Rabia fugiu da guerra em Moçambique com a roupa do corpo e agora quer evitar as doenças
Sem outro abrigo, encontrou refúgio no pavilhão desportivo de Pemba, onde a proteção civil moçambicana dá hoje teto a 80 famílias.
Rabia Hilário, deslocada de Palma, fugiu da guerra no norte de Moçambique com a roupa do corpo e ajuda agora quem também procurou refúgio em Pemba.
Sem outro abrigo, encontrou refúgio no pavilhão desportivo de Pemba, onde a proteção civil moçambicana dá hoje teto a 80 famílias, mais de 350 pessoas, cerca de metade crianças - os números têm variado consoante a chegada de deslocados após o ataque a Palma, em 24 de março.
Ali, todos esperam que o tempo passe, ora sentados no campo de jogos, ora a dormir nas bancadas à volta, por entre os seus molhos de pertences, tudo num chão de cimento onde recebem ajuda alimentar, a ver se se mantêm de pé, se a doença não espreita por entre risco de subnutrição e rotinas desfeitas.
Rabia destaca agora a preocupação com a saúde, porque depois da guerra é preciso evitar as doenças.
"Cheguei aqui e sou chefe de higiene", deslocada, mas também uma das ativistas que tratam de vários aspetos da gestão diária do pavilhão de acolhimento, num trabalho em que participa a organização não-governamental (ONG) Ayuda en Acción (espanhol para Ajuda em Ação).
"Fazemos todos os dias palestras para as pessoas poderem varrer onde dormem. Aqui ninguém tem casa, nem quarto. Se alguém apanhar diarreias, morremos todos", conta, em tom dramático, mas que ilustra a urgência em mobilizar todos para evitar doenças sazonais na região, como a cólera.
São mais de 350 pessoas a partilhar 12 latrinas, instaladas nas traseiras do pavilhão.
"São seis para homens e seis para mulheres. Não é suficiente", diz Rabia, que pede um aumento, um apelo que espera que surta efeito junto das autoridades moçambicanas, agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais (ONG) que acompanham a vida no pavilhão.
Os deslocados acatam os conselhos: "estou a gostar", diz, sorrindo, satisfeita por ter quem a oiça e leve as palavras à prática.
"Estou a gostar porque isto não é só para mim, sozinha", é um guião "para todo o mundo". "O que queremos é o bem da nossa saúde".
O trabalho diário de sensibilização e gestão feito por Rabia Hilário cruza-se a todo o momento com a correria de crianças.
Preocupa-a o facto de não frequentarem nenhuma escola, suporte para hábitos saudáveis, física e psicologicamente.
"No ano passado não estudaram, este ano também não estão a estudar", diz, como quem pensa em voz alta, apelando para que se encontre "um espaço", uma solução.
Para já, com a ajuda da Organização Internacional das Migrações (OIM), os mais novos recebem "explicações" em tom de diversão, descreve.
"Tem uma tenda ali em que a OIM faz brincadeiras com elas. Estão a passar tempo para não esquecer aquilo que aprendiam em Palma", conclui.
A OIM já registou quase 60.000 deslocados (59.813 até ao final da tarde de quarta-feira) de Palma na sequência do ataque de 24 de março.
Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e 714.000 deslocados, de acordo com o Governo moçambicano.
A incursão contra Palma, em março, provocou dezenas de mortos e feridos, sem balanço oficial anunciado.
As autoridades moçambicanas anunciaram controlar a vila, mas aquele ataque levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do empreendimento que tinha início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.
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