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Baú de memórias dos homens bons de Lisboa

Arquivo Histórico da SCML vai ficar disponível online. Sinais dos expostos são ex-líbris.
26 de Maio de 2022 às 16:25
Francisco D’Orey Manoel, diretor do Arquivo Histórico da SCML
Carla Antas de Almeida, responsável pelo departamento de benemerências da SCML
Francisco D’Orey Manoel, diretor do Arquivo Histórico da SCML
Carla Antas de Almeida, responsável pelo departamento de benemerências da SCML
Francisco D’Orey Manoel, diretor do Arquivo Histórico da SCML
Carla Antas de Almeida, responsável pelo departamento de benemerências da SCML

O Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) guarda toda a documentação produzida ao longo dos seus mais de 500 anos de atividade ininterrupta e, por isso, é ‘a memória’ da mais antiga instituição de ação social do País. "Apesar de o seu programa ter sido instituído em 1498 – quando a rainha D. Leonor a fundou e definiu juntamente com os irmãos seus parceiros na fundação as suas obras – em prol dos mais fracos e desprotegidos, sejam eles os pobres, os presos, os peregrinos, os refugiados, etc. – a Misericórdia manteve-se sempre atual e com uma atividade fundamental, atividade essa que produz documentação que integra o seu arquivo histórico", lembra Francisco D’Orey Manoel, diretor do arquivo.

"Infelizmente tivemos um grande ‘trauma’, que foi o Grande Terramoto de 1755. O edifício da Santa Casa veio todo abaixo e o cartório ardeu. A maior parte da documentação anterior a 1755 perdeu-se. Foi o ano ‘horribilis’ da Santa Casa. Por um lado, pela destruição das nossas estruturas e, por outro lado, porque passou a haver muito mais gente necessitada", explica.

Salvaram-se, contudo, os "sinais" relativos às crianças expostas na roda de Lisboa (que se encontravam noutro lugar), e que hoje constituem um dos ex-libris do Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Estes ‘sinais’ são compostos, na sua maioria, por um "bilhete", ou seja, um documento em suporte de papel, no qual o progenitor, ou alguém por ele, registava informação sobre o menor, considerada necessária ou útil. O ‘sinal’ servia essencialmente como marca e elemento individualizador da criança mas, por vezes, era também aproveitado para registo, entre outros, de angústias, das causas da exposição e, também, de transmissão de pedidos relativos ao futuro da criança.

Desde então, têm vindo a somar-se "os ofícios, as deliberações, os estudos, os testamentos, as benemerências, os registos das atividades ligadas aos sem-abrigo, à saúde, aos presos, no fundo, testemunhos do dinamismo da atividade da SCML ao longo dos séculos, que foram preservados para incentivar a investigação histórica", justifica Francisco D’Orey Manoel. O arquivo está aberto ao público na sede da SCML, no Largo Trindade Coelho, a maiores de 18 anos (menores só com uma autorização especial), mas em breve, "milhares de documentos" que também contam a história da cidade e das suas gentes vão também passar a estar disponíveis online.



"Fazer o bem ao próximo e salvar a alma"


Carla Antas de Almeida é a responsável pelo departamento de benemerências da SCML. Ao CM, explicou as devidas distinções neste capítulo: "Nas benemerências incluem-se heranças e legados, ou seja, bens que a SCML herda após o falecimento do testador e também doações, quando o bem é dado em vida".

Todavia, a Santa Casa não herda apenas o património, mas também os encargos. "A grande preocupação noutros tempos era a salvação da alma. Muitas vezes deixava-se dinheiro à misericórdia para que se rezassem missas perpétuas", ilustra. Ainda hoje, a SCML celebra atualmente 701 missas anuais perpétuas. Esporadicamente, porém, a SCML faz um pedido especial ao Papa para libertar essas e permitir que as verbas possam ser canalizadas para a ação social. "A nosso cargo ficou também a conservação de 1300 jazigos, maioritariamente em Lisboa", explica Carla Antas Almeida, demonstrando que nem todas as ‘heranças’ se traduzem em lucro. A proteção à Santa Casa vem desde os primórdios. "A nossa sede, por exemplo, é uma doação régia. Desde sempre que a misericórdia é protegida pelo poder régio e pela sociedade, dos mais abastados aos mais pobres. As benemerências surgem como forma de agradecimento por algum tipo de apoio que a misericórdia tenha prestado em vida, para apoiar obras específicas – como os dotes para órfãs, por exemplo, porque no século XVI, XVII, uma rapariga tinha de ter um dote para fazer um casamento melhor, para os órfãos, os peregrinos etc. Eram também formas de alcançar salvação da alma, garantindo uma atuação eficaz para os recursos doados", frisa Francisco D’Orey Manoel.




