Diogo Infante é Hamlet terrorista
João Mota esperou 15 anos para realizar o sonho de muitos encenadores: dirigir ‘Hamlet’, a peça mais comentada de William Shakespeare. Diogo Infante desde sempre que se lembra de ter querido fazer esta personagem estranha – misto de génio e de louco – que todos os grandes actores cobiçam, um dia nas suas vidas.
Juntaram-se as duas vontades – e o dinheiro dos orçamentos do Teatro Maria Matos e da Comuna – e o resultado estreia na próxima semana. É a primeira vez que João Mota trabalha com Diogo Infante, embora tivesse sido seu professor no Conservatório durante três anos e já falassem neste projecto há muito tempo.
“Estava sempre a dizer ao Diogo que tínhamos de fazer o ‘Hamlet’, mas só quando tivéssemos dinheiro”, explica o encenador, que comemora, com este trabalho, 50 anos de carreira e 35 anos de Comuna. “Afinal de contas, são 15 actores em cena...”
Sobre a personagem que tem perseguido os estudiosos da literatura desde o século XVI – e sobre a qual já se aventaram todas as teorias – João Mota diz que é fácil perceber o seu fascínio: Hamlet é, pura e simplesmente, tudo!
“Acho que Shakespeare condensou no ‘Hamlet’ todo o mistério humano. O Hamlet é um homem brilhante, mas também um louco, é um amante e, ao mesmo tempo, um guerreiro... Ele até terrorista é”, afirma João Mota, justificando-se a seguir. “É um mártir, um homem que morre por uma causa. E a sua causa chama-se Justiça.”
Usando a tradução de Sophia de Mello Breyner – que escolheu pela “beleza e musicalidade” – e procedendo a alguns cortes cirúrgicos no texto (o que resulta num espectáculo de duas horas e um quarto), João Mota convidou para fazer o cenário o arquitecto José Manuel Castanheira e para fazer a música original um dos seus cúmplices habituais: o compositor José Pedro Caiado. Para o cenário, deu apenas esta indicação: “Há pouco dinheiro!”
O dispositivo cénico – que reduz o palco do Maria Matos e o ‘comprime’ numa pequena cena em ferradura (como acontecia na cena isabelina) – é um espaço vazio, contornado por belíssimas placas de metal que Castanheira pintou. Quanto à música, ela é inspirada na música antiga, do tempo de Shakespeare.
O resto, fazem-no os actores, em cena, encontramos muitos da Comuna, como Ana Lúcia Palminha (Ofélia) ou João Tempera (Laertes) e convidados, como Albano Jerónimo (Horácio). O espectáculo estreia no dia 13, no Maria Matos.
MASTERCLASS
Aproveitando a estreia do espectáculo, o Maria Matos vai realizar uma série de actividades paralelas a decorrer durante este mês e o próximo. João Mota dará uma ‘masterclass’ sobre Teatro e Educação entre 24 deste mês e 5 de Outubro.
CONSTRUIR A PEÇA
A dramaturgista Maria João Rocha Afonso fará uma conferência sobre as opções dramatúrgicas de ‘Hamlet’, destinada a profissionais e alunos de teatro. Dia 2 de Outubro.
PARA OS MAIS JOVENS
Os mais pequenos não serão esquecidos: em Outubro (9 a 21) poderão tentar ‘vestir’ a pele de Hamlet, em oficina.
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