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Jovens em risco dão lições de vida em podcast

Kenny, natural do Congo Brazaville, esperou um mês e meio em Dakar, no Senegal, até viajar clandestino para Lisboa com apenas 16 anos. Agora a estudar cinema é um dos protagonistas do podcast da Santa Casa, “Palavras para um lugar”, que dá voz às vidas dos jovens apoiados na medida de autonomia.
1 de Dezembro de 2022 às 10:55
Kenny Gad, 21 anos
Kenny Gad, 21 anos

As histórias de vida inspiradoras de jovens que foram apoiados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) na transição para a autonomia cabem agora num podcast intitulado “Palavras para um Lugar”, uma ideia do sociólogo Miguel Lamas, transmitido quinzenalmente na Rádio Voz Online na Cossoul. A primeira edição foi no dia 16 de novembro com uma entrevista ao diretor da Equipa de Integração Comunitária (EIC) da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o psicólogo João Bicho.

Em cada programa, Miguel Lamas, técnico da EIC, convida o jovem entrevistado a escolher uma frase da Declaração Universal dos Direitos Humanos pelo significado como linha orientadora de vida. Mas é um conceito flexível e, por isso, no segundo podcast transmitido na quarta-feira, 30 de novembro, Carolina Marques, de 22 anos, escolheu antes um poema: “Afinal a melhor maneira de viajar é sentir”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. Carolina é, toda ela, sentimento e viagem introspetiva. Natural de Lisboa, teve de sair de casa com apenas 13 anos porque os pais viviam em conflito.

Institucionalizada até aos 18 anos, um ano depois começou a ser acompanhada pela EIC da Santa Casa e agora está a ser apoiada pela instituição na medida de autonomia enquanto estuda Makeup e Hairstyling na Escola Tecnologia Inovação e Criação (ETIC), em Lisboa.

“Para além do subsídio mensal de 443,20 euros, cada jovem tem um gestor do processo da Santa Casa que o ajuda em várias etapas, a alugar um quarto, a gerir as compras de casa, na organização financeira e de consultas de saúde, entre outras coisas”, explica Miguel Lamas.

Com o podcast “Palavras para um Lugar”, Miguel quis dar protagonismo a jovens cuja coragem e determinação inspiram novos e velhos. De Lisboa, o programa irá “viajar” para uma história de vida que começa no Congo Brazaville no próximo dia 14 de dezembro.

Kenny Gad, congolês de 21 anos, contará, no seu português mesclado com o francês, como esperou um mês e meio em Dakar, no Senegal, até ser transportado para Lisboa com a ajuda de uma rede de auxilio à imigração ilegal. Foi há cinco anos: Kenny, então com apenas 16 anos, já tinha sido marcado pelo filme “Pulp Fiction” de Quentin Tarantino mas desconhecia por completo a história da cidade onde aterrara, Lisboa, ou do país chamado Portugal. O seu destino seguinte era Paris, onde a mãe vive, mas acabou por escolher ficar em Lisboa, onde conseguiu asilo, teve o acolhimento do Centro Português de Refugiados (CPR) e frequentou o ensino secundário.

Agora, com o apoio da Santa Casa, está a seguir o sonho de estudar Cinema e Televisão na ETIC ao mesmo tempo que vive no seu próprio lugar habitado por palavras novas deste idioma que reclama agora como seu.




O podcast "Palavras para um Lugar" passa na rádio voz online na Cossoul quinzenalmente




Kenny recorda no podcast como começou cedo a ter experiência em ser autónomo, ainda em Brazzaville. “Quando vivia com o meu pai ele trabalhava o dia todo e eu ficava sozinho em casa e tinha de cozinhar pratos para mim”. O pai, que é informático, não queria que Kenny se juntasse aos grupos violentos da zona onde residiam, que era “como alguns locais da linha de Sintra”, comparou. O jovem foi educado com regras e está “agradecido” ao pai pelos valores que recebeu e o tornaram na pessoa responsável que é hoje.

Kenny também sabe que aquilo que os seus olhos viram no país natal o marcaram de forma indelével para a vida. “Houve um período de referendo no meu país, eu fui para as ruas ver o que se passava e os helicópteros estavam a mandar gás lacrimogénio. É algo que eu só vejo nos filmes e que vivi”, contou no podcast.

O jovem congolês que quer ser realizador de cinema já tem, na sua própria vida, um argumento à espera de ter imagens em movimento.

Outros futuros protagonistas do podcast “Palavras Para um Lugar” são Aua Embaló, de 21 anos, que frequenta o segundo ano do curso de Educação Social no Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo e é uma jovem ativa na luta pelos direitos humanos, e Murilo Matias, 22 anos, que estuda no curso de Artes e Humanidades na Faculdade de Letras de Lisboa.




A missão da equipa de integração comunitária com os jovens


João Bicho, psicólogo, diretor de EIC da Santa Casa, que trabalhou em projetos de luta contra a pobreza e realojamento social, explicou no primeiro podcast qual a missão a que se propõem. “Esta equipa tem uma intervenção muito ambiciosa: procura, através da medida de promoção e proteção da autonomia, tornar estes jovens independentes. Estamos a acompanhar 150 jovens, entre os 16 e os 24 anos. Não é fácil porque em Portugal vivem com as suas famílias até aos 33,6 anos e trabalhamos para estes jovens estarem independentes o mais tardar até aos 25 anos”.

“São jovens que por várias razões não conseguem ter o apoio familiar e que por isso precisam do apoio institucional ao nível de um subsídio que os ajuda nas várias despesas. Vêm de casas de acolhimento, muitos deles migrantes, refugiados, passaram por muita coisa. Para grande surpresa nossa, muitos têm uma maturidade acima dos que não passaram por muita coisa e com histórias extremamente interessantes”, descreveu João Bicho.

Para terem o apoio financeiro da Santa Casa é regra que estejam a estudar. Mas muitos conciliam com o trabalho para se poderem sustentar melhor. Apesar de poderem morar com a família durante a vigência da medida de autonomia são “muito poucos os que o fazem”, como referiu o diretor da EIC.




Miguel Lamas, técnico da EIC


Aua Embaló, 21 anos



O técnico da EIC e criador do podcast Miguel Lamas, que é gestor de processos, explicou que “99% dos jovens tem um processo de promoção e proteção de menores, ou ligado ao tribunal ou à CPCJ”. As medidas de autonomia duram 5 ou 6 meses e depois são prorrogadas. “Enviamos relatórios para o tribunal sobre a evolução de cada caso. Cada um dos 13 técnicos ou gestores de processos tem 12 casos ou jovens. Trabalhamos essencialmente na relação, estar com o jovem, conversar com ele e estar disponível para as suas palavras, o seu lugar e para o que necessita. Isto implica ir com ele a uma consulta médica, visitar o espaço onde foi viver, ir com ele ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. E também perspetivar o futuro, saber como é que ele se vê daqui a um, dois ou cinco anos”.

“Para estes jovens fica uma porta aberta na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa” como diz João Bicho. “O que diz a lei é que quando acaba a intervenção há seis meses no mínimo de acompanhamento mas alguns precisam de mais tempo. Temos jovens que já cessaram a medida e dois anos depois contactam a pedir ajuda para determinados serviços e nós ajudamos, há um vínculo que é mantido para quem o quer manter”, concluiu o diretor da EIC da Santa Casa. Podem ser vínculos de amizade para a vida. Afinal, há muitas palavras para os lugares povoados por estes jovens e elas enchem a alma de quem as ouve.






Para estes jovens fica uma porta aberta na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa


João Bicho, psicólogo, diretor de EIC da Santa Casa


Por Boas Causas