Ella Berthoud: Desde os cinco anos que leio para me sentir melhor

Autora esteve em Lisboa a promover 'Remédios Literários – Livros para Salvar a sua Vida de A a Z’.

01 de junho de 2016 às 14:31
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Ella Berthoud esteve em Lisboa a promover o livro ‘Remédios Literários – Livros para Salvar a sua Vida de A a Z’ (Quetzal), uma obra que dá continuidade às consultas de biblioterapia que dá em Londres desde 2008. A ideia é que, para qualquer mal que nos aflija, já um livro que pode ajudar…

Eu e a Susan [Elderkin] também achávamos que sim, no princípio. Achávamos que tínhamos inventado o conceito. Mas depois começámos a investigar, e chegámos à conclusão de que afinal não éramos assim tão geniais [risos]. A ideia vem de Platão, embora de forma diferente… Platão falava do efeito catártico do teatro, da poesia e, de uma forma geral, das histórias. Também houve uma experiência durante a Segunda Guerra Mundial… Alguns médicos recomendavam livros da Jane Austen aos seus pacientes traumatizados.

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Sim. Acho que consideravam que eram livros tranquilizadores… Que faziam os pacientes pensarem nos seus lares, em Inglaterra, num mundo mais calmo, a quilómetros de distância do campo de batalha. A ideia de fazer biblioterapia foi usada nessa altura, na década de 50. Depois voltou a ser usada na década de 60, com crianças: alguns psicólogos recomendavam determinado tipo de livros a jovens com problemas. Portanto, a ideia tem andado por aí…

E as pessoas pagam mesmo para que a Ella e a Susan lhes recomendem livros para "ficarem melhor"?

Sim, sim. É incrível, não é? E não pagam tão pouco quanto isso. Uma consulta de uma hora custa 100 libras [cerca de 129 euros]. Damos as consultas na School of Life (literalmente, a Escola da Vida), fundada por Alain de Botton, em 2008, em Bloomsbury, Londres. Na verdade é uma loja situada no coração de uma das partes mais encantadoras da cidade, onde se faz toda a espécie de cursos para a mente.

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E em que consiste a sessão de biblioterapia?

É muito intenso. Quando alguém se inscreve como cliente, para fazer biblioterapia, enviamos-lhe um questionário. Deve responder a questões como: o que costuma ler; porquê; em que sítios costuma fazê-lo; como gosta de ler; com quem gosta de ler; qual foi o último livro que leu e adorou; qual foi o último livro que começou a ler e abandonou; as razões porque o fez… Tudo isso. Depois, há uma parte de perguntas pessoais: se a pessoa é casada, solteira, viúva ou divorciada; se tem filhos; que problemas tem na sua vida; se está com vontade de fazer uma mudança radical… Depois, lemos as respostas e marcamos um encontro com a pessoa. Um encontro de uma hora, ao longo da qual abordamos todos esses assuntos, de forma mais pormenorizada, e no fim damos à pessoa uma recomendação. Que leia um livro que será o ideal para ela.

Sim, mas também lhe enviamos uma lista com outros seis, explicando as razões da recomendação. Não é só uma lista, há uma explicação "médica", se quiser. Também discutimos muito com os clientes os seus problemas com a leitura, porque hoje em dia as pessoas queixam-se da falta de tempo e de disponibilidade para ler. Ou porque estão ocupadas, ou distraídas com a internet… Discutimos formas alternativas de ler, como fazer sessões de leitura em voz alta com o parceiro, ou ouvir audiolivros… Sugerimos sempre que tenham um bloco onde apontam os títulos dos livros que vão lendo, para que não se esqueçam deles. Há muitos conselhos a dar a quem quer ler. Finalmente, fazemos acompanhamento do processo por mail. O preço da consulta também inclui conversas electrónicas sobre a experiência.

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E resultados? As pessoas que vos consultam sentem-se melhor depois de lerem os livros recomendados? Ficam ‘curadas’ dos seus problemas?

Os resultados são muito positivos. Não há propriamente uma ‘cura’ – todos os problemas são uma realidade dinâmica – mas as pessoas sentem-se mais aliviadas. E algumas das que nos procuram fazem-no pela simples razão de que gostam, e precisam, de falar de livros. Ficam contentes só com o facto de lhes recomendarmos novos livros para ler.

No livro, os problemas elencados são curiosos: desde a solidão à depressão ou à ansiedade; passando por situações de divórcio ou da saída de casa dos filhos. Imagino que também recorra aos livros para se sentir melhor?

