Comuna abre portas no 38º aniversário
Para assinalar o seu 38º aniversário, que se assinala este sábado, a Comuna – Teatro de Pesquisa, abre as suas portas a partir das 15h00 a quem quiser ver o novíssimo espectáculo de João Mota – ‘O Rei Está a Morrer’.<br/>
Há dois bilhetes para oferecer, por pessoa, para assistir à estreia da peça com que Eugène Ionesco nos fala de uma realidade com a qual, mais tarde ou mais cedo, todos temos de confrontar – a morte.
Em cena, Carlos Paulo – num dos papéis mais impressionantes da sua carreira – é o ‘Rei Bérenger’, personagem a quem, logo no início da acção é comunicado que vai morrer. “Dentro de uma hora e meia. Assim que terminar este espectáculo”, diz Margarida (Tânia Alves), a primeira mulher do monarca e também – descobriremos no final – o anjo da Morte.
João Mota, que assina a versão cénica e a encenação do espectáculo, diz que tinha esta peça em agenda há “três ou quatro anos”. “Como o Álvaro Correia decidiu levar à cena um texto de Beckett este ano, achei que o do Ionesco seguir-se-ia muito bem. Afinal, estamos a falar dos dois grandes mestres do teatro do absurdo”, explica.
Em ‘O Rei Está a Morrer’ a morte do protagonista simboliza a morte de cada indivíduo, um processo lento e doloroso, que atravessa várias etapas diferentes – à medida que a pessoa se tenta posicionar face à inevitabilidade do fim – e que, entre a incredulidade, o medo, a racionalização e, por fim, a aceitação, o Rei consegue comover-nos, impressionar-nos, repugnar-nos, surpreender-nos.
Para alguém que acompanhou de perto os últimos dias de um ente querido, está lá tudo. Quem tiver dúvidas sobre a genialidade de Ionesco, eis a peça que, definitivamente, o confirma como um dos grandes mestres do teatro do século XX (texto é de 1962).
De resto, João Mota diz que esta é uma das peças mais autobiográficas deste autor. “O Ionesco tinha a angústia da morte, vivia obcecado com o fim – como se pode ler nos seus escritos autobiográficos. E o receio da morte não é despiciendo: afinal, do lado de lá pode estar o vazio, o nada... E quanto mais coisas se têm, quanto mais alto se está, mais difícil se torna abdicar da vida – como é o caso deste monarca”, adianta.
Num cenário despojado, concebido em arena, com uma espiral desenhada a branco no chão negro, meia dúzia de bancos de madeira espalhados pelo palco e, dominando a cena, um trono, a encenação de João Mota faz com que tudo se centre na interpretação dos actores e, sobretudo, do protagonista. Carlos Paulo, obrigado a percorrer todas as emoções de alguém que sabe que vai morrer, fá-lo com brilhantismo e conduz o espectador pela mão. Seguimo-lo do início ao fim, acompanhamos os seus raciocínios, compreendemos os seus estados de espírito, empatizamos com as suas dores e lamentamos as suas cobardias.
No elenco estão também Ana Lúcia Palminha, Rui Neto, Mia Farr e Alexandre Lopes. Um espectáculo para ver até 27 de Junho.
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