Laços entre homens e animais são únicos
<p align="justify">Há coisas que não se explicam. Como a profunda amizade, sem tino ou razão, que pode unir animais domésticos e os seus donos.</p>
A conservadora, antes de os declarar marido e mulher, perguntou se alguém se opunha ao casamento de Fernando e Inês. Na sala ouviu-se um sonoro ‘oinc’. É pouco provável que a porca ‘Morcela’ quisesse manifestar-se contra a união dos donos, mas devia estar com fome, uma coisa que lhe acontece com mais frequência do que seria desejado pela balança. Até porque a ‘minipig’ [pequena porca] de cinco meses foi a menina das alianças.
Os convidados, que puderam levar os seus animais de estimação para a cerimónia, reagiram – não com a boca aberta de espanto mas com uma sonora gargalhada: "Os nossos amigos já sabem que a ‘Morcela’, tal como todos os animais que vivem na nossa casa, é família. Ela veio fazer um curso à nossa escola [de treino de animais] e nunca mais saiu, quisemos ficar com ela, apaixonámo-nos completamente", conta Fernando Silva, de 46 anos, enquanto oferece um biscoito à menina dos seus olhos. "É um animal muito especial. Tem um sentido de higiene muito grande, é um animal que pede algum afeto sem exagerar – não é como os cães que andam sempre atrás de nós. Cativa pela inteligência e surpreende-nos todos os dias", diz, babado, o dono. É ‘Morcela’ que pede para ir à rua, logo que acorda – dorme debaixo do sofá, enroscada numa manta, na cozinha – antes de tomar o pequeno-
-almoço, cereais ou fruta.
Caso esteja sol, ao ritual descrito acresce colocar protetor solar no pelo (sensível) da porca e, volta não volta, espalhar creme hidratante para melhorar o look da ‘Morcela’. A ligação entre humanos e animais pode fazer inveja a muitas famílias de sangue. Ainda em setembro, os zurros da burra ‘Carriça’ foram essenciais para encontrar e salvar uma idosa que sofrera uma doença súbita e esteve desaparecida durante várias horas na aldeia de Abaças, Vila Real. A mulher vivia sozinha e tinha saído de casa para ir ao monte na companhia do seu animal. Terá sido vítima de um AVC e ficou prostrada num pinhal, a cerca de 500 metros de casa, sem falar e imobilizada de uma perna e um braço, das 06h até às 23h.
Gata com depressão
‘Teresa’, antes uma comilona, estava magra e a ficar sem pelo. Tinha o olhar baço e perdido, um pouco o espelho da dona, que passava por uma fase complicada a nível pessoal. Deixou de comer, de beber, de se interessar por tudo o que mexia e de fazer maratonas felinas, como era seu costume desde que aterrara naquela casa no Porto, salva de uma sorte ingrata.
"A gata ficou com uma grande anemia fruto de uma depressão. Quando a levei ao veterinário vim a saber que o meu estado de espírito tinha passado para a ‘Teresa’. Só que não me apercebi logo – como andava distraída e mais ausente, quando reparei ela estava mesmo mal", recorda Ana Caeiro, de 37 anos, formada em Sociologia. Não foi fácil fazer com que a gata ‘Teresa’ voltasse a comer, "era preciso obrigá-la. Aos poucos, o facto de me ver melhor fez com que ela melhorasse e tratar dela foi um processo terapêutico para mim também". A gata deve o seu nome ao outro gato da casa – a um Simão só se podia juntar uma Teresa, personagens de um destino ardiloso em ‘Amor de Perdição’, obra de Camilo Castelo Branco. "A ‘Teresa’ também já caiu de um quarto andar e sobreviveu sem mazelas. Às vezes acho que o nome a tem condicionado...", brinca a dona.
‘Low Wam’ e ‘Tun Shai’ são assim chamados por causa do pai, um shar-pei que veio da China diretamente para a casa de Manuela Foley, de 67 anos e funcionária da TAP. "Eles nasceram porque o pai deles me destruiu um sofá de 260 contos e percebi que tinha de lhe arranjar uma cadela com urgência." ‘Low’ e ‘Tun’ já são órfãos, mas têm em Manuela uma verdadeira mãe. "Eu saio de casa para ir levar o lixo e eles ficam à janela a seguir todos os meus movimentos. Forrei a cabeceira da minha cama de propósito para poderem estar à janela confortáveis. Os meus amigos chegaram a ir visitar-me a uma clínica particular, depois de ter sido operada, com os cães ao colo no horário da visita. Agora, a última vez que fui operada roguei para não ficar internada porque não queria dormir sem eles."
Se mais provas de amor faltassem, Manuela continua: "Quando andava com o pé ligado não me largavam, sempre a cheirar-me o pé, preocupam-se quando estou com tosse, alterei a minha vida profissional por causa deles. Sou a única funcionária da TAP a trabalhar a partir de casa, teve mesmo de ser, porque estava lá e estava a pensar nos bichos." ‘Low Wam’ e ‘Tun Shai’ têm doze anos e meio e uma força tal que em Telheiras, Lisboa, não há quem não tenha visto algum dia Manuela a ‘voar’ atrás da trela. "Já parti o nariz três vezes, uma costela, os dois braços, os pés, fiz um estiramento muscular...", enumera sem se queixar. Até porque a saúde dos cães é a sua grande preocupação. "Quando o último deles morrer eu vou também, não fico cá a fazer nada. Já tenho o compromisso feito: as nossas cinzas vão para o Guincho, um sítio que o pai deles adorava."
