"Filme é um soco no estômago”

Bruno Barreto realizou ‘Autocarro 174’, já em exibição. A trama ficciona o drama real que acabou com um sequestro mortífero no Brasil, em 2000.

02 de abril de 2009 às 22:18
"Filme é um soco no estômago” Foto: Jorge Paula
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Correio da Manhã – Em ‘Autocarro 174’ o retrato social do Brasil, das favelas, da droga, dos assaltos e da violência é quase magnético...

– A trama trata das relações humanas. O contexto social é só um extra. Adorei o ‘Cidade de Deus’ [de Fernando Meirelles] mas o meu filme é diferente, vem na contramão.

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– E foi buscar o Bráulio Montovani, argumentista de ‘Cidade de Deus’, por essa razão?

– Vi o filme, gostei muito e fui ler o livro: é totalmente diferente. O protagonista do ‘Cidade de Deus’, o fotógrafo ‘BuscaPé’, tem só cinco páginas no livro e no filme ele é o fio condutor. O facto de o argumentista ter ‘pescado’ aquela personagem de cinco páginas e transformá-la no protagonista...?! É grande!

– Então falou com ele...

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– Sim. Disse-lhe que queria fazer o filme do ‘Ônibus 174’ – documentário de José Padilha –, ao que ele respondeu: essa história já está gasta. E eu falei: "Não quero fazer a versão ficcional do documentário, quero contar a história da mãe."

– Representou o Brasil na pré-candidatura ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ficou de fora mas isso foi um prémio para si?

– Claro. Acho que ficou de fora por causa da violência de que o júri, com uma média etária muito alta, não gosta muito. O filme é violento, mas emocionalmente.

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– Como escolheu o protagonista, Michel Gomes, o bandido ‘Sandro’?

– Fiz um ano e meio de testes. Ele participara no ‘Cidade de Deus’ com oito anos e, quando fez o meu filme, já tinha 17. Sofreu um pouco.

– Trabalhou com actores não profissionais. Como foi?

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– É um sonho, nunca se sabe o que eles nos vão dar e tudo o que dão é bom. O desafio foi pôr os profissionais no mesmo registo.

– Já fez filmes em Hollywood, com a Gwyneth Paltrow, Al Pacino, Amy Irving (ex-mulher do realizador)... são registos diferentes?

– Não muito. No Brasil há mais entusiasmo. Como a indústria é mais pequena, não é só mais um filme, tem sabor a vitória.

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– E este foi mais um filme?

–É o filme da minha vida. Mexe comigo, é um soco no estômago.

BANDIDO COM FINAL TRÁGICO

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Rio de Janeiro, Junho de 2000: um jovem drogado barrica-se num autocarro. As TV mostram em directo. Em 2002, José Padilha (‘Tropa de Elite’) faz o documentário sobre a vida de ‘Sandro’, o bandido que acabou por morrer, tal como uma passageira. Em ‘Autocarro 174’, Bruno Barreto ficciona agora a vida do bandido e de uma mulher que pensava ser sua mãe. Nos cinemas. 

PERFIL

Bruno Barreto nasceu há 54 anos no Rio de Janeiro. Começou como fotógrafo e já fez 20 filmes, entre os quais ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’. Depois de Los Angeles, vive em S. Paulo.

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