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Ucrânia, um ano de guerra

A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, reabrindo a ferida da guerra no coração da Europa. 365 dias de conflito deixaram várias cidades ucranianas totalmente destruídas, espalharam a morte e levaram mais de oito milhões de pessoas a fugir do país.

A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, reabrindo a ferida da guerra no coração da Europa. 365 dias de conflito deixaram várias cidades ucranianas totalmente destruídas, espalharam a morte e levaram mais de oito milhões de pessoas a fugir do país.

Quando as tropas russas atacaram a Ucrânia, pouco passava das 3h30 do dia 24 de fevereiro, existiam no planeta quase 30 guerras ou conflitos ativos. Da Palestina ao Myanmar, das muitas posições islamitas em África à Síria, do Haiti à Etiópia ou no Iémen, onde nos últimos sete anos mais de 10 mil crianças foram mortas ou mutiladas, segundo a UNICEF. Nada que, aparentemente, preocupasse muito a opinião pública ocidental e a europeia em particular. O mesmo silêncio testemunhou avanços militares que Vladimir Putin foi ensaiando no Donbass desde 2014, o ano em que a Rússia ocupou a Crimeia na sequência da revolução da praça Maidan, em Kiev.

O que aconteceu, então, para que, da noite para o dia, a Europa despertasse abruptamente para a barbárie da guerra à porta de casa?

Haverá diversas explicações e é certo que o choque com que os europeus viram um conflito armado voltar às suas fronteiras resulta da soma de vários fatores. A começar pelas razões invocadas pela Rússia para invadir a Ucrânia numa ação baseada na mentira que, eufemisticamente, Putin designou de 'operação militar especial': Desmilitarizar e ‘desnazificar’ o país liderado por Volodymyr Zelensky, acabar com o que Moscovo classifica de "genocídio" levado a cabo por Kiev contra população de origem russa nas regiões separatistas de Donetsk e Luhansk e, provavelmente a mais importante, impedir a adesão da Ucrânia à NATO travando, dessa forma, o avanço para o leste europeu daquela aliança militar.

Putin anuncia 'operação militar especial' na Ucrânia

Esta não foi a primeira que um Estado – ou uma aliança de nações – recorreu à falácia para justificar a guerra. Só que não é frequente assistirmos à invasão de um país democrático, com padrões europeus, por parte de um outro que tem consolidado uma autocracia ditatorial legitimada por alterações legislativas feitas à medida da cupidez de Vladimir Putin. Essa ambição foi ficando mais clara à medida que amanhecia aquela quinta-feira de infâmia no final de fevereiro de 2022. 

Numa ofensiva como a Europa não via desde a Segunda Guerra Mundial, a Rússia invadiu a Ucrânia com um potencial de 12 mil tanques contra apenas 2500 na defesa ucraniana, mais de 500 helicópteros de ataque e quase 800 caças (34 e 70, respetivamente do lado de Kiev) e 7500 peças de artilharia (contra duas mil).

Perante o poderio militar russo que parecia ameaçar esmagar a Ucrânia, vários países uniram esforços para enviar material militar para o país. No final de 2022, já tinham sido enviados mais de 32 mil milhões de euros em armas, munições, mísseis, veículos de combate ou sistemas de defesa antiaéreos. Valores a que se somam os pacotes aprovados no início de 2023. 

Em janeiro, os EUA anunciaram um apoio militar de mais de três mil milhões de dólares e quando o presidente dos EUA, Joe Biden, visitou Kiev, a 20 de fevereiro, avançou com mais 500 milhões para armamento.

Países da NATO e Austrália enviaram mais de 30 mil milhões de euros em armamento para a Ucrânia
Países da NATO e Austrália enviam cerca de 30 milhões de euros em armamento para a Ucrânia
Países da NATO e Austrália enviam cerca de 30 milhões de euros em armamento para a Ucrânia
No início da guerra, o exército russo lançou mais de 200 ataques contra a Ucrânia. No leste e sul, pontos estratégicos no mar Negro, como Odessa e Mariupol são ocupados e um contingente numeroso lança-se pelo Donbass. Uma força musculada cruza a fronteira em direção a Kharkiv, a segunda cidade ucraniana.

O ataque também chega em força à capital. Uma chuva de mísseis atinge unidades da aviação e destrói caças em bases militares. O importante aeroporto Antonov, nos arredores de Kiev, é bombardeado e outras infraestruturas aeroportuárias destruídas ou danificadas. A intensidade do fogo russo atingiu igualmente inúmeras zonas residenciais, especialmente em Kiev e Kharkiv, matando civis.

Por esta altura já se tinha percebido que o objetivo da 'operação militar especial' de Putin não visava apenas o Donbass e que a envergadura da ação implicava um planeamento de muitos meses, sem lugar ao improviso. Imagens de uma coluna militar gigantesca em direção a Kiev faziam antever uma ocupação que a discrepância de meios parecia pender facilmente para o lado do agressor. A rendição, vista de Moscovo, seria uma questão de dias e parte do ocidente acreditou nessa aparente inevitabilidade do "chegar, ver e vencer". Sabemos agora que a história foi outra, mas nem por isso menos sangrenta.

