Analisada primeira década do movimento.
A edição do single 'Há que violentar o sistema', dos Aqui d'el Rock, em 1978, serve de referência ao documentário 'A um passo da loucura', sobre a primeira década do punk em Portugal, cuja rodagem termina este mês.
'A um passo da loucura - Punk em Portugal 78-88' tem por objetivo fazer "um registo verdadeiro e muito completo da primeira e segunda geração portuguesa do punk", com entrevistas a músicos, promotores e intervenientes do movimento, disse à agência Lusa Hugo Conim, um dos realizadores.
Hugo Conim partilha a produção e realização com Miguel Newton, vocalista dos Mata Ratos, e ambos esperam ter o filme pronto no outono.
"É um documentário de punks para punks, porque - pelo menos que eu saiba - não havia um filme sobre este tempo em Portugal", afirmou Hugo Conim.
O filme reúne depoimentos de várias figuras ligadas ao punk e ao rock portugueses, nomeadamente João Pedro Almendra (Ku de Judas), Zé Pedro e Kalu (Xutos & Pontapés), António Manuel Ribeiro (UHF), Jorge Bruto (Capitão Fantasma), José Serra (Aqui d'el Rock), José Vilão (Vómito), Samuel Palitos (Censurados) e Paulo Borges (Minas & Armadilhas).
"Um ato guerrilheiro"
Entre as cerca de quarenta entrevistas do documentário, há ainda depoimentos de Miguel Almeida, do Instituto de Etnomusicologia, Aristides Duarte, colecionador e autor de obras sobre o rock português, Adolfo Luxúria Canibal, Isabel Newton e Branco Oliveira.
Segundo Hugo Conim, o filme conta ainda com várias imagens de arquivo e algumas raridades, como atuações dos Ku de Judas, Mata Ratos e Aqui d'el Rocl.
'A um passo da loucura - Punk em Portugal 78-88' é um "ato guerrilheiro - cinematográfico feito por amor à camisola (esburacada)", como afirmam os realizadores na nota de apresentação.
Hugo Conim explicou à Lusa que o documentário foi feito sem apoios financeiros. "Ou deixávamos o projeto na prateleira ou avançávamos. Decidimos avançar. Como amantes de punk, gostaríamos muito de ter um documentário testemunho daquele tempo, porque só se fala do boom do rock".
"Conta uma história com qualidade, sobre bandas que foram enormes, outras que ficaram pelo caminho, que viveram diferentes ideologias", sublinhou.
Geograficamente, o filme abrange sobretudo a cena punk em Lisboa e no Porto, mas com referências também a Braga e Coimbra.
Recenseadas 496 bandas
Grande parte das bandas mencionadas no filme está referenciada na primeira investigação académica sobre o punk rock português, dos sociólogos Paula Guerra e Augusto Santos Silva, da Universidade do Porto.
Os investigadores recensearam 496 bandas punk portuguesas desde 1977 até ao primeiro semestre de 2013.
"Dessas 496 bandas, 155 (cerca de um terço) estão em atividade e 218 estão extintas ou com a atividade suspensa -- restando, portanto, 123 bandas (quase um quarto do total) em relação às quais ainda não conseguimos apurar se permanecem ou não ativas", lê-se numa nota na página www.punk.pt, associada à investigação.
O movimento punk surgiu na segunda metade dos anos 1970, nos Estados Unidos e no Reino Unido, no contexto de plena crise económica, nos anos da Guerra Fria, expressando-se através de música, roupa, publicações e, sobretudo, rebeldia contra o sistema e a geração anterior dos anos sessenta.
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