ESCALADA DE VIOLÊNCIA
No ano passado, a companhia portuense Ao Cabo Teatro trouxe à Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, a violentíssima peça “Purificados”, de Sarah Kane.
Esta temporada, e até 15 de Junho, está a apresentar no mesmo espaço um texto para maiores de 16, escrito por um jovem (Marius von Mayenburg, de 31 anos) e que tem como alvo preferencial plateias jovens.
Trata-se de “Parasitas”, peça que se organiza como uma escalada de violência verbal, física e emocional: em cena vemos cinco personagens num crescendo de agressividade até ao clímax, sem que no fim se apontem soluções para o seu desespero.
Porquê o título? Porque as personagens se relacionam umas com as outras de forma parasitária. Multscher atropelou Ringo, deixou-o numa cadeira de rodas e agora quer tratar dele para apaziguar a sua consciência. Betsi vive para cuidar dos doentes: primeiro o namorado, Ringo, depois a irmã, Frederica, grávida e abandonada pelo namorado. É a maneira que encontrou para se sentir superior. E assim por diante.
O texto não é original nem na forma nem no conteúdo. Em relação à falta de sentido da vida das personagens, desde que Beckett começou a escrever que o absurdo se tornou omnipresente no teatro ocidental. Já lá vai mais de meio século. E desde Artaud que o público não se impressiona com a violência cénica.
Nuno Cardoso é, porém, de uma competência acima de suspeita e faz com que o espectáculo valha a pena. A mão do encenador nota-se sobretudo na forma como concebeu a movimentação cénica, fugindo do óbvio e evitando a monotonia, e na direcção dos actores, impecável na gestão do ritmo geral e na articulação dos momentos de calma e exaltação. O elenco, sem excepção, responde bem ao que é pedido, embora se destaque, talvez, um António Fonseca num registo cómico que domina totalmente.
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