Foram meses de avanços e recuos, com a Rússia a anunciar conquistas de território e a Ucrânia a recuperá-lo, sempre com elevadas perdas humanas e de equipamento militar, que atingiram tanto o país invasor como o invadido.
Perda de equipamento da Rússia e da Ucrânia
Perda total de equipamento
Tanques de guerra
Helicópteros
Aviões
Navios
Armas antiaéreas
Carros blindados e de transporte pessoal
Postos de comando e estações de comunicação
Sistemas de lança rockets
Sistemas de mísseis terra-ar
Fonte: Army Technology. Dados recolhidos até 21 de dezembro de 2022
Contra todas as expectativas, os militares ucranianos acantonaram os russos nos arredores de Kiev e travaram a invasão da capital, troféu que teria ditado outro rumo da guerra. Com a tropa estafada e as linhas de abastecimento cortadas, Putin foi obrigado a recuar.

Para trás ficou um rasto de destruição inimaginável em Irpin ou Borodyanka e infames valas comuns em Bucha, que os primeiros repórteres a chegar à outrora pacata vila puderam testemunhar.
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Valentyn Ogirenko/Reuters
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Gleb Garanich/Reuters
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Alfredo Leite
Guerra na Ucrânia
Guerra na Ucrânia Gleb Garanich/Reuters
A morte indiscriminada de civis inocentes levou o presidente dos EUA, Joe Biden, a considerar a matança de Bucha como um 'crime de guerra' e a defender a ida de Putin a um tribunal internacional.

E o curso da guerra demonstraria que Bucha não foi caso isolado. As atrocidades russas multiplicaram-se com especial violência a sul, nomeadamente em Kherson e Mariupol.
Civis mortos e feridos durante a guerra
Número de baixas civis
Número de baixas civis
Março de 2022 foi o mês mais sangrento na Ucrânia
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Acossado no terreno pelo avanço das tropas ucranianas e preocupado em garantir a sobrevivência doméstica, o ocidente especula sobre o que poderá fazer o presidente russo para evitar a humilhação de um recuo militar. O receio de que a Rússia possa recorrer a uma ofensiva nuclear adensou-se com a suspensão da participação no tratado New START (Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas), um pacto assinado em 2010 com os EUA e que visa limitar o arsenal nuclear de ambos os países.

A ameaça atómica tem sido usada, para já, apenas como arma de propaganda e pressão e não exclusivamente por Vladimir Putin. A eventualidade de um ataque nuclear é esmiuçada pelo presidente ucraniano para capitalizar apoios. E o presidente russo também saberá que um ataque nuclear – por exemplo com armamento tático – teria um reduzido impacto nas tropas ucranianas dispersas no terreno e galvanizaria ainda mais a ajuda ocidental à Ucrânia, tanto do ponto de vista político como militar.

Contudo, Putin intensifica o discurso com a tónica no nuclear, sublinhando mesmo que a Rússia deve estar pronta para retomar os testes com armas nucleares caso os EUA o façam. Tal cenário colocaria um ponto final à proibição de testes com armas nucleares que está em vigor desde os tempos da Guerra Fria.
Os países que têm armas nucleares
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Volvido um ano desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, a guerra chegou a um impasse que permitiria a cada uma das partes reivindicar vitória. Mesmo que Putin tenha fracassado parcialmente os objetivos e, nos últimos meses, os ucranianos tenham feito os russos recuar no terreno.

Só que a frieza dos números diz-nos que, na verdade, nenhuma das partes pode reivindicar êxitos: A guerra causou 100 mil mortos do lado russo e outros tantos ucranianos, que somam ainda a morte de milhares de civis. Desde que estalou o conflito, mais de oito milhões de ucranianos fugiram do país, numa vaga de refugiados como a Europa não via há muitas décadas. Destes, apenas uma ínfima parte voltou à Ucrânia.
Número de refugiados ucranianos na Europa

O inverno, com o seu rigor, não será tempo para se falar de paz. Em vésperas de se assinalar um ano de guerra, Putin voltou a culpar o ocidente pela escalada do conflito e afirmou que a Rússia está a "tentar parar a guerra" e que "não está em guerra com o povo da Ucrânia."

Ao mesmo tempo que o presidente russo fazia estas afirmações, na cidade ucraniana de Kherson rebentavam bombas contra alvos civis.

Nos últimos três meses, os ataques têm-se intensificado, em especial no leste da Ucrânia, que tem estado sob bombardeamentos constantes. As tropas russas tomaram Soledar e avançam em Bakhmut. Esta é uma região estratégica e permitirá à Rússia uma vitória significativa no Donbass.

Avanço das tropas russas no leste da Ucrânia
Putin pode querer colocar um ponto final na guerra, mas apenas quando lhe for conveniente. Quando se dirigiu à nação, dias antes de se assinalar um ano da invasão, não deixou dúvidas: "irá até ao fim" e "alcançará os seus objetivos".
Texto Alfredo Leite Fotografia e vídeo Alfredo Leite e Reuters Mapa DeepStateMap Design e Infografia Catarina Carvalho Coordenação de Design&UX Edgar Lorga Coordenação Editorial Alfredo Leite e Catarina Cruz