Até os 'grandes homens' acabam de fraldas
'Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar', de José Filipe Costa, chega nesta semana às salas.
Quando Salazar caiu da cadeira, em 1968, foi operado. Pouco depois sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Incapaz de governar, foi substituído por Marcello Caetano, mas o ditador, de 79 anos, acreditava estar ainda no poder. Viveu mais dois anos nessa ilusão, no Palácio de São Bento, com toda a gente à sua volta a manter a mentira.
Este episódio da História de Portugal impressionou de tal forma José Filipe Costa, que o realizador decidiu levá-lo ao ecrã. ‘Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar’ estreia nesta semana nas salas e mostra tudo: a decrepitude de um homem que um dia foi grande. Há uma imagem, em particular, que marca: as criadas a mudarem as fraldas de António de Oliveira Salazar.
Ao CM, o realizador diz que “o filme não pretende fazer qualquer comentário – positivo ou negativo – sobre a figura, mas dar espaço a que o espectador faça a sua própria reflexão sobre os acontecimentos”. Muito bem documentado – realizador e equipa leram vários livros sobre o tema, incluindo o marcante ‘Salazar: O Fim e a Morte’, do médico Eduardo Coelho – o filme procura ser fiel aos factos e mostrar as múltiplas facetas de um ser humano complexo.
“Salazar dizia-se modesto e desinteressado mas estava agarradíssimo ao poder. E mesmo nos momentos de maior fragilidade física e mental continuava a ser paternalista para com os outros”, aponta o criador, que diz ter integrado, no resultado final, contributos de toda a equipa e estar particularmente satisfeito com o desempenho dos atores: Jorge Mota (Salazar); Catarina Avelar (Maria) e Guilherme Filipe (o médico).
“Este caso talvez não seja único no mundo, mas mostra bem o que foi o Estado Novo e o que dele nos ficou: o medinho. O medo de tocar nos poderosos e nas instituições resulta nesta passividade tão tipicamente portuguesa.”
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