'E não se pode matá-los?' na Comuna
Uma família (muito) disfuncional de gente obesa onde tudo – até as refeições – são motivo de gritaria. Um pai violento, uma mãe ausente, uma filha reprimida e obrigada a fazer de rapaz para agradar ao progenitor. Eis o núcleo de personagens da peça ‘E não se pode matá-los?’, que a espanhola Alicia Guerra escreveu e que João Mota encenou na Comuna, em Lisboa, onde pode ser vista até Abril.
Classificado para maiores de 16 anos, este não é, porém, um espectáculo que se aconselhe a todo o tipo de público - por "conter imagens que podem ferir a sensibilidade de alguns (tele)espectadores".
Dispensando a distância ‘confortável' entre actores e público, entre palco e plateia, o espectador entra para a sala e é ‘convidado' a partilhar o mesmo espaço que os intérpretes.
Aí, ao longo de hora e meia, terá de se desviar das investidas de alguns, dos arremessos de outros, terá de se esquivar de ‘tiros' e cenas de pancadaria, terá de fugir dos ‘jornalistas' que querem fazer perguntas incómodas em entrevistas de rua.
Na verdade, não há propriamente uma história para contar, ou sequer uma estrutura que pareça organizar-se com princípio, meio e fim. Apenas uma sequência de cenas - umas reais outras sonhadas pelas personagens - onde somos (mesmo) obrigados a tomar consciência da (omni)presença da violência no nosso quotidiano.
Sobretudo aquela que nos é servida, diariamente e em quantidades maciças, pela televisão.
O recurso à projecção de cenas de filmes, à reprodução de fotos com cenas de grande crueldade, à exibição de vídeos gravados pelos actores onde se narram algumas torturas praticadas em nome da ‘tradição' - eis o cardápio disponibilizado por esta produção. E não é possível pedir mais aos actores - sobretudo ao elenco central, composto por Álvaro Correia, Tânia Alves e Maria Ana Filipe -, que consegue criar, em cena, figuras ‘ubuescas' mas, ao mesmo tempo, tão próximas de nós.
Vários adjectivos vêm à cabeça durante e depois de ver o espectáculo. "Chocante" é um deles. "Pertinente" também.
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