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Correio da Manhã

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Rali Lisboa-Dacar cancelado

A edição 2008 do Rali Lisboa-Dacar foi cancelada esta sexta-feira, anunciou a empresa organizadora Amaury Sport Organization (ASO), que justificou a medida com razões de segurança e "ameaças directas contra a prova” na sua passagem pela Mauritânia.
4 de Janeiro de 2008 às 13:47
A prova foi suspensa pela primeira vez em 30 anos de realização, depois de o governo francês ter aconselhado, por motivos de segurança, os seus cidadãos a não se deslocarem à Mauritânia, onde quatro turistas franceses foram assassinados no dia 24 de Dezembro, num ataque atribuído a um ramo do Al-Qaeda, no Magreb islâmico.
“Depois de diferentes conversas com o governo francês – em particular com o ministro dos Negócios Estrangeiros – e tendo em conta as suas firmes recomendações, os organizadores do Dacar decidiram anular a edição de 2008 do rali, programada para decorrer entre 5 e 20 de Janeiro entre Lisboa e a capital senegalesa”, refere a ASO num comunicado emitido hoje em Lisboa, citado pela agência de notícias France Presse.
O cancelamento fora inicialmente avançado pelo director da France-Télévisions, Daniel Bilalian, parceiro oficial da prova. Em declarações à 'Rádio Europe 1', Bilalian disse que "se acontecesse o mais pequeno problema, toda a credibilidade da ASO (Amaury Sport Organisation) seria posta em causa".
A 30ª edição do Rali Lisboa-Dacar deveria começar no sábado junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, terminando a 20 de Janeiro, na capital do Senegal. Oito das 15 etapas da prova deveriam passar pela Mauritânia.
MAURITÂNIA CRITICA ANULAMENTO
A Mauritânia criticou esta sexta-feira a decisão da ASO em cancelar o rali Lisboa-Dacar, alegando não haver “qualquer elemento novo que a justifique”.
Em declarações à televisão RTL, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Mauritânia, Babah Sidi Abdallah, garantiu que foram “tomadas todas as medidas para garantir que o rali se realizasse sem qualquer incidente”, referindo que tinha sido destacada uma força de três mil homens, numa extensão de 9.275 quilómetros (desde a Europa a África), de forma a garantir a segurança dos participantes naquela que é considerada a prova rainha do todo-o-terreno.
O governante disse ainda que o cancelamento do rali prejudica gravemente o país, pois a passagem das comitivas fornece anualmente um alívio financeiro para as localidades raramente visitadas.
“No que diz respeito ao rali, há uma total coordenação”, frisou Babah Sidi Abdallah.
Por sua vez, o ministro do Turismo da Mauritânia, Ba Madine, afirmou que não quer ver o seu país a ser usado como pretexto para o cancelamento da prova de todo-o-terreno.
GOVERNO PORTUGUÊS LAMENTA CANCELAMENTO
O ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, lamentou esta sexta-feira a anulação do rali Lisboa-Dacar 2008, afirmando respeitar a decisão da empresa internacional organizadora do evento desportivo e elogiando a organização portuguesa da prova.
"O Governo português lamenta profundamente, mas respeita a decisão de anular o Lisboa-Dacar. A segurança está em primeiro lugar. Depois do anúncio do governo francês, pesava uma grande responsabilidade sobre a organização, que revelou que é muito escrupulosa com as questões de segurança", afirmou o governante numa conferência de imprensa conjunta com João Lagos, da empresa portuguesa organizadora da prova, a Lagos Sport, e o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa.
Pedro Silva Pereira revelou que o Governo Português “fez diligências” junto ao executivo francês, acrescentando que este defendeu razões de Estado para este alerta.
Segundo o ministro, “o Dacar é uma aventura e não é uma prova isenta de riscos. O governo francês fez uma coisa que não fez em anos anteriores, com base em informações que dispunha”.
Silva Pereira elogiou ainda o trabalho da parceira portuguesa da organização da prova, a Lagos Sport, afirmando que “estes dias deram para perceber que tudo estava a decorrer de forma perfeita”.
Por seu lado, João Lagos mostrou-se “solidário com as razões do governo francês”, mas que não é por esta razão que vai esmorecer.
João Lagos revelou ainda que a empresa disponibilizou-se para organizar uma prova alternativa, de menores dimensões, entre Portugal e Marrocos, mas o conhecimento de que as ameaças terroristas eram para todo o rali “tornava impossível qualquer alternativa”.
Sobre a edição do rali de 2009, cuja partida seria também de Lisboa, João Lagos informou que o tema vai ser debatido esta tarde como responsável máximo da ASO.
ANTÓNIO COSTA FRUSTRADO
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, admitiu esta tarde “frustração pela anulação” da prova, elogiando a organização portuguesa.
“Apesar de triste a notícia, a organização portuguesa e a cidade de Lisboa demonstraram capacidade de organização”, disse o edil, acrescentando que, “certamente no futuro vai haver outra prova e a partida será, certamente, de Lisboa”.
PILOTOS DESILUDIDOS
Os pilotos que se prepararam para o rali Lisboa-Dacar neste último ano mostraram-se esta sexta-feira desiludidos com o cancelamento da prova, tendo alguns dos participantes defendido que deviam ter sido analisadas alternativas ao percurso.
O português Carlos Sousa mostrou-se desiludido com a anulação, mas considerou que a organização dever ter “razões de sobra” para ter tomado esta decisão, apesar de defender que deveriam ter sido vistas alternativas.
O piloto da Volkswagen recordou que a equipa tinha a perspectiva de fazer um bom resultado, mas que o cancelamento vai afectar em especial os grupos mais pequenos, que “estão aqui com compromissos e patrocinadores”.
“Não queria estar na pele de muitos”, desabafou Carlos Sousa, explicando que a questão dos patrocinadores será mais fácil de gerir para as equipas oficiais, que poderão fazer outras provas para compensar a não participação no Lisboa-Dacar.
Apesar de achar que é preciso ter "confiança na organização”, o concorrente português considera “que não foram exploradas todas as alternativas para resolver a situação” e que os pilotos deveriam ter sido ouvidos antes da ASO decidir anular a prova.
Para o participante luso, a “prova deveria arrancar até Marrocos”.
Por seu turno, o motociclista português Ruben Faria revelou que os pilotos ficaram “descontentes” com a decisão, “devido aos meios financeiros envolvidos na prova”.
O piloto da Team Lagos lamentou o facto de que “o trabalho de um ano vai por água abaixo”, mostrando-se preocupado com o prejuízo financeiro que a anulação da prova significa. “As verbas envolvidas nesta prova são avultadas e agora que explicação vou dar aos patrocinadores? Nem sei o que pensar!”.
Ruben Faria lembrou ainda que a competição nunca tinha sido cancelada apesar de as ameaças e problemas terem acontecido desde sempre, pois sempre se arranjou uma alternativa.
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