias?

São relíquias o corpo dos santos e os seus objetos de quotidiano e oração, tudo o que possa estar ligado à vida da Virgem Maria e de Jesus Cristo, com destaque para os instrumentos da Paixão. Mas, também, todos os objetos que com eles tiveram contacto. E todos os pequenos e grandes objetos do dia a dia que cada pessoa destaca e a que tem afeição, que cada um guarda e não esquece, não são eles próprios outras relíquias?

A afirmação é muito clara e precisa. Mantém a proximidade da relíquia à cultura teológica cristã-católica, a oposição que caracteriza a cultura cristã-reformada e avança com uma proposta de alargamento que a cultura atual tende a abraçar e que no reliquiarum gostaríamos de aferir, reflectir, compaginar e investigar.



“A relíquia resulta da atitude de crença devocional dos outros”



Que tipos de relíquias há?

Há inúmeras classificações tipológicas das relíquias em que as crenças de aceitação do poder da relíquia se submetem e são explicadas pelos teólogos. De forma imediata e definitória, a relíquia é ou corporal ou resultado do seu toque com outros objectos. Esta é a grande divisão.


Reprodução galvanoplástica de arqueta do Sec. XV do Museu Nacional de Arte Antiga



Como se identifica uma relíquia?

Não se trata de como identificar, mas de quem identifica uma capacidade de intercessão, na parte de um corpo ou num objecto ligado a esse corpo. Quer dizer, a relíquia não nasce por intervenção, imposição ou invenção daquele a quem pertence. A relíquia resulta da atitude de crença devocional de outros. São os outros que criam a relíquia de determinado homem ou mulher. A relíquia pode ser manobrada, utilizada, inculcada, reproduzida, mas é sempre uma construção de memórias, identidades, patrimónios, crenças, forças não humanas e capacidades de ligação ao divino realizadas por outros. Ou seja, a relíquia é um objecto de cultura material que atesta camadas de alteridade.

Professor António Camões Gouveia




“A preocupação dos investigadores é resolver a relíquia”



E como se relacionam com as muitas vidas e virtudes dos santos?

Uma pergunta interessante e muito complexa. Aqui está uma das perguntas que, sucessivamente, obriga a estudos de história e antropologia do religioso. Estamos num nível de investigação em que concorrem diferentes áreas do saber social, como a história e antropologia já referidas, mas, de imediato, a história da arte, da literatura, da espiritualidade ou a sociologia do religioso. Considerar os Santos, seus corpos e objectos, as suas virtudes e práticas relatadas, mesmo os milagres conseguidos em vida, impõe e possibilita uma reconstrução de percursos de posse, de identidade, de vulgarização que ultrapassam o campo do religioso e, em muito e sempre, do eclesiástico. A nossa preocupação enquanto investigadores está em tentar resolver a relíquia, isto é, colocá-la no centro do laboratório e nela encontrar os sucessivos sistemas de dúvida, de afirmação, de permanência. Ora, nesse trabalho meticuloso, a dimensão religiosa extravasa e obriga-nos a encontrar as sociedades, as sociabilidades, os poderes, as crenças ou os rituais de devoção de uma determinada época. As relíquias são pequenos objectos que permitem grandes explicações.


Relíquia da Santa Casa de Misericórdia de Amarante

Relicário do Santo Espinho da Coroa de Cristo do Museu de São Roque

Conjunto de Relicários do Santo Espinho da Coroa de Cristo e Pintura de Cristo coroado com espinhos, Museu de São Roque

Por Boas Causas