Carlos Moreira da Silva defende a despenalização fiscal do sucesso, para incentivar o crescimento das empresas, a internacionalização e o aumento da produtividade e da competitividade da economia.
A economia portuguesa continua a enfrentar desafios estruturais que limitam o crescimento das empresas, a produtividade e a capacidade exportadora. “Com exceção do desporto, a ambição e o sucesso em Portugal são mal vistos”, afirmou Carlos Moreira da Silva, presidente do Business Roundtable Portugal (BRP) e presidente da Teak Capital, que é acionista da BA Glass e da Cerealis, entre outras empresas, no programa Economia Sem Fronteiras, no canal Now.
Para o presidente do BRP, esta realidade constitui um paradoxo num país que depende da capacidade das empresas para gerar riqueza, emprego e desenvolvimento económico. Na sua opinião, “acontece há muitas décadas, especialmente a partir do ano 2000. Precisamos de uma liderança forte para mudar esta forma de olhar para o mundo, para fazer uma transformação da forma como a sociedade encara o crescimento empresarial.”
Os números ajudam a compreender a dimensão do desafio. Cerca de 97% das empresas portuguesas são microempresas, com menos de dez trabalhadores. As empresas de maior dimensão representam apenas 0,1% do universo empresarial, mas são responsáveis por cerca de 40% do emprego, 62% das exportações e 71% da receita de IRC e concentram os níveis mais elevados de produtividade e de remuneração.
Se a cultura é o problema de fundo, a produtividade é o sintoma mais visível. Portugal exibe um défice crónico neste indicador. A produtividade portuguesa representa 71% da média da União Europeia, um valor que praticamente não se alterou entre 2000 e 2023, limitando o crescimento sustentável dos salários e reduzindo a competitividade da economia.
Contudo, Carlos Moreira da Silva rejeita qualquer responsabilização dos trabalhadores na questão da produtividade. “Não é culpa dos trabalhadores, são os que têm menos a dizer sobre isso”, afirma. Na sua perspetiva, o problema reside sobretudo na estrutura empresarial e no enquadramento económico em que as empresas operam. “Os constrangimentos para a falta de produtividade são as empresas, a legislação do trabalho e a penalização fiscal dos sucessos. Estes três ingredientes retiram a capacidade de melhorar a produtividade.” Explica que as organizações de maior dimensão registam ganhos de eficiência superiores e conseguem pagar salários mais elevados, precisamente porque beneficiam de economias de escala e de maior capacidade de investimento.
“É evidente que as empresas maiores têm produtividade muito mais alta e, por isso, também pagam salários muito mais altos do que pagam as pequenas, as médias e sobretudo as nanoempresas”, disse Carlos Moreira da Silva. “Dar as condições adequadas para as empresas ganharem dimensão é o fator mais crítico para o aumento da produtividade.”
Apesar da evolução positiva das exportações portuguesas ao longo das últimas duas décadas, o país tem 45% de exportações em percentagem do PIB, contra 50% da União Europeia, e só está acima da Finlândia, Roménia e Grécia. Mantém uma forte concentração das vendas ao exterior num número relativamente reduzido de grandes empresas e as pequenas e médias empresas representam menos de um terço do total.
Para Carlos Moreira da Silva, mais do que incentivar a presença em mercados menos desenvolvidos, Portugal deve apostar nos mercados mais exigentes, onde a concorrência obriga as empresas a inovar, a melhorar processos e a aumentar a sua competitividade.
Sublinha igualmente a importância das competências de gestão e da preparação dos empresários para enfrentar os desafios associados ao crescimento. “Quando os modelos de negócio têm êxito, é preciso estar preparado para os sacrifícios que exigem o crescimento e a internacionalização”, asseverou Carlos Moreira da Silva.
Quanto às políticas públicas, defende uma estratégia centrada na criação de condições favoráveis ao crescimento empresarial. “Concentraria a atenção toda na despenalização fiscal do sucesso, porque a penalização não incentiva o crescimento e empurra as empresas para fora do território nacional”, concluiu Carlos Moreira da Silva.
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