Barra Cofina

Correio da Manhã

Especiais C-Studio
9
Especiais C-Studio
i
C- Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do Universo
É o local onde as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

"Obesidade em Portugal tem forte carga genética"

Tratamento com cirurgia metabólica e bariátrica, com acompanhamento multidisciplinar, consegue minimizar o problema do excesso de peso e combater muitas das doenças associadas
25 de Novembro de 2021 às 12:00
O professor e médico cirurgião Rodrigo Oliveira lidera uma equipa multidisciplinar no Hospital Cruz Vermelha
O professor e médico cirurgião Rodrigo Oliveira lidera uma equipa multidisciplinar no Hospital Cruz Vermelha

Todos os dias, o coordenador do Centro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Cruz Vermelha, o professor e cirurgião Rodrigo Oliveira, vê chegar pacientes em fim de linha. Pessoas a quem a obesidade roubou a saúde e a oportunidade de uma vida normal. Mas há esperança para quem se atrever a mudar, com o acompanhamento médico especializado de uma equipa multidisciplinar, que "ao fim de um processo muito longo", se torna "uma verdadeira família para o doente", conforme explicou o responsável.

Correio da Manhã – O flagelo da obesidade aumenta em Portugal. É a fatura cara da era da industrialização ou há outros fatores?
Rodrigo Oliveira –
Tem muito a ver com o modo de vida atual, claro, mas também com fatores genéticos. Nesta era da industrialização e da comodidade, deixámos de ir para a escola e para o trabalho a pé ou de bicicleta. As crianças passam seis a sete horas a ver televisão, o que é grave e piorou com a pandemia. Temos à disposição uma enorme oferta de produtos processados para a alimentação que facilitam a nossa vida, mas que, aliados ao reduzido gasto calórico, contribuem para o aumento de peso e para as doenças metabólicas. Em Portugal, a genética tem também um peso muito grande na obesidade e nas doenças metabólicas. Por exemplo, na Alemanha há mais gente com excesso de peso, mas em Portugal a obesidade é mais frequentemente acompanhada por outras patologias.

– As cirurgias bariátricas e metabólicas têm também impacto na remissão das doenças tipicamente associadas à obesidade?
Quando se começou a fazer as cirurgias de restrição verificou-se que as doenças metabólicas – como a hipertensão, o colesterol e a diabetes – também melhoravam muito. Percebemos até que, muitas vezes, é a própria doença metabólica que causa a obesidade, o acúmulo de gordura visceral, e não o contrário. Portanto, ao mudar o metabolismo, estamos a tratar essas doenças. Agora, quando um diabético toma medicamentos para controlar a diabéticos está apenas a evitar as complicações da doença e não a tratá-la. Por isso, costumo dizer que em Portugal, o acompanhamento destes doentes é mau, porque deveria ser multidisciplinar... mas não é. Às vezes, até a cirurgia restritiva não é eficaz porque falta este tipo de acompanhamento. Cada obeso é uma pessoa diferente e é preciso destinar-lhe o tratamento e a cirurgia mais adequada.

– Recebem doentes do Serviço Nacional de Saúde? Em que condições?
Muitos. O Hospital Cruz Vermelho faz parte dos hospitais de referenciação. Há doentes que esperam seis ou sete anos por uma cirurgia no SNS, mas a verdade é que ao fim de nove meses de espera podem pedir a referenciação.

– Além da cirurgia, que outras especialidades integra a equipa?
Uma endocrinologista, fundamental para tratar e controlar as doenças metabólicas, uma nutricionista, para reestruturar a alimentação, e um psicólogo que acompanha todas as mudanças. Sempre que vejo um doente, ele é consultado por todos os outros médicos também. Exijo que sejamos como uma família para o paciente e que estejam sempre disponíveis para serem contactados por este. Eu próprio estou sempre contactável, através do hospital, através do meu email ou do Facebook . Até podem pedir primeiras consultas por email, pois muitos doentes sentem-se mais confortáveis em partilhar as suas histórias por escrito.

