“Foi muito duro ver sete urnas na parada”
Perdemos sete homens numa emboscada (...) Não iam minimamente prontos ou preparados para abrir fogo e defender-se em caso de ataque.
Fiz a recruta na base de Santa Margarida, antes de seguir para a guerra em Angola, onde fiquei 27 meses.
Integrei o Batalhão 1931, que ficou aquartelado em Quibala, uma zona só de mato, deserta de gentes, sem qualquer povoação. A noção missão era guardar uma fazenda de café.
Ao fim dos primeiros seis meses sofremos o golpe mais duro. Perdemos sete homens numa emboscada. Tínhamos uma capitão miliciano que era uma joia de pessoa, nunca dava castigos, e se calhar por causa disso também havia alguma descontração. Mas essa descontração saiu muito cara. Naquele dia seguiam três carros de duas secções diferentes, com cerca de quinze homens, mas levavam todos as armas no chão ou por baixo dos bancos. Consta que estavam cansados e que não iam minimamente prontos ou preparados para abrir fogo e defender-se em caso de ataque.
Ouviu-se um tiro. O furriel levantou-se, pensando que tinha sido um dos nossos a dar tiro – não havia autorização para o fazer sem ordem superior. Mal se levantou e perguntou quem tinha aberto fogo, foi abatido. Os outros foram depois atacados a tiro e à catanada.
Um dos carros, o último, conseguiu voltar para trás. Esses safaram-se e chegaram ao quartel a pedir reforços. Os outros ficaram lá. Até lhes cortaram os dedos e os pulsos para lhes levarem os anéis e o relógio. Também roubaram as armas.
Quando os reforços lá chegaram, só encontraram um homem vivo, que apesar de ferido se tinha embrenhado no capim e escapara com vida. Foi o único que conseguiram salvar.
Foi muito duro ver sete urnas na parada e saber que aqueles já não voltavam mais. Mas depois disso não houve acidentes com grande gravidade, ou seja, com baixas. Houve problemas, mas passaram-se. Fiz o melhor que pude para sobreviver.
Os 27 meses que passei em Angola foram duros mas houve uma coisa de que gostei muito: o tempo. Adorava aquele clima. Se calhar, se tivesse lá a família e a namorada, tinha ficado por lá.
Ainda não era casado quando fui para África, mas já tinha namorada. Na semana em que fui a casa dos meus familiares despedir-me, houve grandes inundações na bacia do Tejo. Até saíram fotos nos jornais de um suíno em cima do telhado de uma casa. Eu escrevi uma carta à minha namorada a despedir-me, mas nunca lhe foi entregue, por causa das cheias. Felizmente, conhecíamos-nos muito bem. Só depois, quando eu já estava em África, recebeu as minhas cartas. Esperou por mim. Somos casados há 53 anos.
Fernando Silva
Força: Exército
Batalhão de infantaria 1931
Idade: 80 anos
Atualidade:
Vive em Leiria e gere uma serralharia
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt