Correio da Manhã

“Desativámos as primeiras minas antipessoal na Guiné”
Foto Direitos Reservados
Por Fernanda Cachão | 12:30
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Havia grupos de combate, patrulhas e restante trabalho. Mas sempre com a arma carregada a tiracolo.

Em 1963 foi formado um batalhão mobilizado em Évora. Aí fui encontrar o meu camarada de curso e amigo, capitão Melo Parente, cuja esposa estava à espera de bebé. Passados uns dias, pediu- -me para trocar com a companhia dele, que ia ser deslocada para Faro, em virtude da distância a Lisboa lhe dificultar a assistência familiar. Acedi de imediato e assim fiquei a comandar a Companhia de Caçadores nº 555. Fomos destinados à Guiné.

A Companhia de Caçadores nº 555 ficou independente, o que na realidade já constava desde que tinha ido para Faro, onde toda a preparação era de sua iniciativa, o que foi excelente, exceto no treino de espingarda G3, que não existia, só se dispondo das Mauser.

Ficámos em Bissau oito dias, no treino, até partirmos para Cabedu, no sul da Guiné, em plena mata do Cantanhês, a maior e mais densa região.

A viagem, feita numa barcaça, teve que atravessar uma zona em que as margens ficavam a cinco metros de distância e a vegetação era tão fechada que só se via a folhagem. Em dado momento, o tiroteio foi muito intenso sobre a barcaça e tivemos o primeiro ferido grave.

Em Cabedu, havia diariamente um a dois grupos de combate, em patrulha e emboscadas, e os dois restantes em trabalhos diversos, mas sempre com a arma carregada a tiracolo. Rapidamente aprendemos que tínhamos que avançar pela mata a abrir caminho à catanada e regressar abrindo outro caminho, porque nos restavam dois jipes e dois ‘jipões’. As restantes viaturas estavam danificadas pelas minas. Era esse o procedimento para não cair em emboscadas e sermos nós a fazê-las.

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Resolvi mandar cortar duas palmeiras que, depois de descascadas, foram, às escondidas dos nativos, pintadas com tinta de camuflagem; de seguida mandei abrir dois bidões de modo a ficarem com a chapa direita na vertical pintada de verde. Colocámos de cada lado duas rodas das viaturas destruídas pelas minas; as palmeiras foram inclinadas na posição de canhões e, por cima de tudo isto, colocaram-se redes de camuflagem. Pareciam mesmo dois canhões verdadeiros.

Recomendei aos militares que guardassem segredo desta artimanha. Depois de tudo pronto, mandei chamar os chefes das populações e expliquei-lhes que tínhamos ali canhões, como podiam observar a 50 metros de distância. Consegui com isto que a guerrilha tivesse conhecimento de que estávamos bem armados!

Passadas umas semanas tivemos a visita do brigadeiro comandante militar que, a uns 20 metros da rede de camuflagem, me disse: "Você tem cá dois obuses e acho muito bem, aqui é que são necessários." Quando chegou mais perto, ficou pasmado e disse: "Você iludiu-me bem" e riu-se. "Mas eu vou enviar-lhe de reforço um pelotão de artilharia com três bocas de fogo." Assim foi.

Tivemos a sorte de detetarmos e desativarmos as primeiras minas antipessoal que colocaram na Guiné. Tratava-se de minas POMZ de fabrico soviético, constituídas por uma granada explosiva de fragmentação, fixas ao solo por um espeto de madeira e detonadas através de arame de tropeçar. Tinham colocado seis minas com os arames interligados entre elas, mas felizmente não nos voltámos a deparar com mais nenhumas.

Também tivemos êxito em algumas emboscadas que efetuámos à noite. Numa operação em que fomos reforçados com um pelotão de paraquedistas e metemos a corta mato para surpreendermos a guerrilha, o alferes Rézio, que ia à frente, ao atravessar o rio na maré vazia ficou de repente enterrado no lodo até aos ombros e, à luz da lua, lá o conseguimos salvar com uma corda debaixo dos braços. Se não tivéssemos levado umas cordas não sei o que seria.

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Relato de António José Ritto 

Comissão Guiné 1963-1965
Força Comandante da Companhia de Caçadores nº 555

Em 1971 passou à reserva e depois à reforma.

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