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Correio da Manhã

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"Não te oiço a asfixiar". Jovem de 24 anos morre depois de 112 ignorar queixas

Mãe de Aitor ligou para o INEM de Madrid a pedir ajuda porque o filho não conseguia respirar.
7 de Novembro de 2019 às 14:09
inem madrid summa 112
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A mãe de Aitor García Ruiz ligou para o INEM de Madrid a pedir ajuda porque o filho, de 24 anos, não conseguia respirar. Viu o jovem "mudar de cor" à sua frente. O médico que atendeu a chamada não deu importância e garantiu que o jovem respirava "perfeitamente". Aitor acabou por entrar em morte cerebral e morreu quatro dias depois. 

A autópsia apurou que Aitor sofreu um embolia pulmonar. Os pais do jovem acusam o INEM (SUMMA 112, em Madrid) de não ativar o protocolo adequado ao não ter enviar uma ambulância, naquele 14 de janeiro de 2018, ao primeiro pedido de socorro. Esta quinta, numa conferência de imprensa organizada pela Associação de Defesa do Paciente ouviu-se a gravação da primeira chamada, transcrita pelo El Mundo:

Mãe: Olhe, [o meu filho] levantou-se e ficou tonto. Eu estava na cozinha e senti-o a cair
Médico: Sim
Mãe: E começou a suar muito. Agora ficou frio, mas cheio de suores
Médico: Ele está a tomar alguma coisa?
Mãe: Não, não
Médico: Teve um desmaio, então
Mãe: E está... diz que não consegue respirar
Médico: Está bem. Passe-me o telefone, por favor
Mãe: A quem? Ao miúdo?
Médico: Claro
Mãe: Não posso, não posso
Médico: Tem que falar com o médico
Mãe: Mas ele não consegue!
Médico: Minha senhora, se estivesse no hospital com um médico, tinha que falar com ele, ou não?
Mãe: Sim, mas você...
Médico: É indiferente se é por telefone ou não, tem que falar com o médico
Mãe: Ele diz que não consegue respirar
Médico: Pronto, está bem, mas preciso de o avaliar. Ele pode precisar de uma ambulância, de um médico...
Mãe: Olha, o médico diz que tens que falar com ele, para ver o que tens


Médico:
Diz-me, o que se passa, conta-me um bocadinho
Aitor: Estou a asfixiar...
Médico: Eu não te oiço a asfixiar. Tens estado nervoso com alguma coisa?
Aitor: Não [sem conseguir vocalizar]
Médico: Então, estás a tomar alguma coisa?
Aitor: Não consigo... Estou a asfixiar...
Médico: Passa-me à tua mãe
Aitor: Não consigo
Médico: Passa-me à tua mãe


Mãe: Veja como está 
Médico: Não, está a respirar perfeitamente. Está em tratamento psiquiátrico?
Mãe: Não, não, nada [ao fundo, ouve-se Aitor a gritar: "estou a asfixiar"]
Médico: De nada? Tomou alguma... 
Mãe: Não. Olhe, ontem nem saiu nem nada, esteve enfiado em casa o dia todo
Médico: Bem, um médico vai vê-lo. Mas será que não tomou nada?
Mãe: Não, não
Médico: Algum medicamento ou assim?
Mãe: Não
Médico: Está a respirar perfeitamente, percebe? Respira perfeitameeeente
Mãe: Mas diz que não consegue respirar
Médico: Ele diz o que quiser, mas respira perfeitamente porque fala perfeitamente, está bem?
Mãe: Não sei...
Médico: Sim, respira. Vá, até logo. Parece que tomou alguma coisa. Não sei. Vamos aí vê-lo

Depois de ter desligado a chamada, Carmen Ruiz viu o seu filho desfalecer. "Não voltou a abrir os olhos", contou ao jornal espanhol. "Gastou o pouco ar que lhe restava a dizer que estava a asfixiar. Mal desliguei o telefone perdeu os sentidos".

"Nós não podemos ter a certeza de que o meu filho se podia ter salvado, mas o que é certo é que se perdeu a oportunidade para que vivesse", lamentou o pai, Bartolomé.

O casal exige uma indemnização de 175 mil euros à Comunidade de Madrid pela morte do seu filho. Ao jornal, a Comunidade de Madrid assegurou que tudo foi feito corretamente e que a conversa com o primeiro médico não determinava com absoluta certeza que o jovem estivesse a asfixiar. E foi isso mesmo que a inspeção médica concluiu - que tudo tinha sido feito conforme os protocolos.

O advogado dos pais de Aitor pretende, com os áudios, ir a tribunal. "A Comunidade de Madrid não só se nega a assumir a sua responsabilidade como nem sequer identificou os médicos que participaram no sucedido", afirmou Carlos Sardinero.

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