Mercados têm resistido ao choque geopolítico
Cristina Brízido defende que o bloqueio do Estreito de Ormuz representa um choque temporário e não uma rutura histórica como a de 1973. A valorização dos índices acionistas globais ultrapassa os 20% desde o início de 2025.
“Neste momento, temos um evento binomial. Ou acreditamos que o que está a acontecer no Estreito de Ormuz vai significar uma destruição da oferta de petróleo entre 10% e 15% e, com isso, vai gerar efeitos irreparáveis ao nível do crescimento e da inflação. Ou, em alternativa, consideramos que estamos na presença de um choque temporário", afirmou Cristina Brízido, presidente do conselho de administração da Caixa Gestão de Ativos.
Cristina Brízido considera que o cenário mais provável é o segundo e comparou-o à crise do petróleo de 1973, desencadeada pela guerra do Yom Kippur, o único evento geopolítico em que os mercados financeiros não recuperaram de forma célere após a correção inicial.
Em 1973, a oferta de petróleo contraiu 7%, enquanto, atualmente, a redução atinge os 11% desde fevereiro. Mesmo assim, Cristina Brízido aponta três diferenças estruturais que tornam os dois momentos profundamente distintos. "Ao nível [das reservas], tivemos 90 dias; hoje temos 70 dias, acima dos menos de 40 dias que se verificavam em 1973, e, por outro lado, hoje existe uma diversidade de fontes energéticas que não existia em 1973", recordou Cristina Brízido.
A resposta institucional é a terceira diferença sublinhada. Em 1973, os governos optaram pelo racionamento das matérias-primas e pelo controlo de preços, o que gerou uma mudança abrupta do regime económico, com impacto doloroso nas economias durante décadas. Hoje, a coordenação internacional é distinta, os bancos centrais dispõem de instrumentos mais sofisticados e, segundo Cristina Brízido, “o que está a acontecer é mais como uma aceleração de tendências que já se têm vindo a desenhar nos últimos anos”.
Inflação sobe, crescimento resiste
As projeções macroeconómicas atualizadas mostram que o crescimento dos EUA permanece semelhante ao de 2025, a Zona Euro abranda ligeiramente, com Portugal a superar a média comunitária, e a China mantém uma trajetória estável abaixo dos 5%. O impacto mais visível concentra-se na inflação: as estimativas que apontavam para 2% em 2026, tanto nos EUA como na Zona Euro, subiram para perto ou acima de 3%.
Este cenário coloca a Reserva Federal norte-americana e o Banco Central Europeu num dilema. “Se, por um lado, olham para os indicadores de crescimento e veem um crescimento que está a moderar, mas continua robusto, veem taxas de desemprego em mínimos históricos, por outro lado, verifica-se a emergência de uma pressão ao nível dos preços”, referiu Cristina Brízido. Em termos concretos, o BCE deverá subir taxas já na próxima semana e novamente em setembro, uma inversão face ao cenário de estabilidade previsto no início do ano. As taxas Euribor a três meses estão em 2,3% e deverão fechar 2026 em 2,6%.
Após 2024 com 25% de valorização e 2025 com 18%, os índices acionistas norte-americanos registam uma subida de 11% em 2026. "As métricas de valorização relativamente às ações até se reduziram", sublinhou Cristina Brízido, indicando que as ações não estão sobreavaliadas face aos lucros gerados.
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