O dia festivo e soalheiro, de uma primavera à espreita, enchia o centro de Tiraspol de caras mais ou menos sorridentes. É coisa rara num lugar onde há poucas razões para rir. Herdeiros e seguidores fiéis de um passado totalitário, é provável que a capital da rebelde e pobre Transnístria albergue os últimos soviéticos. E isso talvez explique os rostos habitualmente sisudos e desconfiados nas ruas da cidade árida, dominada por edifícios de arquitetura marxista-leninista. Numa imaginária viagem a este pequeno "País dos sovietes", o intrépido repórter Tintin já não enfrentaria hoje as sanguinárias políticas do bolchevique Josef Estaline.
Encontraria apenas um território aparentemente pacato, que declarou a ‘independência’ da Moldávia, embora internacionalmente a sua existência seja só reconhecida por uma espécie de ‘países’, como a Abecásia ou a Ossétia do Sul, mas, curiosamente, não pela Rússia e esse é um problema.
À luz do direito internacional o território é moldavo apesar de ter fronteiras, cunhar moeda, emitir passaportes e matrículas de automóvel e ostentar bandeira própria. E, não menos importante, de estar ocupado por mil e quinhentos militares russos. Este estado das coisas, em vigor desde que a região decidiu separar-se de Chisinau, depois de uma breve e inócua guerra no início da década de 90 do século passado, foi aparentemente pacífico até 2022. Só que a invasão russa da Ucrânia evidenciou a vulnerabilidade socioeconómica da Transnístria e valorizou a sua importância geopolítica, nomeadamente na ligação ao mar Negro, através da estratégica e cosmopolita cidade ucraniana de Odessa, localizada a 150 quilómetros de Tiraspol, onde a vida corre normal mesmo com a guerra à porta.
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Na praça Suvorov, que corta a estrada 25 de Outubro, a principal artéria da capital, um homem de provecta idade estaciona um belo GAZ Pobeda junto ao café onde Tatiana Chisca conversa com uma jovem – que prefere não se identificar – inequívoca apoiante de Vladimir Putin. Não tem muito a dizer sobre a T-shirt do Presidente russo que veste naquele dia de calor tímido. Apenas que gosta de Putin porque é "um grande líder" que "protege" a Transnístria. A defesa do território é, de resto, uma preocupação transversal à população pró-russa.
Proteção russa
Na semana passada, o parlamento da Transnístria aprovou um pedido especial de proteção à Rússia. A explicação para tal pedido deve-se, segundo o ‘presidente’ do enclave, Vadim Krasnoselsky, ao facto de estar em curso uma "política de genocídio contra a Transnístria".O argumento, recorde-se, foi o mesmo usado pelas regiões do leste da Ucrânia que justificaram a invasão russa daquele país em 2022. Desta vez, responsáveis em Moscovo apressaram-se a explicar que o pedido era para assistência económica e não militar, mas poucos acreditaram na versão que mais convém à Rússia. Na perspetiva de Putin, o Ocidente estaria a alimentar tensões artificiais sobre a pretensão russa de anexar o território. Acontece que a circunstância de Moscovo nunca ter reconhecido a independência da região permite especular sobre outros planos para o território rebelde moldavo.
O facto é que desde o início da guerra russa na Ucrânia – país que, tal como a Moldávia, faz fronteira com a Transnístria – o contingente militar russo deixou de ser abastecido a partir do porto ucraniano de Odessa. A criação de um corredor que permitisse a ligação do território ensanduichado entre a Moldávia e a Ucrânia a Odessa não serviria apenas os interesses militares russos.
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Na Transnístria, a Moldávia está a ser acusada de isolar o território e, dessa forma, de o asfixiar economicamente. Essa é também uma narrativa sistemática com o objetivo de desestabilizar o governo pró-ocidental em Chisinau que já formalizou o pedido oficial de adesão à União Europeia e esse é outro dos focos da irritação russa. Moscovo não esconde, aliás, ter apoiado opositores moldavos, de forma a que o país abandone o alinhamento europeu e se junte a um bloco liderado por Putin. Esta disputa de influência na Transnístria/Moldávia está a assustar a União Europeia que receia estar a nascer aqui outro foco de uma guerra turbinada pela Rússia.
Tropas russas para manter a paz onde não há guerra
Após o colapso da antiga União Soviética e a proclamação independentista de 1992 que a Rússia mantém na Transnístria um efetivo de aproximadamente 1500 militares. São, eufemisticamente, designados por Moscovo como uma "força de manutenção de paz" numa zona que não está (ainda) em guerra. Tal como as forças de paz da ONU, os militares russos na Transnístria usam capacetes azuis e são vistos regularmente a patrulhar o território e a controlar os ‘check points’ posicionados em lugares estratégicos, como em Bender, junto à linha de fronteira moldava. São forças nomeadamente da 82ª Divisão do Exército Vermelho, com uma longa história militar na região, e da 131ª Brigada Motorizada de Fuzileiros. Para além dos homens, as forças russas dispõem ainda de uma importante reserva de armamento na Transnístria.
Um ‘país’ onde manda o Sheriff
O FC Sheriff Tiraspol, clube-sensação da Transnístria, é só a ponta de um icebergue económico – e de corrupção – no território rebelde. A equipa de futebol é parte do império formado por dois antigos agentes da polícia e que hoje controla mais de metade da economia. De bombas de gasolina a supermercados, de fábricas a meios de comunicação social, os tentáculos de Viktor Gushan e Ilya Kazmaly estendem-se igualmente ao poder político de Tiraspol e Moscovo. O isolamento do território por via da guerra na Ucrânia está a asfixiar os abastecimentos que eram feitos através do porto de Odessa. O contrabando – atividade em que Gushan e Kazmaly fizeram fortuna – está de novo em alta.
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O país do dinheiro de plástico
A Transnístria foi o primeiro ‘país’ do mundo a utilizar, literalmente, dinheiro de plástico. O território colocou em circulação, em 2014, moedas plásticas de 1, 3, 5 e 10 rublos da Transnístria em formatos circular, quadrado, pentagonal e hexagonal. Estas moedas ostentam figuras militares e históricas da antiga União Soviética. Dada a sua exclusividade, foram praticamente todas guardadas pela população do enclave independentista e são hoje valiosas e raras peças de coleção apesar de não terem valor facial por estarem fora do sistema financeiro.