Este filme parece-me capaz de surpreender

A primeira vez que Andrew Lloyd Webber convidou Joel Schumacher para que este realizasse a passagem ao cinema do seu musical ‘O Fantasma da Ópera’ – em exibição em Portugal – foi em 1988. O veterano novaiorquino, hoje com 65 anos, ainda se mostra estupefacto com o desafio: “Até então, eu tinha dirigido quatro filmes e o mais recente, ‘Os Rapazes da Noite’, era sobre vampiros! Felizmente, eu tinha uma agenda ocupada, o Andrew decidiu adiar para poder rentabilizar o impacto do musical nos teatros, o projecto ficou adormecido…”

27 de dezembro de 2004 às 00:00
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“Mas tornámo-nos amigos e, apesar de lhe ter recomendado alguns cineastas muito capazes para a tarefa, ele nunca avançou. No Natal de 2002, ele e a mulher voltaram ao ataque… Só tinha duas soluções, as mesmas que se deparam a quem sonha escalar o Everest – ou pensa que vai morrer ou que vai conseguir. Optei pela segunda”, explica.

Schumacher já fizera crescer, e muito, a sua filmografia, assinando, entre outros, ‘O Cliente’, dois dos filmes da saga de ‘Batman’, o polémico ‘8 Milímetros’ ou a comédia ‘Más Companhias’. Quanto à música, só se tinha aproximado com a realização de videoclips para os INXS, para Seal e para os Smashing Pumpkins.

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Mas está satisfeito com o calendário que o destino lhe trouxe: “Foi bom esperarmos… Hoje, a tecnologia permite-nos efeitos visuais muito mais baratos e mexer nas vozes de maneira a corrigir pequenos problemas. Se quiser ser romântico, diria que estivemos à espera que a Emmy (Rossum, a protagonista) nascesse e crescesse. E, além disso, espero ser hoje melhor realizador do que era na altura…”.

O único acordo com Webber consistiu numa troca: “Eu filmaria o que quisesse e como quisesse, disponibilizando-se ele até para escrever música nova – como aconteceu. Além disso, podia escolher quem quisesse com uma condição: cada actor tinha realmente que cantar, sem dobragens. Fechámos negócio”, conta.

Algum do trabalho de 1988 foi recuperado, mas Schumacher reclama que a parte de leão foi cumprida neste segundo andamento: “O ‘Fantasma...’, que tem uma componente de terror e de mistério, deve muito aos filmes mudos, aos Frankensteins e Dráculas, até pela iconografia. E quem vai ver um filme destes quer cenários sumptuosos, iluminação que lhe recorde a Paris dos candeeiros a gás, um guarda-roupa inesquecível. Nesse aspecto, julgo que cumpri bem o meu papel: a minha tarefa mais difícil foi conseguir contratar uma equipa com pessoas todas mais talentosas do que eu…”.

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Cita o exemplo de Alexandra Byrne, responsável pelo guarda-roupa: “Pedi-lhe que fizesse tudo em preto e branco, dourado e prateado, para uma determinada cena. E, com pesquisa e inspiração, é essa base que torna essa mesma cena memorável”.

Schumacher lembra influências de ‘Camille’ (de George Cukor) e de ‘Madame Bovary’ (de Vincent Minnelli). Mas acaba por reconhecer que a inspiração máxima veio de Visconti e de ‘O Leopardo’: “Se é para copiar, então copiemos dos génios. E hão-de notar que um dos vestidos de Emmy é muito parecido com aquele que Claudia Cardinale usa quando dança com Burt Lancaster…”.

Outra exigência de Schumacher prendia-se com a juventude do elenco, “essencial para dar verosimilhança à história”. Conclui: “Acho que conseguimos. O Gerald Butler, que tinha visto no ‘Drácula 2000’, é uma presença enorme na tela e superou-se para poder cantar todo o papel do Fantasma. O Patrick Wilson, um Raoul natural, tem experiência de 30 musicais na Broadway. A Emmy tinha a escola do canto lírico, da sua vivência na ópera. Depois, a Minnie Driver é uma enorme comediante a quem são dadas poucas oportunidades para nos fazer rir… Estou muito satisfeito com todos e com o filme, que me parece capaz de surpreender até quem não goste especialmente de musicais. Para mim, foi um desafio enorme – mas quem olhar para o que já fiz percebe que não gosto de trabalhar à sombra da bananeira…”.

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Realizador, argumentista e produtor, Joel Schumacher nasceu em Nova Iorque a 29 de Agosto de 1939. Filho de mãe sueca, tirou um curso de ‘design’ e trabalhou como vitrinista antes de entrar para a indústria cinematográfica.

Tornou-se notado com os filmes ‘St. Elmo’s Fire’ (1985), com Demi Moore e Rob Lowe, e ‘Linha Mortal (1990), com Julia Roberts e Kiefer Sutherland a liderar o elenco. Assinou os videoclips de ‘Kiss From a Rose’ (Seal), ‘Devil Inside’ (INXS) e ‘The End Is The Beginning Is The End’ (Smashing Pumpkins) e consolidou-se como cineasta graças a filmes como ‘O Cliente’ (1994), ‘Batman Para Sempre’ (1995), ‘Tempo de Matar’ (1996), ‘Batman & Robin’ (1997), ‘8 Milímetros’ (1999) e o excelente ‘Cabina Telefónica’ (2002). Actualmente, encontra-se a trabalhar na pré-produção de ‘The Crowded Room’, sobre o homicída e violador Billy Milligan, com estreia prevista para 2006.

O LUSTRE

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Desenhado e construído pelos joalheiros da Swarovski, custou quase 1,5 milhões de euros. A marca recuperou-o no final da rodagem mas, nas suas lojas em Londres, os cartazes anunciavam: “A Swarovski está presente no ‘Fantasma da Ópera’”.

AS ESTÁTUAS

Homenagem do cineasta ao preto e branco dos filmes mudos, mas também uma recordação de viagem. “Há quase 20 anos, Joel ficou muito impressionado com um anjo gigantesco que parecia pairar sobre um cemitério em Viena (Áustria)”, conta Minnie Driver.

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O GUARDA-ROUPA

Baseou-se em pinturas de Degas e na pesquisa de Alexandra Byrne, que visitou inúmeros museus do traje e incumbiu a sua equipa de copiar texturas e padrões para aumentar o ‘glamour’ do filme. A provadora de serviço foi Minnie Driver pela “silhueta perfeita”.

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