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Correio da Manhã

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Bibi quer falar sozinho

Carlos Silvino começa hoje a prestar depoimento no julgamento do processo Casa Pia, que está a decorrer no Tribunal de Monsanto. E quer fazê-lo sem a presença dos restantes arguidos: Carlos Cruz, Hugo Marçal, Manuel Abrantes, Jorge Ritto, Ferreira Diniz e Gertrudes Nunes.
16 de Dezembro de 2004 às 00:00
Bibi quer falar sozinho
Bibi quer falar sozinho FOTO: Orlando Almeida
De acordo com o que o CM apurou, o ex-funcionário da Casa Pia vai apresentar esta manhã um requerimento a Ana Peres, solicitando que as suas declarações sejam feitas apenas na presença da Acusação, Defesa, colectivo de juízes e funcionários judiciais. Apesar de tal pedido cumprir os preceitos legais, cabe à magistrada tomar a decisão final.
Mas também é possível que Carlos Silvino não fale já. Basta, por exemplo, que algum advogado avance com um incidente de recusa de juiz. Se isso suceder, o julgamento será imediatamente interrompido. E só recomeçará, após o incidente ser analisado pelos tribunais superiores: desde a Relação ao Constitucional, passando pelo Supremo. Foi, aliás, o que aconteceu com o juiz Rui Teixeira, quando os defensores de Carlos Cruz, Paulo Pedroso, Herman José, Jorge Ritto, Hugo Marçal, Gertrudes Nunes e Manuel Abrantes apresentaram um incidente de recusa. Aconteceu a 1 de Setembro de 2003, dia em que estava prevista inquirição de testemunhas para memória futura, no Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. Relação, Supremo e Constitucional chumbaram a pretensão dos advogados. O Supremo chegou mesmo ao ponto de classificar o incidente como uma“manobra dilatória”.
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A quinta sessão do julgamento da pedofilia poderá ser também a primeira que não contará com público nem jornalistas. Foi isto que ficou determinado na audiência de terça-feira, por Ana Peres. Mas, ontem à tarde, o advogado José Maria Martins entregou na Boa-Hora um requerimento, solicitando à juíza que ‘Bibi’ fale na presença da Comunicação Social. Ana Peres, ontem, nada decidiu. Segundo fonte judicial, só hoje de manhã vai informar o tribunal se aceita, ou não, a sugestão do advogado.
Idêntico pedido foi formulado por Adelino Granja, defensor de ‘Joel’ – o jovem que deu origem ao processo da Casa Pia –, que também requereu que a audição do antigo casapiano fosse feita com as “portas abertas” aos jornalistas. Dos sete arguidos, aliás, só Gertrdudes Nunes já anunciou que pretende falar à porta fechada.
O CM sabe, ainda, que José Maria Martins informou a magistrada que, hoje, terá a seu lado, como perito consultor, o psiquiatra e terapeuta sexual Afonso de Albuquerque, que já acompanha Carlos Silvino há pouco mais de um mês e meio.
Contactado pelo CM, José Maria Martins, adiantou que Carlos Silvino “está bem, tranquilo e com vontade de se defender”. Sobre o que o que o seu cliente vai dizer hoje no Tribunal de Monsanto, referiu: “Vamos continuar a colaborar com a Justiça, como foi sempre nossa intenção desde o início do processo”.
PERFIL DE AFONSO DE ALBUQUERQUE
Afonso de Albuquerque é um dos psiquiatras mais conceituados do país. Antigo Director de Serviço do Hospital Júlio de Matos e Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, o psiquiatra de ‘Bibi’ defende a utilização da castração química em pessoas que têm atracção sexual por crianças.
O tratamento passa pela diminuição dos níveis de testosterona, uma hormona sexual masculina que tem efeitos sobre a actividade sexual e sobre a agressividade.
Pouco tempo antes de ‘Bibi’ ser detido, em Novembro de 2002, Afonso de Albuquerque revelou o caso de um pedófilo com um longo historial de abuso sexual de crianças que, consciente da doença, pediu ajuda clínica, submeteu-se a um tratamento com castração química e curou-se.
Nesse sentido, o psiquiatra defendeu, em declarações ao CM, em 2002, que “os tribunais deveriam obrigar a um tratamento compulsivo”, sob pena de o pedófilo reincidir no mesmo comportamento depois de cumprir pena de prisão.
O médico que há longos anos dirige estudos acerca do stress pós-traumático, revelou que a violação e o abuso sexual antes dos 18 anos são as circunstâncias que mais provocam perturbações psiquiátricas a médio e longo prazo.
