Santa Casa recupera contas sem travar resposta social e de saúde

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa recuperou o equilíbrio financeiro com um plano de reestruturação assente no rigor da gestão, no controlo orçamental e na racionalização do património, ao mesmo tempo que reforçou a resposta nas áreas social e da saúde

24 de setembro de 2026 às 11:55
Paulo Sousa, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi o convidado do primeiro episódio da quinta temporada do Economia Sem Fronteiras, programa conduzido por Miguel Frasquilho Foto: DR
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Em 2021, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa registou um prejuízo de 39,8 milhões de euros. Quatro anos depois, fechou o exercício de 2025 com um resultado líquido positivo de 43,6 milhões de euros, o melhor em 17 anos, somando três anos consecutivos de resultados positivos. O saldo de tesouraria chegou aos 108 milhões de euros, ultrapassando, com dois anos de antecedência, a meta de 100 milhões prevista no plano de reestruturação para 2027. Os números foram apresentados por Paulo Sousa, provedor da instituição, no primeiro episódio da quinta temporada do programa Economia Sem Fronteiras, emitido no canal NOW.

Para Paulo Sousa, que tomou posse em maio de 2024, a explicação para a recuperação financeira e reputacional está sobretudo na disciplina de gestão. “Em primeiro lugar, foi estabelecido um plano de reestruturação, e depois tem havido grande rigor ao nível da gestão, tanto no controlo orçamental, como no cumprimento das metas e das iniciativas estratégicas traçadas”. O acompanhamento do plano passou a ser semanal e tornou-se o primeiro ponto das reuniões da Mesa, o órgão de administração da Santa Casa.

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A transformação estendeu-se à gestão do património. A instituição dispõe de cerca de 670 imóveis, uma carteira acumulada ao longo de séculos, mas mais de 40% não geram receita. Ao mesmo tempo, chegou a pagar mais de dois milhões de euros anuais em rendas por espaços utilizados na sua atividade. Segundo Paulo Sousa, esse encargo caiu para cerca de 800 mil euros.

Dar rendimento ao património

“A carteira imobiliária esteve muito estática ao longo de anos, contrariando todos os bons princípios de gestão imobiliária de uma carteira dinâmica”, afirma o provedor. A estratégia passa por investir em determinados ativos e alienar aqueles cuja manutenção deixou de fazer sentido, colocando o património ao serviço da atividade da instituição e da geração de rendimento.

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Paulo Sousa sublinha que a recuperação financeira não significa uma redução da missão social. A Santa Casa tem conseguido aumentar a capacidade de resposta enquanto racionaliza custos. “Estando a fazer um esforço de racionalização, não deixámos de aumentar aquilo que é a nossa oferta e a nossa capacidade de servir a comunidade”, afirma.

A instituição prevê terminar 2026 com quase 400 camas adicionais face ao início do plano de reestruturação. Estão igualmente previstas uma nova resposta de saúde mental, a abertura de vagas de alojamento de emergência e o reforço das camas intermédias de apoio ao Serviço Nacional de Saúde. Na área social, a intervenção junto de pessoas em situação de sem-abrigo também tem crescido.

Jogos financiam a missão social

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Os jogos sociais continuam a ser o principal motor financeiro da instituição, tendo representado 67,1% das receitas correntes em 2025. As receitas totais da Santa Casa passaram de quase 225 milhões de euros, em 2021, para 308,4 milhões, em 2025, um crescimento de 37,2%.

Em 2025, foram apostados 3.143 milhões de euros nos jogos sociais, dos quais mais de 97% regressaram à sociedade através de prémios, transferências para beneficiários e receita fiscal.

Paulo Sousa reconhece a concorrência crescente do jogo online privado e salienta que a resposta da Santa Casa passou, entre outras medidas, pelo alargamento da rede de mediadores, com a integração de 600 novos pontos. Essa resposta está, porém, condicionada pelos compromissos em matéria de jogo responsável. Como explica, “os jogos sociais de Estado são uma entidade certificada em termos de jogo responsável, também não podem ter práticas, quer de produto, quer de comunicação, agressivas, que não respeitem estes princípios”.

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A missão da Santa Casa vai muito além dos jogos. Cerca de 26% das receitas dos jogos sociais têm como beneficiária direta a instituição, permitindo financiar atividades nas áreas social e da saúde. “Temos uma dupla missão, gerar receita por meio de jogos sociais para fazer o financiamento de um conjunto de atividades no país”, resume Paulo Sousa.

As pessoas são fundamentais

“Cumprir a sua missão e o seu plano estratégico, concluir o plano de reestruturação, consolidar em termos financeiros a sustentabilidade da organização” são os objetivos definidos pelo provedor. Para os alcançar, o contributo dos seis mil trabalhadores é essencial. Paulo Sousa reconhece que foram “um pouco esquecidos durante estes últimos anos” e sublinha o seu papel na instituição. “O trabalho da Santa Casa é assente em pessoas, a tecnologia pode ajudar muito, mas as pessoas são fundamentais. Não conheço nenhum modelo de cuidado para com os outros que não seja assente em pessoas”.

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