ALMA E TRADIÇÃO
Uma nota inicial para destacar o brio e a dignidade dos três grupos que representaram o nosso país no Festival Intercéltico 2004, que terminou no Teatro Rivoli, no Porto.
Os At-Tambur, os Realejo e os Frei Fado D’el Rei mostraram que a música inspirada na raiz tradicional não perde de vista o futuro, fazendo uso de um profissionalismo que os torna capazes de se colocarem no mesmo patamar de quaisquer bandas internacionais.
É tempo de admirarmos o que é nosso, de olharmos para toda a música nascida e criada neste país que tanto despreza o que é seu de forma realista e descomplexada. É tempo de fugir da crise e das adversidades e perceber que a nossa música tem alma, tem tradição e tem uma raiz única desde sempre enriquecida por uma invulgar abertura às múltiplas diversidades musicais de todo o universo.
LENDAS E MEMÓRIAS
Foi bonito de ver os Frei Fado D’el Rei, as duas vozes femininas tão bem casadas, as três guitarras enfileiradas num ritmo de pranto compassado, puro como o branco da camisa dos intérpretes. Em rimas soltas, cantou--se o destino, evocou-se um rio, o Douro, solitário, exclamaram-se versos sobre marés e retratos da vida de poetas e trovadores em viagens imaginárias à volta do Mundo.
Soltou-se o verbo, num baile de vozes e cantigas do adro, amor e saudade fundidos entre o imaginário do fado, da música popular e do flamenco, histórias de reinos sagrados, rotas de seda trazendo rumores de estranhas lendas e memórias.
Os tão irlandeses jigs e reels tornam-se frenéticos pela mão dos Kíla, numa velocidade de execução nem sempre harmoniosa e por vezes inconsequente. Ouviu-se o bodhrán e o djembé em incontido alvoroço em oposição à mansidão do violino em tom de doçura. Os músicos contaram histórias de bandidos, falaram da revolução no Nepal, enalteceram o valor do nosso vinho tinto.
Quando os instrumentos deixaram o som respirar, criando pausas e silêncios, atingiu-se um plano de grande solenidade. Ao contrário, quando os músicos optaram por tocar rápido, perdeu-se a candura e ganhou-se ruído e euforia sem sentido.
Para um inesperado terceiro ‘encore’, os Kíla chamaram os Frei Fado D’el Rei, terminando o 14.º festival Intercéltico com 14 músicos em palco, em ritmo de partilha e festa.
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