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Memórias inéditas de um oficial português nas trincheiras em França

Portugal entrou no conflito sem "sem preparação moral".
26 de Junho de 2014 às 09:04

Portugal entrou na I Guerra Mundial "sem preparação moral", testemunha um oficial que integrou o Corpo Expedicionário Português e que descreve, nas suas memórias, a vida nas trincheiras lamacentas em França, "sepulturas em vida".

As trincheiras eram um "labirinto de valas lamacentas", ligadas por postos que, à noite, se fechavam com arames farpados, transformando-se "numa espécie de sepulturas em vida", descreve o capitão António Joaquim Henriques, que integrou a 1ª Divisão do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial.

O relato inédito do capitão António Joaquim Henriques, que morreu em 1979, deverá ser publicado na íntegra no segundo semestre do ano pela Revista Militar, confirmou à Lusa a direção da revista, que já publicou na primeira edição de 2014 o testemunho do mesmo oficial sobre a revolução de 5 de Outubro de 1910.

O capitão tinha 28 anos quando embarcou para França como alferes comandante de um pelotão do Regimento de infantaria n.º 28, da Figueira da Foz, e combateu nas trincheiras francesas entre 26 de fevereiro de 1917 até ao fim da guerra, regressando a Portugal em julho de 1919.

Nas suas memórias, recuperadas por um familiar, o oficial começa por observar que os partidos políticos estavam divididos quanto à participação portuguesa e que isso refletia-se na "moral da tropa".

"Justo é dizer que Portugal foi para esta guerra sem preparação moral e que muitos não viam explicação suficiente para nela tomarmos parte, a começar pelos partidos políticos. Por exemplo, o democrático que era chefiado pelo dr. Afonso Costa, era intervencionista, mas já não pensava assim o do dr. Brito Camacho", mais à direita, observou.

"Estas divergências, e para mais políticas, tinham como não podia deixar de ser efeitos desastrosos na moral da tropa", considera.

Entre os episódios que o marcaram, o capitão refere a morte do primeiro soldado português na I guerra mundial, António Gonçalves Curado, do seu regimento, na primeira visita das tropas portuguesas às trincheiras, a 4 de abril de 1917.

"O batalhão deu entrada nas trincheiras debaixo de forte bombardeamento inimigo, talvez por terem presenciado a nossa chegada dos seus observatórios que constituíam uma fileira de espias constantemente alerta, ao longo das trincheiras alemãs. O soldado Curado ia no meu pelotão que lhe pertenceu tomar posições na 2ª linha, que estava guarnecida por tropa inglesa", recorda.

"Não tenho a pretensão, nem é possível narrar todos os acontecimentos [dignos] de menção que presenciei nas trincheiras durante todo o tempo que por lá permaneci, limitando-me apenas a referir algumas passagens que ficaram em recordações", justificou.

De entre todos os inimigos, "o mais repelente e traiçoeiro" por mais vítimas provocar, era o morteiro ligeiro ou, no jargão dos militares, a "célebre e peçonhenta" "garrafinha de litro", diz.

"Pelas 16h20 do dia 13 de Setembro de 1917, no posto de Cockspur (n.º 4), sete soldados de guarnição de metralhadoras comentavam a imprudência de se reunirem em grupo para comerem o seu rancho. Mas mão inimiga lembra-se de, àquela hora, começar o antipático frete. Em má hora o destino os reuniu pois um malandro caiu-lhes em cheio, matando-os a todos", relata.

Uma das 'rotinas' nas trincheiras era a saída para as patrulhas da noite, viagem "ultra tenebrosa em que tantas voltas se dava que a certa altura já não se sabia para que lado ficava o inimigo".

António Joaquim Henriques alude à exaustão do Corpo Expedicionário Português, a "única tropa que não era rendida ao fim de tantos meses de frente" ao contrário de ingleses e franceses que "tinham as suas licenças e rendições".

"Que não havia barcos para levar a tropa de Portugal, diziam uns; que o governo não enviava mais ninguém, diziam outros", refere.

"Certo é que o CEP, velho, como já os soldados designavam a tropa da 1.ª Divisão por ser só ela que guarnecia a 1ª linha de trincheiras, se achava bastante desfalcado, devido às baixas causadas durante um ano em que se encontrava na frente de combate. Mas enfim, antes tarde que nunca, e então lá apareceu um dia a 2ª Divisão a render-nos", relata.

Com 40 anos na altura em que passou a escrito as suas memórias, o capitão afirma ter aprendido que "que um homem perde muito do seu equilíbrio, bestializa-se mesmo, desde que lhe metam uma arma na mão".

I Guerra Mundial Portugal Corpo Expedicionário Português
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