"Foi a melhor coisa que já fiz por mim"

Fátima Guedes, 62 anos, professora do primeiro ciclo, foi diagnosticada com diabetes do tipo II há 17 anos. Desde então, o peso não parou de aumentar. Chegou aos 90 quilos, distribuídos por 1,66 de altura.

"A maioria dos portugueses não veria na Fátima uma pessoa obesa", afirma o médico Rodrigo Oliveira. Mas os diabetes "muito graves" estavam a levar-lhe a vida aos poucos.

Fátima agiu, encorajada pela filha, depois de ter descoberto o departamento de Rodrigo Oliveira no Facebook. "Foi a melhor coisa que fiz por mim. Já perdi 31 quilos e 31 centímetros de perímetro abdominal. Já não tomo medicamentos para a diabetes nem para a tensão arterial, porque já não tenho estas doenças. Gosto mais de mim", garante Fátima.

"Voltei a poder acompanhar os meus alunos"

Antigo campeão de boxe, atual treinador da seleção nacional, Paulo Seco travou durante muitos anos um combate renhido contra a obesidade.

No auge da carreira desportiva, competia na categoria de 67 quilos (tem 1,76 de altura), mas quando a rotina da alta competição deixou de fazer parte dos seus dias, foi ‘atacado’ por uma depressão e rapidamente chegou aos 200. "Cheguei a fazer dieta e perdi 50 quilos, mas depressa o peso voltou", afirma.

A pandemia não trouxe melhor prognóstico: "o sedentarismo aumentou. Estava longe da minha academia de boxe, não podia treinar os meus alunos".

Dos amigos e dos alunos, alguns deles campeões a dar cartas nos campeonatos nacionais, veio a motivação que faltava para procurar ajuda. "Como fui atleta, tinha muita obesidade, mas quase nenhuma doença associada. Só tinha tensão alta", diz.

Desde que foi operado, já perdeu 40 quilos, mas sabe que a luta é para continuar. Mas agradece ao médico que o operou, quando muitos outros o recusaram: "Eu estava na ‘red line’. O Dr. Rodrigo devolveu-me a qualidade de vida. Estava a perder a mobilidade e voltei a poder acompanhar os treinos dos meus alunos."

"Uma equipa que sabe aquilo que estamos a passar"

Aos 23 anos, Gonçalo Teles perdeu a conta às vezes que deixou de sair com os amigos ou de ir à praia por causa do excesso de peso. O estudante de gestão turística e hoteleira foi operado somente há um mês e, desde então, já perdeu 11 quilos dos 134 que somava desde os 15 anos.

"Quando constatei que não conseguia subir umas escadas sem ficar ofegante, percebi que algo não estava bem. Ainda estou no processo de reintrodução alimentar, mas sinto que já muita coisa mudou para melhor. Tenho mais energia, durmo menos", confessa. Uma nova dinâmica que Gonçalo espera ser uma boa ajuda para o início da vida profissional.

"Tive muita sorte com toda a equipa. Pessoas muito sensíveis, que não fingem... sabem mesmo aquilo que estamos a passar", afirma.

"Esta equipa salvou-me a vida"

Um acidente de mota aos 18 anos marcou a viragem na vida de Flávio Santos. Ao acidente, seguiram-se quase 20 cirurgias, que não serviram para evitar a amputação de uma perna nem a perda do emprego.

"Uma sequência de azares que me fizeram engordar e perder a mobilidade", conta. Mesmo assim, Flávio reinventou-se. Desenvolveu os dotes vocais, fez-se cantor, chegou a brilhar num concurso televisivo para novos talentos. No fundo, fez o que pode para se manter à tona. "E acredito que só não fui mais longe por causa do aspeto. Excesso de peso e a falta de uma perna não são bons requisitos para a vida artística", admite.

Flávio chegou a pesar 193 quilos. Operado há nove meses, está agora com 127 quilos. "Esta equipa salvou-me a vida", diz o cantor, de 42 anos. "Pude voltar a trabalhar e a atuar a cem por cento outra vez. Voltei a assumir compromissos, para atuar em eventos, festas e batizados, canto no meu bar. É uma segunda chance para ser feliz", diz.