Dois monólogos no fim do Festival de Teatro de Almada

São dois monólogos para ver alternadamente no Grande e no Pequeno Auditórios da Culturgest, em Lisboa. Um cómico e outro dramático; um dito por uma mulher, outro por uma voz masculina. Trata-se das mais recentes encenações de Jorge Silva Melo para os Artistas Unidos – espectáculos que integram a programação do Festival Internacional de Teatro de Almada, e que podem ser vistos este fim-de-semana, mesmo a encerrar a festa.

16 de julho de 2010 às 00:00
Dois monólogos no fim do Festival de Teatro de Almada Foto: Jorge Gonçalves
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Falamos de ‘Fala da Criada de Noailles’, escrita por Silva Melo em 2007 para a actriz Elsa Galvão e que o próprio classifica de ‘paródia inconsequente’ ao mundo das artes, e de ‘Um Precipício no Mar’, um texto de Simon Stephens onde o actor João Meireles relata, na primeira pessoa, um drama do quotidiano.

No primeiro monólogo recuamos até à primeira metade do século XX e acompanhamos a revolução artística e intelectual que então teve lugar na Europa. Através da boca de uma criada (Elsa Galvão), travamos conhecimento com o mecenas Charles de Noailles e descobrimos os pecadilhos de gente como Jean Cocteau, Pablo Picasso ou Luís Buñuel... E tratando-se de um narrador muito terra-a-terra, a sua visão sobre o mundo dos artistas não vai deixar de surpreender.

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Jorge Silva Melo explica que escreveu o texto a pedido de Maria João Seixas, com a premissa de reflectir sobre o mecenato. “Este é um mundo que já não existe – nem pode voltar a existir – mas sobre o qual já todos lá lemos livros, vimos filmes, apreciámos quadros... É o mundo em que a arte era paga e se destinava ao divertimento da aristocracia.”

A inspiração para escrever a peça surgiu no momento em que Jorge Silva Melo estava a ler uma biografia de Luís Buñuel. “A certa altura ele descreve um jantar que terá tido com o Noailles, e eu perguntei-me: alguém deve ter servido este jantar! Quem terá sido? Decidi que a perspectiva sobre a qual ia escrever a peça era a da criada. E já a pensar na Elsa Galvão, que adoro...”

O outro monólogo, ‘Um Precipício no Mar’, e que a nível de conteúdo está nos antípodas deste, gira em torno do drama pessoal de ‘Alex’ (João Meireles) – uma personagem que nos conta, na primeira pessoa, olhos nos olhos com o espectador, uma história de perda. O texto é do mesmo autor de ‘Harper Regan’ – espectáculo com que o TNDM II nos surpreendeu na temporada passada – e é mais uma peça de ‘murro no estômago’.

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“São textos muito intensos, sem estilo, neste caso uma peça para ser feita sem grandes meios: o autor não quer cenário nem figurinos, quer que o actor se sente lado a lado com o espectador e fale com ele directamente”, explica Silva Melo. “E que partilhe com ele uma experiência humana marcante.”

Com uma simplicidade desarmante, o actor fala, com a linguagem do quotidiano, sobre coisas banais. Fala da mulher, da filha que tiveram, do sogro... Mas a banalidade daquilo que diz é contrariado pela tensão que existe na forma como o faz. Ele hesita, baixa os olhos, respira fundo, não consegue evitar os tiques nervosos. A pouco e pouco, é o espectador que começa a sentir-se desconfortável. Porque será que adivinhamos a desgraça?

E a desgraça chegará, inevitável, deixando-nos sem palavras.

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Ambos os espectáculos são para ver na Culturgest, em Lisboa, até 18. A horas alternadas, para que quem queira possa ver os dois no mesmo serão.

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