Quando a ‘Winter’ ficou doente, Diana Amado, de 21 anos, avisou os pais de que ia gastar "o dinheiro todo" para a salvar. Em Santarém não havia veterinários que atendessem ratazanas domésticas, por isso veio de escantilhão um médico de Lisboa para assistir o animal. Ainda assim, a ‘Winter’ não sobreviveu e Diana fez um luto demorado. "Foi um sofrimento, ela era como uma filha para mim. Ia comigo para a universidade, passava as aulas no meu ombro, dormia comigo dentro dos lençóis, nunca nos separávamos", recorda. "Ela era para ser comida de cobra, por isso salvei-a ao ficar com ela. No início tinha medo de mim, mas comecei a pô-la dentro da camisola para sentir o meu cheiro. Tínhamos vários rituais engraçados: um deles era quando ela queria ir à casa de banho a meio das aulas, esgravatava o meu ombro, eu saia com ela para a rua, ela descia pelo meu tronco e depois voltava a subir quando estava despachada. Outro era roer-me os dedos dos pés antes de dormir e passear pelo meu cabelo." A afeição era tanta que Diana criou uma página no Facebook para ‘Winter’, a que juntou os dois apelidos da família: Winter de Carvalho Amado tinha 200 amigos.
‘Woody’, um chinchila, morreu no dia 24 de junho de 2012, com um problema de coração. "O facto de chegar à cozinha e não o ver, não o sentir a saltar, não ter de sair da cama a meio da noite para ir ralhar com ele por estar a roer as grades e a fazer barulho, não sentir aquele pelo quentinho e fofinho na minha cara, não ter a alegria de o ver todas as manhãs dói muito...", desabafa Marta Bartolomeu. Quando o escolheu informou-
-se. Um chinchila podia chegar aos 20 anos de vida, tinham muito tempo pela frente. Mas isso não aconteceu. "Era um animal amoroso e muitas vezes me limpou com a sua língua pequenina as lágrimas que por vezes chorei. Andava sempre com ele ao colo e quando ouvia música começava a dançar e a reação dele era fechar os olhos e baixar as orelhas... Aí eu sabia que ele estava a ficar com medo. Quando estava zangado empinava o nariz, fechava os olhos e ignorava-me." Michelle Rosa Santos, de 35 anos, morre de amores por um animal um bocadinho maior. O ‘Selim’, um cavalo em que ninguém acreditava, foi recuperado por ela, qual encantadora de cavalos fora do grande ecrã. "Achei que ele merecia uma oportunidade e nunca mais nos largámos. Além de começar a saltar obstáculos (e a ganhar provas) – ele que era um cavalo de dressage" –, tem com a jovem cavaleira uma ligação tão forte que conseguem fazer equitação natural, sem cabeçada, ao ritmo um do outro. "Ainda estou eu a estacionar e já o estou a ouvir chamar por mim."
O periquito sem pata
Também Maria João Ceia, de 55 anos, vai guardar memórias mil do ‘Kiko’, o periquito que lhe animava os dias. O passarinho morreu na noite anterior à reportagem, por isso foi uma dona chorosa que a Domingo encontrou na Clínica Veterinária de Telheiras. "Era muito especial. Quando eu metia a chave na porta tinha uma série de piu-pius de satisfação com a minha chegada. Cantava-lhe a canção do óó à noite, para o embalar e era assim que ele adormecia todas as noites. Se eu me esquecia, ele vinha para a ponta do poleiro à espera da canção", conta a secretária de um departamento de investigação de uma faculdade. ‘Kiko’ passou por várias complicações de saúde. "Quando lhe amputaram a perninha eu passei a levar a gaiola comigo para a cama e de duas em duas horas acordava para o pôr no poleiro, porque ele caía, sem equilíbrio. Preferi sacrificar-me a mim do que a ele." ‘Kiko’ deixou uma Maria João em lágrimas e uma ‘viúva’ na gaiola. ‘Sardinha’ teve mais sorte. Teresa Machado encontrou a gata neste verão, no primeiro dia de férias. Tinha sido atropelada.
"Não consigo deixar um animal para trás. Veio comigo de mota, ao meu colo, e depois começou a saga. Foi operada, mas depois começou com febre e tiveram de lhe tirar um rim. Quando me disseram que o melhor era despedir-me dela porque ela não ia sobreviver percebi que já não ia conseguir ficar sem ela." Por isso, e apesar de já ter em casa vários animais, Teresa – e a mãe, Clotilde – arranjaram espaço para a ‘Sardinha’. "Quer à força dormir encostada a nós, já é da família. Mais depressa falta para nós do que para ela." Paula Guerreiro, de 47 anos, assina por baixo a atitude de Teresa Machado, de 32, e da mãe, Clotilde, de 68. Tem cinquenta e oito gatos, todos resgatados de sortes difíceis. Poços, maus donos, árvores demasiado altas. Todos os dias chega mais um e acaba por ficar.
Em 2007 deram a Paula seis meses de vida. "Tinha cancro no fígado, no esófago, no pâncreas, na mama. Hoje já só tenho nos ossos mas continuo aqui, viva, e muito graças aos meus gatos. As energias deles absorveram-me o cancro", diz convicta. "Quando eu vinha da quimioterapia, cheia de dores, tão queimada que só vomitava e sem vontade de sobreviver, eles deitavam-se no chão ao pé de mim, roçavam-se, davam marradinhas, não me largavam. Punham-se à minha volta, como que a dizer: ‘estamos aqui’". Os animais, garante, "não estão connosco por interesse, nem para se salvarem ou sobreviverem. Estão connosco porque gostam de nós".
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