Aldina Duarte lança 'Romance(s)'

O novo disco da fadista conta a história de um triângulo amoroso.

23 de maio de 2015 às 17:39
Aldina Duarte, Romances, disco, fado, fadista, música, escrita Foto: Mariline Alves
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Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira, duas senhoras de peso num único disco. Quem é que desafiou quem?

Foi a Maria do Rosário, curiosamente numa altura em que eu já tinha desistido de gravar discos.

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Desistido porquê?

Porque achava que sozinha já tinha ido até onde podia ir. Ou encontrava parceiros criativos ou já não tinha mais por onde evoluir. Sempre fiz tudo sozinha, fui a minha editora e produtora, e cheguei a um ponto em que decidi que não queria fazer mais do mesmo. Por isso estive quatro anos sem gravar.

E como é que a Maria do Rosário Pedreira a conseguiu desafiar?

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A Maria do Rosário é uma das minhas melhores amigas, uma das pessoas com quem janto regularmente. Um dia disse-me que tinha tido uma ideia que só eu é que podia executar, que era fazer um romance em verso para eu cantar em fados tradicionais. Inicialmente disse-lhe que não estava interessada em gravar, mas que até podíamos transformar essa ideia num espetáculo. À medida que íamos tendo os nossos jantares, no final ela dizia-me sempre: "Bem, agora vamos trabalhar", o que eu achava uma coisa extraordinária, até porque era eu que estava habituada a dizer "vamos trabalhar" [risos].

E assim o projeto foi nascendo...

Sim. Um dia ela chegou ao pé de mim e disse-me: "Olha, já dividi por capítulos, já defini o tema, que é um triângulo amoroso, uma traição entre duas amigas, e há por aqui uma quadrilheira."

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Mas essa ideia de um romance em fados tradicionais pareceu-lhe logo uma coisa exequível ou pareceu-lhe uma loucura?

Não, não. Acreditei que era possível. O difícil seria interpretar, e isso não tinha a certeza se seria capaz. É que há ali fados em que eu sou duas pessoas a falar uma com a outra. Para ser credível tinha de descobrir qualquer coisa que ainda não tinha feito. Há fados em que sou narradora e personagem ao mesmo tempo. E depois não podia esquecer-me de que não estava a cantar fado a fado, estava a contar uma história que tinha um fio condutor, uma maneira diferente de abordar um disco. E isto para mim era um desafio extraordinário do ponto de vista interpretativo.

Era um desafio que estava a precisar, este da Maria do Rosário?

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Era, porque apareceu numa altura em que estava bastante confusa. Tenho muito respeito pelo caminho que tenho feito e acho que ser fadista é uma arte superior, mas estava, digamos, muito sozinha.

Sozinha porquê?

Sempre fui uma pessoa muito isolada porque a minha natureza também foi sempre muito solitária. Mas não há qualquer tristeza nisto, porque também tenho um mundo de afetos muito rico: a minha família, os meus amigos, o amor que tenho pelos livros e pela música, a realização no meu trabalho. Mas às vezes há uma solidão intelectual e artística que é difícil e dura. E isso fazia-me sentir isolada. Depois, nos últimos dez anos apareceram pessoas com um talento indiscutível e que fazem muito mais sucesso comercial do que eu.

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Mas a Aldina tem um lugar já muito seu!

Eu acho que o meu lugar é intocável, assim como o meu público é muito fiel. Só que o meu caminho é outro e é muito mais lento. A minha matéria criativa são os fados tradicionais. O meu fado não é para levar ao MEO Arena ou para pôr num Rock in Rio. É um fado que exige algum cuidado para ser bem recebido. E é nesse sentido que me sinto um pouco isolada, porque não há muitas pessoas mais novas que queiram fazer este caminho. Só há uma pessoa da minha geração a fazê-lo, que é o Camané.

Mas chocam-lhe estes novos fados que se cruzam com instrumentos pouco tradicionais para o fado ou com novas sonoridades?

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Não, nada. Acho que quando deixar de haver abertura em qualquer tipo de arte, caminhamos para o seu fim. A arte tem de ser aberta e livre e, gostando-se ou não, ninguém tem o direito de dizer o que está certo ou errado. O fado não é de ninguém. O fado é de todos.

Mas deve haver limites?

Para mim há, enquanto artista.

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E que limite é esse?

O limite é não deixar de ser honesta naquilo que estou a fazer. Se não gosto de uma determinada sonoridade e não acredito num determinado repertório ou atitude, esse é o limite. E acho que as pessoas não podem mentir muito tempo porque não resulta.

Voltando ao disco, a Maria do Rosário teve total liberdade para escrever este romance?

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Sim, só lhe pedi o final [risos], porque há um filme do George Cukor chamado ‘Célebres e Ricas’ que tem um final de que gosto muito. São duas amigas que passam por uma série de peripécias, inclusive traições amorosas, e no fim ficam amigas.

Mas isso não é nada comum!

Pois não, e incomoda-me um pouco esta mentalidade feminina. Acho que uma grande amizade não pode ser posta em causa por uma paixão por um desconhecido. Para mim a amizade é soberana, e acho sempre bem que se refaça. E é o caso destas duas amigas.

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Então, este é um disco com uma moral?

Sim. Na forma como foi escrito foi quase amoral para haver liberdade total. Mas, sim, há uma moral de que é preciso cuidar das amizades a sério. Pô-las em causa por uma paixão não está certo. E, depois, devemos saber questionar as relações que vivemos.

E não houve a tendência para colocar algo de biográfico em histórias como esta?

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No primeiro disco isso não aconteceu porque tive de me ocupar muito com as personagens, como a quadrilheira que é coisa que abomino. Em Chelas, onde vivi, vi coisas gravíssimas vindas da brejeirice e da quadrilhice. Mas no disco tive de pôr de lado este meu trauma para ser credível. No segundo disco já foi diferente, porque é uma banda sonora da história em que às vezes sou eu a falar da história aos bocados.

Este disco tem um produtor improvável, o Pedro Gonçalves, dos Dead Combo. Como é que ele aparece?

O Pedro foi uma sugestão da editora. Achava que ele nem devia conhecer o meu trabalho [risos]. Quando nos conhecemos foi uma amizade fulminante. Passado uma semana já estava em casa dele a conviver com a mulher e com os filhos, coisa que até nem é muito comum em mim porque eu sou muito reservada. Mas as nossas afinidades artísticas eram óbvias e muito importantes para eu lhe confiar a minha vida.

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Mas porquê dois discos?

É engraçado porque já depois de gravarmos o primeiro disco, o Pedro andava preocupado com o que podia fazer mais e foi a mulher dele que lhe sugeriu fazer dois discos, um puro da Aldina e outro como lhe desse na cabeça. E isso libertou-o completamente. De repente dei por mim a cantar os mesmos fados, com as mesmas letras, mas com uma sonoridade diferente.

E convidou outros amigos!

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Sim, como já não fazia sentido ser personagem, convidei o Camané para fazer do homem, a Ana Moura para fazer da amiga e a Filipa Cardoso para fazer a quadrilheira, porque ela tem um fado muito bairrista. O segundo disco foi talvez o meu maior desafio até hoje, porque tive de inventar uma forma de cantar e ir às minhas referências não fadistas como Nina Simone, Fausto ou Jorge Palma. Emocionei-me muito a cantar. Comovi-me e enterneci-me comigo mesma ao descobrir coisas que tinha dentro de mim que não conhecia. 

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