‘Canção do Vale’ estreia no Teatro Nacional D. Maria II

Uma peça ternurenta sobre o conflito entre uma geração que pretende a continuidade e outra, jovem, que deseja a ruptura, estreia hoje às 21h45 na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II), em Lisboa. ‘Canção do Vale’, do sul-africano Athol Fugard, é uma produção do Teatro dos Aloés e assinala a estreia na encenação do actor Jorge Silva.

06 de novembro de 2008 às 21:34
‘Canção do Vale’ estreia no Teatro Nacional D. Maria II Foto: Margarida Dias
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O texto estava na gaveta de José Peixoto, director dos Aloés, há três anos, mas só agora – graças à colaboração com o TNDM II – foi possível levá-la à cena. “Achei o texto tão bonito que decidi que iria montá-lo, nem que fosse a última coisa que fizesse”, contou ao CM, explicando que o fascínio da peça se prende, em simultâneo, com a sua simplicidade e universalidade.

A acção de ‘Canção do Vale’ remonta ao difícil período de adaptação dos negros a uma África do Sul pós-Apartheid e ainda longe de conhecer o caminho para a verdadeira identidade. Neste contexto, Abraam Jonkers (José Peixoto), um negro de 75 anos que sempre trabalhou numa terra que não lhe pertencia, só quer continuar a cultivar os seus vegetais e a partilhar a casa com a neta, Veronica, de 17. No extremo oposto, esta anseia com uma vida diferente: recusa tornar-se mulher-a-dias, espécie de “maldição” que pesa sobre as mulheres da família, e quer partir para Joanesburgo, onde um novo espectro de possibilidades se lhe oferece. Veronica sonha ser uma vedeta da música pop internacional – uma Whitney Houston sul-africana – e ninguém a poderá impedir de seguir o seu sonho.

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Apesar de localizada na África do Sul, a história pode ser facilmente transposta para contextos diferentes, e aí reside a sua universalidade. Em causa está, na verdade, o conflito de gerações, que é tão velho como o homem, e a inevitabilidade da mudança – que nem sempre estamos dispostos a aceitar.

O espectáculo de Jorge Silva vive de um texto tão belo quanto simples mas também da excelente contracena entre os actores, José Peixoto e Carla Galvão. Num registo intimista, assiste-se ao conflito de duas personagens que se adoram, desejam coisas diferentes da vida... e têm ambas razão. Ao espectador resta a posição de juiz, que tem de decidir entre duas causas justas.

O cenário de ‘Canção do Vale’, assinado por Ana Paula Rocha, é elementar, mas perfeitamente eficaz: em palco estão meia-dúzia de caixotes de fruta, um carrinho de mão, uma mesa e três bancos de Madeira. É o suficiente para fazer aparecer, credivelmente, uma habitação pobre e um campo de cultivo. Fundamental é ainda a música original de Filipe Melo, que criou melodias belíssimas para as canções que Veronica canta constantemente durante o espectáculo.

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Para ver de quarta a sábado às 21h45, domingos às 16h15, até dia 14 de Dezembro.

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