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Desde que comecei a ler, aos cinco anos. E depois tornou-se muito claro, para mim, que era o que estávamos a fazer, eu e a Susan, a partir do momento em que nos conhecemos na Universidade de Cambridge. Oferecíamos livros uma à outra quando andávamos tristes, quando sofríamos um desgosto de amor, quando enfrentávamos uma crise existencial e não sabíamos o que fazer com o nosso futuro. Deixávamos um livro à porta uma da outra. A certa altura percebemos o que estávamos a fazer: estávamos a usar a ficção como uma forma de terapia. Primeiro era inconsciente, mas depois começámos a falar disso abertamente. Decidimos que sermos ‘médicas de livros’ era uma ideia fantástica.

Quanto tempo passou, desde o momento em que tiveram a ideia até a porem em prática?

Dez anos. Porque entretanto a Susan tornou-se romancista, eu tornei-me pintora. Nesses dez anos fomos felizes nas nossas profissões, mas mantínhamos o projeto em banho maria e de vez em quando falávamos disso. Até ao dia em que nos encontrámos por acaso com Alain de Botton, que conhecíamos vagamente de Cambridge, e ele estava a dar os primeiros passos com a Escola da Vida. Fizemos-lhe a proposta e ele achou a ideia ótima. Foi assim que tudo começou.

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Fale-me de um livro que tenha feito uma grande diferença na sua vida.

Provavelmente aquele que mais me afetou, e do qual falo constantemente, é ‘Jiiterburg Perfume’, do Tom Robbins. É um autor americano que escreveu sete ou oito livros, incluindo ‘Até as Vaqueiras Ficam Tristes’, que inspirou o filme. Uma mistura entre Thomas Pynchon e Carl Hiassen, que juntam diversão e sabedoria. ‘Jiiterburg Perfume’ é a história de um homem que procura, e encontra, a imortalidade. Li-o com 18 anos, que é a idade certa para o fazer, mas voltei a lê-lo depois.

Não receia que um livro que tenha tido tanto impacto deixe de lhe dizer seja o que for, quando o volta a ler, anos depois?

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Sim, mas acho que devo revisitá-lo mesmo correndo esse risco. O outro livro ao qual volto repetidamente é ‘Metamorfoses’, do Ovídio, que recomendo vivamente. É um livro que nos reconforta relativamente à ideia de mudança e de morte.

Estudou em Cambridge. No entanto, não recomenda apenas alta literatura às pessoas. E não lê apenas alta literatura…

É verdade. Como leitora sou omnívora. Leio desde David Foster Wallace até Jojo Moyes, portanto basicamente tudo, desde o mais difícil ao mais leve. E acho que é saudável. Há momentos em que precisamos de alimentar o cérebro com os escritos de Fernando Pessoa, outros em que só queremos mergulhar num thriller de leitura compulsiva, daqueles que não conseguimos largar até às tantas da madrugada. O ideal é ter as duas experiências ao mesmo tempo. No meu caso, acrescento-lhes ainda os audiolivros, sobretudo das leituras mais leves, porque os livros, se forem muito bem escritos, perde-se a beleza das palavras ao ouvi-los.

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Leu todos os livros que recomenda neste manual?

Sim, todos. É um compêndio de tudo o que lemos, eu e a Susan, desde a adolescência. Portanto, estão lá os livros da Jane Austen, do Thomas Hardy e da Daphne du Maurier, que lemos aos 14 ou 15 anos, e as coisas mais recentes. Foi muito fácil chegar aos títulos que queríamos recomendar. Começámos com 700, mas tivemos de reduzir para 500, senão o livro tornar-se-ia impossível de manusear. Mesmo no fim, houve um livro acrescentado à última hora: tinha acabado de ser foi publicado e respondia à ‘cura’ para a calvice. Foi o ‘Sun Dog’, da Monique Roffey.

Como encontraram recomendações para todos os males? Até a calvice?

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Para alguns problemas mandámos mails aos nossos amigos e conhecidos. Pedimos conselhos a escritores como Geoff Dyer, Patrick Gale ou Louisa Young, ou a intelectuais de Cambridge. Muitos também vieram dos nossos clientes. Quando começámos a preparar o livro, em 2011, já tínhamos uma lista de obras que as pessoas diziam ter ajudado nesta ou naquela situação, porque tínhamos tirado imensas notas. Qual é o melhor livro para ler quando a nossa mãe tem cancro, por exemplo. Coisas assim…

Nesta lista de livros recomendados, também estão autores portugueses. Também leram Agustina Bessa-Luís ou Júlio Dinis?

Nem todos, não, porque não leio em português e não há traduções de tudo... Já tínhamos escrito sobre José Saramago, que tanto eu com a Susan adoramos. E conhecemos a obra de Fernando Pessoa. Mas depois o Francisco José Viegas, da Quetzal, ajudou-nos a acrescentar uns quantos nomes portugueses. Tenho de os ler rapidamente…

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