Entrevista a Luís Lima, técnico Arquivo SCML


"Preservar a identidade das pessoas"

Como era dada a conhecer a vontade dos beneméritos?

Através dos testamentos. Têm um enquadramento religioso sobre as cerimónias fúnebres e têm as atribuições, em que se deixa os bens e também os encargos. No arquivo temos também registos da gestão desse património que nos foi confiado e documentos pessoais.


É fácil ler esses documentos, tendo em conta as alterações que a língua e a escrita sofreram?

Com base na paleografia, consegue-se ler.


Em termos históricos, o que revelam?

Quer os testamentos quer os documentos pessoais (fotografias, relatos de viagens, cartas, anotações pessoais, faturas, etc.), dão-nos a conhecer aquela pessoa, a sua posição na sociedade, a forma como via o mundo e fazemos a classificação desses registos porque o nosso objetivo é também preservar a memória daquela pessoa, a sua identidade.








Alguns beneméritos da Santa Casa


Enrique Mantero Belard

Enrique Mantero Belard e a sua mulher Gertrudes Eduarda Verdades de Faria foram, no século passado, dois dos maiores beneméritos da SCML. "Temos uma residência para idosos que nos foi deixada por Mantero Belard. Era seu desejou que acolhesse concretamente pessoas de mérito, cultas e necessitadas. Todos os anos continuamos a cumprir também o seu desejo de premiar pessoas que se tenham distinguido nas áreas do apoio a idosos, e das doenças cardiovasculares ou ligadas à idade, através dos Prémios Nunes Correa Verdades de Faria ", explica Carla Antas de Almeida.

Claudina de Freitas Chamiço

Uma das grandes beneméritas da Santa Casa foi Claudina Chamiço.  Detentora de uma enorme fortuna, fundou o Sanatório de Sant’Anna, na Parede, inaugurado a 26 de julho de 1904, para se enquadrar no programa de luta contra a tuberculose, doença que entre o final do século XIX e o princípio do século XX dizimava pessoas de todas as idades. O hospital constituiu um projeto avançadíssimo para a época, no qual estiveram envolvidas figuras notáveis da medicina, das artes e da arquitetura. Graças à bondade e ao espírito de liderança de Claudina Chamiço, milhares de vidas salvaram-se.

Família Domingos Barreiro

Para todo o sempre, o nome Domingos Barreiro figurará como sinónimo de empreendedorismo, sucesso, fortuna mas também solidariedade. Três gerações da mesma família, ligada primeiro ao império dos vinhos e depois à fundação do Banco Português do Atlântico, e que nos finais da década de 50 doou à Santa casa da Misericórdia de Lisboa várias casas na zona oriental da cidade, para que fossem utilizadas para obras sociais. Foi assim que nasceram a Unidade de Saúde e o Centro de Acolhimento Infantil Dr. José Domingos Barreiro, há 50 anos ao serviço da população de Lisboa.

Carolina Paiva de Andrade

Uma história de dor e amor ao próximo. Em memória da filha precocemente falecida aos 22 anos, vítima de tuberculose, Carolina Picaluga Paiva de Andrade determinou em testamento a criação de um instituto de ensino destinado a acolher 22 alunas oriundas de famílias carenciadas. A instituição deveria ficar alojada no palácio que serviu de morada à família, na rua de São Boaventura, no Bairro Alto, e que após a sua morte foi doado à Santa Casa. É aqui que funciona ainda nos dias de hoje o Centro Social de São Boaventura da Misericórdia de Lisboa.

Por Boas Causas

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