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Correio da Manhã

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Artistas portugueses em Paris também viveram o conflito

Mas os testemunhos são raros.
26 de Junho de 2014 às 09:17

Um ateliê de pintores na Cité Falguière e uma placa no prédio onde morou o poeta Mário de Sá-Carneiro, perto de Pigalle, são os raros testemunhos de artistas portugueses que viviam em Paris no início da Primeira Guerra Mundial.

"Paris era uma espécie de cidade mítica da arte moderna. Antes da Primeira Guerra Mundial havia uma quantidade muito grande de artistas portugueses. Com a guerra, quase todos regressam para Portugal e muito do modernismo português resulta desse exílio", disse à Lusa Fernando Rosa Dias, professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Amadeo de Souza-Cardoso, Santa-Rita Pintor, Eduardo Viana, Manuel Jardim, Francisco Smith, Emmérico Nunes, Domingos Rebelo, Manuel Bentes ou os irmãos Henrique e Francisco Franco são alguns dos nomes da vanguarda artística portuguesa a viver em Paris no início do século XX.

A maior parte regressou a Portugal com o eclodir da guerra, como Amadeo de Souza-Cardoso, "a figura máxima das vanguardas portuguesas nas artes plásticas, um grande amigo do Amedeo Modigliani, que conhece Picasso e expõe em importantes salões franceses", explicou Fernando Rosa Dias.

Este artista é o único português convidado - a partir da escola de Paris - para a primeira grande exposição de arte moderna nos Estados Unidos - o Armory Show", adiantou.

Poucas semanas antes de a guerra acabar, Souza-Cardoso estaria à espera para regressar a Paris, mas é vítima da gripe espanhola e não resiste.

Um dos poucos artistas a permanecer na capital francesa - pelo menos até à entrada de Portugal na Guerra - foi Adriano Sousa Lopes, que pediu ao ministro da Guerra para o deixar ir para a frente como pintor oficial do Corpo Expedicionário Português.

"Não há dúvida que ele pintava nas trincheiras. Alguns relatos de combatentes indicam que Sousa Lopes montava o cavalete nas trincheiras e pintava com a maior das calmas com as bombas a explodirem por perto. Numa entrevista, ele conta um episódio em que estava com o capitão Américo Olavo e ambos são detetados pelo inimigo e têm que fugir da artilharia", contou Carlos Silveira, investigador no Instituto de História de Arte da Universidade Nova de Lisboa e a fazer doutoramento sobre Sousa Lopes na Grande Guerra.

Sousa Lopes fez centenas de desenhos durante o conflito e no pós-guerra decorou as salas da Grande Guerra do Museu Militar de Lisboa com sete pinturas monumentais, "com cenas da Batalha de La Lys, de combate nas trincheiras, de exéquias fúnebres do soldado desconhecido, e do combate do caça-minas Augusto de Castilho contra o submarino alemão nos últimos dias da guerra", acrescentou Carlos Silveira.

"A Rendição mostra bem a degradação humana que era aquela guerra, vê-se um pelotão a sair das trincheiras, as figuras são pintadas ao tamanho natural, vê-se a exaustão e o abatimento psicológico que era estar uma semana ou mais quase sem dormir naquelas trincheiras", descreveu o investigador, em referência ao quadro que se pode ver no Museu Militar de Lisboa.

Também nas trincheiras do norte de França, com o posto de tenente médico, esteve o artista Christiano Cruz, figura de relevo na invenção da modernidade artística em Portugal, que "pinta quase como se fosse um mosaico, quase como se fosse um vidro que se estilhaçasse", avançou Carlos Morgado, que fez uma monografia sobre o pintor pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

"Há um quadro que pertence ao acervo do Museu do Chiado que mostra a explosão de uma granada e que é uma imagem apontada como um trabalho pop antes do tempo. No momento em que está a explodir, o soldado é projetado nos ares. Isto foi pintado 60 anos antes da arte pop em que havia onomatopeias das explosões de Lichtenstein", disse.

Apesar de ter sido apontado como um dos melhores da sua geração, incluindo por Almada Negreiros, Sousa Lopes abandona a arte no final da guerra e emigra para as colónias para exercer medicina veterinária.

No âmbito da literatura, aquando da Grande Guerra, Mário de Sá-Carneiro fica por Paris, onde acabaria por se suicidar, em 1916, deixando algumas impressões sobre o conflito na correspondência com Fernando Pessoa e em textos publicados na revista Ilustração Portuguesa.

Outro escritor a relatar a guerra na retaguarda, dos tempos em que viveu em Paris, é Aquilino Ribeiro, com o livro "É a Guerra", editado pela primeira vez em 1934, e cuja recente reedição conta com um prefácio do escritor Mário Cláudio.

"O diário abrange apenas o primeiro mês da guerra, entre o início das hostilidades e o fim do primeiro mês. É um relato do comportamento da população de Paris durante esse período muito estrito. São as reações da população, os primeiros sinais de que estão a faltar géneros, um entusiasmo que rapidamente se atenua e a partida dos primeiros contingentes para a frente de batalha", descreveu à Lusa Mário Cláudio.

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