Concertos de celebração dos 50 anos de carreira de Luís Represas "vão mesmo cumprir-se"
Músico morreu em 22 de julho, aos 69 anos.
Os concertos de celebração dos 50 anos de carreira do cantor Luís Represas, marcados para abril em Lisboa e no Porto, vão realizar-se para lembrar o músico que morreu em julho, anunciou esta terça-feira a promotora.
"Estavam marcados, e vão mesmo cumprir-se os concertos que assinalam os 50 anos de carreira de Luís Represas, a 10 e a 17 de abril de 2027, nos Coliseus de Lisboa e do Porto, deitando mão às canções em nome próprio e às que dividiu com o Trovante", adianta a promotora dos espetáculos, num comunicado enviado à agência Lusa.
Mantendo os concertos, "concretizam-se um desejo e um princípio muito repetidos nas últimas semanas: o de não deixar silenciar, não permitir que se remeta para o esquecimento, uma obra singular, que mudou e moldou os caminhos da Música Portuguesa".
O anúncio é feito no dia em que passam 50 anos sobre a criação dos Trovante, em 04 de agosto de 1976, data que também marca o início da carreira profissional de Luís Represas.
O músico morreu em 22 de julho, aos 69 anos.
Segundo a promotora, "os amigos, os próximos, os cúmplices do percurso ou de partes dele, os parceiros e aqueles que descobriram em Luís Represas uma fonte de inspiração" entenderam que os espetáculos nos Coliseus "não perdem sentido nem alcance".
"Pelo contrário: o mapa musical continua a ser o mesmo, as visitas serão guiadas por aqueles que fazem questão de pegar no testemunho e, assim, respeitar o propósito destas noites em duas salas mágicas e marcantes", refere a promotora.
A direção musical dos concertos estará a cargo de Manuel Faria, "presente e ativo no Trovante e no caminho a solo de Represas", com o apoio de Carlos Garcia, "nuclear nos tempos mais recentes do cantor", e Miguel Nuñez, "o pianista cubano que também andou várias vezes lado a lado com o Luís".
Em palco estarão os músicos dos Trovante, bem como a banda que atualmente acompanhava Luís Represas. "O elenco das vozes chamadas a este desafio único será revelado em breve", refere a promotora.
Os bilhetes já adquiridos para os espetáculos dos dias 10 e 17 de abril nos Coliseus de Lisboa e do Porto, respetivamente, "permanecem válidos". Quem optar pelo reembolso deve contactar a plataforma de bilhética BOL, sendo o dia 05 de setembro a "data limite para devolução".
A carreira de Luís Represas, iniciada em 04 de agosto de 1976, data oficial da formação dos Trovante, está dividia "em dois lados, embora um contamine fortemente o outro", disse o músico em entrevista à Lusa, em maio, quando foram anunciados os concertos.
"A primeira fase é a do aparecimento do Trovante, em 1976. E [de] toda essa fase, até 1992, a história já foi mais do que contada, está mais do que contada: fizeram-se espetáculos [o grupo voltou a juntar-se ao vivo algumas vezes, a última das quais em março deste ano], onde a história se contou ainda mais", disse, na altura.
Desde o final dos Trovante até hoje, "vem uma história que se calhar não foi tão contada, mas foi muito vivida".
Era sobretudo nesses anos, a solo, que iriam incidir os espetáculos nos coliseus.
Luís Represas nasceu em Lisboa em 1956 e, pouco antes de completar 20 anos, fundou os Trovante com os amigos João Gil, Manuel Faria, Artur Costa e o irmão João Represas. Um ano depois saiu o álbum "Chão Nosso".
Esse disco de estreia assinalou a identidade musical do grupo, fortemente influenciado pela música de cariz popular e tradicional e pelo rock.
Os Trovante - nome que remete para uma antiga designação dos trovadores que cantavam e compunham trovas - permaneceriam ativos até aos anos 1990, editando, por exemplo, álbuns como "Baile no Bosque" (1981), "Cais das Colinas" (1983), "Terra Firme" (1987) e "Um Destes Dias" (1990). Depois da separação, reuniram-se algumas vezes, nomeadamente em 1999, em 2006, em 2017 e no passado mês de março.
Luís Represas lançou-se a solo em 1993, com o álbum "Represas", fruto de uma viagem a Cuba, onde foi gravado, e onde tocou com vários músicos, entre os quais Pablo Milanés (1943-2022).
Com músicas como "Fora de Tempo", "Neva sobre a marginal" e "Feiticeira", este álbum foi fundamental no seu percurso, como contou à agência Lusa em maio.
Em 1996, editou "Cumplicidades", álbum que contou com a colaboração do pianista Bernardo Sassetti (1970-2012). Seguiram-se "A hora do lobo" (1998), "Código Verde" (2000), "Reserva Especial" (2001) e "Fora de Mão" (2003).
Em 2008 voltou a editar um álbum gravado na íntegra em Cuba, "Olhos nos olhos", e em 2011 juntou-se a João Gil, cúmplice dos Trovante, para um álbum conjunto: "Luís Represas e João Gil". Depois, editou "Cores" (2014), "Boa hora" (2018) (distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores), "Miragem" (2024) e vários álbuns ao vivo.
Da história de Luís Represas faz parte ainda o apoio à independência de Timor-Leste. A canção "Timor", com música de João Gil e letra de João Monge, que vinha do álbum do grupo "Um destes dias", voltou a juntar os Trovante em 1999 e transformou-se num dos principais temas da luta que levou à independência timorense. A letra viria a ser traduzida para tetum, por Xanana Gusmão.
Represas foi convidado pelo então Presidente português Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste, em 2000. Em 2016, foi condecorado com a Medalha da Ordem de Timor-Leste pelo então Presidente, Taur Matan Ruak. Em 2005, foi distinguido pelo Estado Português com a Ordem de Mérito - grau de Comendador.
Ao longo da carreira Luís Represas trabalhou com músicos como Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Pablo Milanés, Ivan Lins, Martinho da Vila, Simone, Jorge Palma, Phil Collins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown, entre muitos outros.
Represas também enveredou pela restauração, tendo liderado a gestão de um bar-restaurante em Lisboa, o Xafarix, editou um livro infantil, "A coragem de Tição", e apresentou o programa de televisão "Língua Mãe".
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