BONECOS DE PAULA REGO

Um acervo de 150 ‘bonecos’, um terço dos quais inéditos, entre eles o políptico ‘Possession’ e uma série de ‘desenhos íntimos’, constituem o ‘grande teatro do mundo’ da pintora Paula Rego, que a partir de hoje, às 22h00, é inaugurado no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto.

15 de outubro de 2004 às 00:00
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Na apresentação da mostra, ontem, a pintora, senhora de uma tranquilidade genial, considerou que os seus ‘bonecos’ embora mais complexos e muito mais bem feitos, ‘são bonecos à mesma’.

Comissariada por Ruth Rosengarten e João Fernandes, a exposição – que estará patente até 23 de Janeiro do próximo ano –, será um ensejo de revelação, conhecimento e de consolidação para aqueles que preferem ver as criações e as criaturas de Paula Rego, ao vivo, à flor da tela. É que a mais conceituada pintora portuguesa da actualidade, confessou, gosta mesmo é de ver os seus trabalhos nos livros. “Penso que eles se vêem melhor nos livros”, observou, com salpicos de modéstia e ironia.

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RELAÇÃO PINTURA-DESENHO

Na retrospectiva da artista, exposta em 1997, no CCB, em Lisboa, um grande conjunto de desenhos indiciava já a íntima correspondência que essa forma de expressão estabelece, desde a genesis, com a sua pintura, a ponto de revestir o estatuto de uma disciplina fundadora.

“Nasceu assim a ideia de aprofundar numa exposição, a relação entre a pintura e o desenho. Ele é um exercício fundamental no processo criativo”, sublinhou na ocasião o comissário João Fernandes. Uma ideia corroborada por Paulo Rego, segundo a qual “é através do desenho que tenho total liberdade de fazer o que quero e de dizer o que penso”.

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Será, todavia, um desenho a lápis sobre papel a testemunhar a utilidade dessa expressão também como modo de preservação da memória. O ‘Esboço para o Embaixador de Jesus’ é o esquisso sobrevivente da tela pintada, para sempre perdida, este ano nas chamas de um incêndio num armazém londrino.

Em finais de 2002, quando os comissários começaram a discutir os conteúdos com a artista, que declara pintar “para dar ordem à vida”, concluiram que os últimos sete anos haviam sido imensamente prolíficos.

Datam deste período as grandes séries de Paula Rego dedicadas ao romance ‘O Crime do Padre Amaro’, à problemática do aborto, ao ‘Marriage à la Mode’ de Hogarth, a ‘Casa de Celestina’, a ‘Jane Eyre’. Conceberam-se quadros fundamentais como o tríptico ‘Martha, Mary, Magdalene’ (1999) ou as duas ‘Metamorfoses’, a partir de Kafka.

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Do conjunto patente em Serralves, destaque natural para obras do quilate de ‘Possession’ (que abarca sete telas) ou o revelatório ‘Border Patrol: Self Portrait With Lila, Reflection and Ana’, ambos pintados este ano.

Aborto

“O corpo é o fio condutor de todas estas obras, nas quais assistimos a uma encenação que começa em histeria e termina com a tomada de consciência”, indicou por seu lado a comissária Ruth Rosengarten.

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Daí que causas como o aborto estejam presentes nos quadros de Paula Rego, para quem “é uma hipocrisia” criminalizar tal acto.

Da mostra de Paula Rego, que vive em Londres, faz também parte o seu quadro preferido: ‘A mulher dos Lobos’, que de resto, ilustra o convite para a inauguração da exposição, esta noite.

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