Abel Ferrara: "Eu e Hollywood... não tem nada a ver" (COM VÍDEO)
Abel Ferrara, no seu estilo rebelde e contra-corrente, falou ao CM do reencontro com Willem Dafoe (esta quinta-feira, às 21h30, no Monumental) e do próximo filme, sobre o escândalo sexual de Strauss-Kahn.
Correio da Manhã - É a sua primeira viagem para Lisboa. O que viu até agora
Abel Ferrara - É sim. Cheguei ontem mas ainda não vi nada, só o hotel. E a vista é linda. Foi daqui que o Colombo saiu para a América? Veio aqui buscar o dinheiro e saiu daqui...
- O que conhece de Portugal: Cristiano Ronaldo?
- Fado, conhece?
- Toca por divertimento?
- Sim, não vivo disso mas sei tocar... E como está a situação do cinema aqui em Portugal? Pior do que Itália?
- E cinema português, conhece Manoel de Oliveira?
- Sim, ele está cá no Festival?
- Amanhã (hoje) tem um encontro com Willem Dafoe (Monumental, 21h30), antes da exibição do ‘Go Go Tales - Histórias de Cabaret', para uma conversa com o público. De que vai falar?
- Talvez falar dos seus filmes com o Willem Dafoe: o ‘New Rose Hotel', ‘4:44: Último Dia na Terra'... Qual foi a melhor performance de... Dafoe?
- Mas se tivesse de escolher, de que falaria...?
- Talvez episódios interessantes e divertidos nos bastidores dos seus filmes com Willem Dafoe, do ‘Histórias de Cabaret'...
- Como é a vossa relação?
- Tem mais algum filme em mente para fazer com ele?
- Sim, sobre o Pier Paolo Pasolini.
- Tem outros actores com os quais costuma filmar habitualmente: Christopher Walken, Harvey Keitel, Matthew Modine...
- Sim, há poucas pessoas com as quais sinto que consigo partilhar pensamentos e sinto que temos expectativas paralelas, topas?
- Também vai fazer um filme sobre o escândalo de Dominique Strass-Kahn?
- Sim, com o Gérard Dépardieu e a Isabelle Adjani [que interpretará Anne Sinclair]. Vai ser em breve, não sei, quando me disserem para ser. E vou filmar nos sítios onde tudo aconteceu. Washington, Paris, Nova Iorque... Vou cobrir a verdade.
- O que lhe interessou mais neste caso: o escândalo sexual, as consequências políticas?...
- Os jogos de poder: a mulher e o marido; as prostitutas e empregadas. São pessoas poderosas, em cargos poderosos em jogos de poder. E depois há um marido e uma mulher que se amam mas ele, com 65 anos, tem de ter sexo a toda a hora, todos os dias?! Ele não tem 18 anos...
- Acha que ele é viciado em sexo?
- Sim ele vai dizer que é. Eu di-lo-ia... Ainda a semana passada disse que tinha uma moralidade própria, que não era compatível com a moralidade de França.
- Vai ser um drama ou sátira?
- As duas coisas.
- Nunca foi nomeado para um Óscar. Acha que a Academia de Hollywood não entende o seu cinema?
- Pois, mas acho que eles entendem-me muito bem. Mas eu e Hollywood é como maçãs e laranjas, não tem nada a ver. Eles não dão prémios desses a gente como eu, não é o mesmo jogo.
- O que gostaria de dizer aos fãs português?
- Apareçam amanhã, por favor, vamos todos conversar. (risos)
- Disse-me, antes de começar a entrevista, que tinha parado de beber. Porque o fez?
- Não queria mais estar a matar-me.
- O seu último filme, ‘4:44: Último Dia na Terra' tratava sobre as últimas 24 horas de um casal que sabe que a Terra vai desaparecer, depois do choque de um meteorito. Se tivesse apenas 24 horas de vida, como as passaria?
- Não gosto de pensar em disparates. Vou ver o meu filme no Festival e estar com o meu amigo Willem...
PERFIL
Abel Ferrara nasceu há 61 anos no Bronx, em Nova Iorque, EUA. Realizador de culto, teve nos anos 1990 o auge da sua carreira, com filmes como ‘Polícia sem Lei' ou ‘O Funeral'.
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Esta quinta-feira há um conjunto de propostas extremamente diversificadas - é um dos dias principais do Festival.
Começo pela presença do escritor Enrique Vila-Matas numa masterclass sobre a sua relação com o cinema.
Centro de Congressos do Estoril, 19h00
Logo a seguir, uma sessão de filmes de Adolpho Arrietta que inclui uma mesa-redonda com este realizador e Enrique Vila-Matas, além de um grupo de críticos de cinema franceses - Emmanuel Bourdeau, Thierry Lounas e Phillipe Azoury. Nessa mesma sessão, será feito o lançamento mundial do livro de Azoury sobre Arrietta.
Centro de Congressos do Estoril, 20h30
Destaco também a masterclass de Dominique Gonzalez-Foerster e Tristan Bera sobre "Belle comme le jour" realizado por ambos, e as diferentes versões sobre o mesmo tema - "Belle de Jour" de Luis Buñuel e "Belle Toujours" de Manoel de Oliveira.
Espaço Nimas, 18h00
E a cereja no topo do bolo: o encontro de Abel Ferrara e Willem Dafoe, através da mostra de dois filmes que Ferrara realizou com Dafoe como actor principal. Os dois conversam em público na sessão das 21h30. Realço a relação de amizade dos dois: um realizador completamente atípico que persiste em mostrar a multiplicidade de facetas de Willem Dafoe.
Cinema Medeia Monumental, sala 4, 21h30 e 24h00
Sublinho evidentemente a antestreia do último filme de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, "A última vez que vi Macau", com estreia prevista para Dezembro. A sessão é tardia mas vale a pena.
Centro de Congressos do Estoril, 24h00
E ainda quero destacar a masterclass de Lucrecia Martel depois de "La mujer sin cabeza". Esta cineasta argentina é considerada pela crítica uma das personalidades mais importantes da cinematografia actual.
Espaço Nimas, 22h00
Não sei onde vou conseguir estar neste dia, com tantas coisas importantes a acontecer. Os espectadores que escolham, conto convosco.
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