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“Chegou-se ao ponto de dar consultas à noite”

Sintomas de ansiedade, stresse consumo de substâncias agravaram com a pandemia. Equipa da Unidade W+ da SCML deram novas respostas.
1 de Abril de 2021 às 07:39

A Unidade W + é uma resposta em saúde mental da Direção de Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que tem como objetivo a prestação de apoio psicológico e psicoterapêutico a pessoas em situação de risco e vulnerabilidade psicológica. No último ano, dominado pela pandemia, cada um de nós foi posto à prova.

Na Unidade W+, explicou a diretora, Isabel Queiroz de Melo, não houve mãos a medir na criação de condições para dar resposta a quem o chão faltou de repente.

Dizem alguns especialistas que uma das maiores sequelas desta pandemia serão as repercussões na saúde mental. Concorda?

A sequela da pandemia na saúde mental é aquela que poderá provocar danos mais irreversíveis e com risco de maior invisibilidade, muitos dos quais se irão manifestar a médio ou longo prazo e de forma multidimensional.

Como têm sentido o impacto nos vossos serviços?

Surgiram novas necessidades para as quais foi possível criar novas respostas de proximidade, marcadas por uma abrangência relevante em função da realidade de cada utente. Conseguiu-se assegurar de imediato, no primeiro Estado de Emergência em teletrabalho, a quase totalidade das nossas respostas. A doença mental está presente nos nossos agregados e a pandemia, juntamente com o confinamento, deu origem ao despoletar de surtos psicóticos e agravamento dos casos clínicos. Contudo, encontramos também na nossa população, fatores protetores que acreditamos serem reforçados no acompanhamento que temos prestado, permitindo que a vulnerabilidade dê lugar à resiliência. Muitos utentes mobilizaram-se para criar as condições físicas necessárias à prática psicoterapêutica, chegando-se ao ponto de dar consultas à noite por ser o único período em que o utente conseguia ter privacidade.

Durante este último ano, que novos motivos têm levado as pessoas ao vosso encontro?

A experiência da proximidade da morte, o luto pela perda de pessoas significativas, o desespero do desemprego e das perdas económicas, o isolamento físico de familiares e amigos, a ausência de respostas securizantes, a interrupção da vida, a preocupação constante, o medo e a incerteza face ao futuro, o aumento doo suicídio como porta de saída. A prevalência dos sintomas de ansiedade, depressão e perturbação de stress pós-traumático.

Os mais jovens são igualmente afetados?

As consequências nas nossas crianças e adolescentes, já bem detetáveis, ainda não têm toda a sua expressão, mas sabemos que estão lá…

Segundo um estudo da Universidade do Porto, a procura de apoio psicológico aumentou 450% no último ano. Mas nem sempre é fácil pedir ajuda. Acredita que exista muita gente a precisar de apoio em silêncio?

Sem dúvida. Muitas vezes as pessoas acham que quando há problemas ou preocupações, só a resolução dos mesmos poderá ajudar. É comum pensar-se ‘falar não ajuda’ ou que ‘os remédios fazem mal’. Sinais como ansiedade, medo incapacitante, sentimentos de tristeza persistentes, baixa auto-estima, dificuldades de concentração, falta de prazer nas atividades de lazer habituais, desespero, irritabilidade, pessimismo, alterações nos padrões de sono ou alimentação, isolamento, ideias de morte, consumos excessivos de álcool e drogas são indicadores de que é importante pedir ajuda, para que esses comportamentos não tomem conta do indivíduo.

Que tipo de modelos de apoio existem na Unidade W+?

 As respostas prestadas adaptaram-se ao contexto, procurando ser mais imediatas, intensas e flexíveis, aumentando o número de sessões semanais, incluindo sessões de monitorização e de psicoeducação. Mantiveram-se algumas respostas grupais, prescrições e consultas médicas. Esta proximidade veio assim diminuir a sensação de isolamento e de desamparo, saindo reforçada a relação terapêutica. Foi criada uma resposta de apoio psicológico telefónico anónimo, direcionado aos colaboradores que estavam na linha da frente. Este foi muito importante especialmente para quem trabalha em serviços de saúde, lares ou apoio domiciliário.

 A abordagem também pode ser multidisciplinar?

A boa articulação foi fulcral na intervenção de pessoas com vulnerabilidades em múltiplas frentes. A possibilidade de uma resposta multidisciplinar através das consultas de psicologia, enfermagem, psiquiatria, medicina geral e familiar, serviço social, terapia ocupacional e desporto permitiu intervir de uma forma diversificada em várias frentes: foi feita psicoterapia, intervenção em crise, monitorização regular em casos de elevada vulnerabilidade, planeamento familiar em casos de risco, consultas de enfermagem e encaminhamentos para consulta de psiquiatria e medicina geral e familiar, aconselhamento em saúde e planeamento familiar, etc. O Serviço Social da Unidade W Mais reforçou igualmente a sua ação na articulação de pontes com equipas e entidades externas. Foram realizadas ações para a promoção de saúde e hábitos de vida saudáveis através da criação de rotinas, exercício físico on-line, etc.

Têm pessoas em espera?

Sim, nos três núcleos: crianças, adolescentes e adultos. Numa primeira triagem, avaliamos o grau de risco e gravidade da situação, a lista de espera é feita a partir do critério clínico. Há situações em que não conseguimos disponibilidade imediata para acompanhamento psicoterapêutico mas procuramos que as pessoas tenham ‘suporte’ através das nossas outras valências.