O investimento em IA e o lugar de Portugal
A corrida à inteligência artificial está a exigir mais investimento em energia, data centers e capacidade tecnológica. Mauro Xavier analisa o desafio de responder à procura e o papel do capital privado nesta nova fase da economia
Se não houver capacidade para responder à procura esperada, vai haver uma frustração enorme. Imagine-se que se quer ligar a eletricidade ou a água em casa e não se consegue”, afirma Mauro Xavier. Na sua perspetiva, esta corrida à Inteligência Artificial é um momento raro na história. “Não acontece muitas vezes nas nossas vidas. Aconteceu na Revolução Industrial, quando houve uma grande corrida à criação de novas máquinas, e é um privilégio podermos vê-lo”.
Considera que o valor acrescentado pela Inteligência Artificial na economia “é de tal ordem que cada vez mais as pessoas acham que o verdadeiro problema é a falta de investimento e não o investimento a mais”. Acrescenta que esta falta de investimento “vem da necessidade de mais energia e da inovação na forma como se vão alimentar estes data centers. Há uma escala e uma corrida muito grande a um novo ouro, que é a energia renovável no sítio certo, ao menor custo, um critério diferenciador desta corrida”.
Para o gestor, estamos perante um ciclo equivalente ao dos anos 2000, quando foi preciso construir uma infraestrutura forte para que todos tivessem acesso à internet, cuja velocidade aumentou de forma tremenda. Atualmente, o que está em causa é o acesso à tecnologia, e não basta que ela exista: tem de estar disponível para todos. A imagem que propõe é a das ferrovias: “Não haverá comboios a passar se não for feito primeiro o investimento na linha”.
A diferença está em quem faz o investimento. As linhas de comboio costumam ser construídas mediante financiamento público, enquanto as de inteligência artificial são construídas com dinheiro privado, com destaque para as gigantes tecnológicas, como a Microsoft, a Amazon, a Google e a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp. Para Mauro Xavier, “os acionistas que estão a olhar para o curto prazo acham que estão a ser retirados lucros que deveriam ser distribuídos aos acionistas, para financiar investimentos futuros”.
A geografia da inovação
A geografia da inovação também mudou. “Nos anos 1980 íamos a Nova Iorque ver o que era novo, nos anos 2000 íamos à China ver a construção das grandes cidades. Hoje, a modernização do mundo vem do Médio Oriente”, explica Mauro Xavier. A região vive um ciclo de investimento enorme, com novas cidades, aeroportos e infraestruturas, e é, a par do Reino Unido e da Alemanha, um dos três grandes motores da aliança Microsoft-PwC na região EMEA. Já o aumento das tensões geopolíticas, admite, “faz mudar a atenção do crescimento tradicional e de uma visão estratégica para outro tipo de preocupações a que todas as organizações têm de se adaptar”.
Numa reflexão sobre Portugal, Mauro Xavier refere que “numa economia global, um país só se distingue por capital ou por inovação, e nós nunca nos distinguiremos por capital nem pela capacidade de absorção do mercado interno”. O mercado nacional, defende, deve servir de piloto. É um mercado maduro o suficiente na Europa para perceber se uma ideia tem sucesso, e “quem tem sucesso em Portugal, em escala, consegue criar valor lá fora”. Gostaria de ver cada vez mais empresas a crescerem a partir de cá, e não o contrário. O conselho para a próxima geração de gestores é pensar grande. “Só se consegue construir alianças globais quando se olha para os oito mil milhões de pessoas como potenciais consumidores. É possível atingir o mercado global em escala, tendo as condições certas”, concluiu Mauro Xavier.
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