EX-MOTORISTA DA CASA PIA PRESTA HOJE DECLARAÇÕES EM MONSANTO
"ESPERO QUE COMECE A FALAR" (Manuel Abrantes, arguido)
“Espero que o Carlos Silvino comece a falar. Para mim é indiferente que ele fale ou não no meu nome. Não me sinto aliviado por ele nunca se ter referido a mim. Isso pode constituir uma estratégia continuada da defesa. É importante é que ele fale. E se quiser falar sozinho, eu sou o primeiro a sair.”
"QUE REVELE TODOS OS NOMES" (Pedro Namora, antigo casapiano)
“Espero que Carlos Silvino comece a falar. E que, na sequência do que aparentemente tem feito, continue a colaborar com a justiça. Se lhe resta algum espírito de casapiano, espero que não permita que ele seja o único a ser condenado. Isto é, que revele todos os nomes que sabe das pessoas que abusaram sexualmente das crianças.”
APRESENTADOR EM SILÊNCIO (Carlos Cruz, arguido)
O CM tentou ontem contactar Carlos Cruz para lhe pedir um comentário sobre as declarações que Carlos Silvino deverá efectuar hoje. O primeiro contacto foi para o telemóvel do apresentador. Não atendeu. Depois, para o telefone da sua residência. Raquel Cruz limitou-se a informar que o marido não estava em casa.
O QUE CARLOS SILVINO JÁ DISSE AOS JUÍZES E À PJ
Carlos Silvino, ex-motorista da Casa Pia e principal arguido no processo de pedofilia, foi detido a 25 de Novembro de 2002, suspeito de ter violado centenas de crianças da instituição. ‘Bibi’ começou por não querer falar, clamando inocência. Meses depois, começa a contar tudo o que sabe sobre os abusos sexuais na Casa Pia e aponta o dedo a Carlos Cruz, Jorge Ritto, Ferreira Diniz, Hugo Marçal e Gertrudes Nunes, como envolvidos numa alegada rede de pedofilia. No dia em que ‘Bibi’ tem a primeira palavra no tribunal, o CM recorda o que disse Carlos Silvino em dois anos de processo.
CARLOS CRUZ
A primeira vez que Carlos Silvino referiu o nome do apresentador foi em Setembro de 2003. ‘Bibi’ contou à PJ que viu Cruz e o seu ex-secretário, Carlos Mota, em Elvas, acompanhados por Ferreira Diniz e Jorge Ritto. Dois meses depois revelou que foi Carlos Cruz quem pagou os honorários de Hugo Marçal durante o tempo em que o advogado de Elvas o defendeu.
Aos juízes Rui Teixeira e Ana Teixeira e Silva, ‘Bibi’ assegurou que conhece Carlos Cruz há mais de 20 anos. E garantiu que levou crianças da Casa Pia ao apresentador e ao seu ex-secretário, Carlos Mota, a Elvas, ao Oeiras Parque e a uma casa na Avenida das Forças Armadas. Contou que os viu em Elvas acompanhados por Jorge Ritto e Ferreira Diniz.
JORGE RITTO
‘Bibi’ assegurou a Ana Teixeira e Silva que conheceu o embaixador em 1998 através de uma pessoa que trabalhava nos Pastéis de Belém. Segundo ‘Bibi’, Ritto frequentava a zona de Belém há mais de 20 anos, onde procurava rapazes, preferencialmente de 13, 14 e 15 anos.
O ex-funcionário disse ainda a Ana Teixeira e Silva que, em 1999, levou crianças da Casa Pia, sete ou oito vezes, ao Dafundo, ao Bairro de São Mateus para participarem em festas de sexo organizadas por Ritto.
FERREIRA DINIZ
Carlos Silvino referiu à juíza Ana Teixeira e Silva que conheceu Ferreira Diniz há sete ou oito anos, mas que nunca lhe levou crianças da Casa Pia. Fez, no entanto, questão de assegurar à magistrada que o médico do Ferrari abusava de crianças da instituição no seu consultório, na zona de Belém, e que era um dos frequentadores da Casa de Elvas, onde chegou a ver o carro do médico.
HUGO MARÇAL
‘Bibi’ relatou a Ana Teixeira e Silva que o primeiro contacto com Hugo Marçal aconteceu na primeira vez que foi Elvas. E que foi uma testemunha que lhe apresentou o advogado. Garantiu que era Marçal quem recebia as crianças em Elvas e que entregava os envelopes com dinheiro.
GERTRUDES NUNES
‘Bibi’ contou a Rui Teixeira que as crianças eram abusadas na casa de Gertrudes Nunes, em Elvas, sendo por vezes a própria proprietária quem recebia os jovens.
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