A RAIVA E O ORGULHO DE ORIANA FALLACI
Calar é uma culpa e falar uma obrigação... “Um dever cívico, um desafio moral, um imperativo categórico a que não podemos fugir”. Com estas palavras, a jornalista e escritora italiana Oriana Fallaci prepara o leitor para o livro que escreveu e registou como sermão em vez de romance, ensaio, memória ou panfleto.
Chama-se “A Raiva e o Orgulho”, traz chancela da Difel e polémica garantida. Escrito a quente, “dezoito dias depois do Apocalipse de Nova Iorque”, raciocínio de gelo, escorre como lava num diálogo com o leitor que não larga até que acorde para a realidade... A sua. São argumentos fortes os seus. Verdadeiros também. Só não são os únicos. Nem o mundo é a preto e branco nem os homens se dividem entre os bons e os maus.
Chamou-lhe sermão e fez bem porque “um sermão julga-se pelos resultados e não pelos aplausos ou pelos assobios que vai desencadear”. Assim sendo, diz quem quer de sua justiça, independentemente da justiça dos outros e, descartado o tom sentencioso, tudo lhe é permitido, até chamar a estas páginas o Dalai Lama com quem passou “um dia inteiro” e... não aprendeu nada! “Que sentido fará defender a sua cultura ou pretensa cultura, quando eles desprezam a nossa?”, lê-se a propósito do islamismo.
“A Raiva e o Orgulho” de Oriana começou por ser um longo artigo de jornal que, de tão longo, acabou sendo livro: “com o ímpeto de um soldado a sair da trincheira e a lançar-se contra o inimigo, atirei-me à máquina de escrever . Puz-me a fazer a única coisa que sabia fazer, que podia fazer. Escrever”.
'NÃO TENHAS MEDO'
“Nem me lembro se determinadas coisas eu as vi acontecerem na primeira Torre ou na segunda. As pessoas que, para não morrer queimadas, se atiravam das janelas dos octagésimos ou nonagésimos andares. Partiam os vidros das janelas, saltavam para cima delas e atiravam-se para baixo como se fossem lançar-se de um avião com um pára-quedas às costas. Às dúzias. Sim, às dúzias. E desciam tão devagar. Tão devagarinho”... Todos assistimos a isto mas, decididamente, alguns mais que outros, já que, nestas coisas da tragédia é a proximidade que a faz maior do que já é. Por isso se compreende o ódio. Não a insistência nele. Sabe disso melhor que ninguém o menino de oito anos, ouvido, por acaso, numa rua de Nova Iorque... “A minha mamã dizia sempre: ‘Bobby, se te perderes quando voltares para casa, não tenhas medo. Olha para as Torres e lembra-te de que vivemos a dez blocos de distância na margem Hudson’. Mas agora já não há Torres. Pessoas más varreram-nas dali com quem estava lá dentro. E por isso andei durante uma semana a perguntar a mim mesmo: Bobby se agora te perderes, que fazes para voltar para casa? Mas depois disse comigo: Bobby, neste mundo também há gente boa. Se te perderes agora, qualquer pessoa boa te ajudará em vez das Torres. O importante é que não tenhas medo”.
Porque “as coisas escritas podem fazer um grande bem e também um grande mal, curar ou matar”, haja coragem bastante para curar. Todos. Vítimas e carrascos que, dependendo da circunstância, somos todos.
“(...) é um rei sem reino, um papa sem igreja, um deus sem fiéis. Pior: como os seus súbditos estão espalhados na Índia, no Nepal e no Sikkim, quando morrer será praticamente impossível encontrar o seu sucessor; assim, quase de certeza será ele o último Dalai Lama. Nessa altura interrompi-o, pensando que o ódio devorasse o seu coração e perguntei-lhe: “Santidade, poderá alguma vez perdoar aos seus inimigos?. Olhou para mim atónito. Surpreendido, incrédulo, talvez ofendido, espantado. E com aquela sua voz, cheia de paixão, convicção, sinceridade, exclamou: ‘Inimigos? Mas eu nunca os considerei inimigos! Eu não tenho inimigos! Um budista não tem inimigos!’” (in “A Raiva e o Orgulho”).
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